Em seu "Refrão da Fome", Le Clézio recorre às lembranças da família como combustível da sua ficção, desnudando a trajetória da mãe. O romance abrange o trágico período entre guerras, acompanhando a decadência de uma família natural das Ilhas Maurício que vive em Paris.
Mas o que poderia ser apenas mais uma recriação de história real sobre a Segunda Grande Guerra, assume um tom dramático, sem frases de efeito, tecido apenas pelo fio da memória, graças ao engenho empregado por Le Clézio na hora de estruturar a narrativa.
O pulo do gato está na escolha da menina Ethel para conduzir a trama. É através da sua percepção infantil que percebemos as mudanças vividas pela Europa, com seu olhar ingênuo tentando entender a ascensão do comunismo e as ideias propostas pelo chanceler alemão Adolf Hitler, até então questões ainda envolvidas pela névoa da proximidade histórica.
Os assuntos primeiro surgem no campo das ideias, a partir das discussões ocorridas durante as festas promovidas pelo pai de Ethel. A menina passa a anotar trechos dessas conversas em seu diário, que, embora guardem o tom despretensioso de passa-tempo, servem como um retrato daquela época instável de ferveção ideológica.
Algo que só será, de fato, esclarecido após a invasão e dominação dos alemães da França. Sob o jugo dos nazistas, a família de Ethel começa a sentir na pele o significado do projeto de Hitler, sofrendo com a escassez de alimentos e a privação da liberdade, além de assistir à degradação humana e ao aumento da xenofobia.
Apesar da importância histórica dos fatos, as transformações sociais dessa época aparecem como detalhes da trama, relatadas à distância. A guerra em si surge de relance através de um breve relato de Laurent, namorado de Ethel que lutou como soldado numa operação ao norte do país. A caça aos judeus não poderia passar em brancas nuvens. É retratada por meio do incômodo de Laurent em relação ao silêncio opressivo e soturno no apartamento de sua tia, que fora levada para a prisão de Drancy.
As transformações políticas ocorridas na Europa da época servem quase como uma metáfora da vida de Ethel.
Na narrativa, essas modificações decorrentes da ascensão do nazismo e o surgimento do comunismo são contadas em paralelo ao difícil processo de amadurecimento da personagem. Aparecem enquanto Ethel desenvolve uma relação de amizade com a garota russa Xénia; sofre a perda do seu querido tio-avô; descobre o amor com Laurent e vive o drama da decadência financeira de sua família, que perde quase todo patrimônio, inclusive as amizades, após sucessivos negócios fracassados do seu pai.
A partir desse círculo familiar, construindo sutis relações entre os personagens e a situação caótica da França, por meio do esmiuçar labiríntico da memória autobiográfica, Le Clézio reflete uma quadra de tempo de um Continente que a História revelou como trágico.
É aquele velho lema preconizado por Lév Tolstói, aqui parafraseado: Le Clézio, sem sair um milímetro sequer do seu cercado, falou para todos nós.