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    Refrão da fome -

    J.M.G Le Clézio

    Cosac Naify
    2009
    248 páginas
    8h 16m
    ISBN-14: 9788575038529_
    Português Brasileiro
    3.8
    110 avaliações
    Leram159Lendo5Querem240Relendo0Abandonos3Resenhas10
    Favoritos11Desejados240Avaliaram110

    Refrão da fome é o romance mais recente do escritor francês Jean-Marie Gustave Le Clézio (1940), Prêmio Nobel de Literatura em 2008. Como em O africano (Cosac Naify, 2007), em que o autor mescla suas vivências de menino às do pai, Refrão da fome traz a reconciliação com o passado a partir de uma história inspirada na trajetória de sua mãe. O livro, publicado pouco antes de o escritor receber o Nobel, narra a história da garota Ethel e de sua família, na Paris dos anos 1920-30. Em um primeiro momento, a obra se mostra um relato um tanto sentimental da garota e sua típica vida burguesa, mas, aos poucos, o que se vê é um desmoronamento de todos os valores até então caros à menina: a morte de seu tio-avô, a rejeição de sua melhor amiga, a crise no casamento de seus pais, a falência e a miséria. Entrelaçada a um contexto histórico, a história da ruína pessoal de Ethel se transforma na ruína de um mundo atingido pelo nazismo, pela Segunda Guerra e pela ocupação da França. Le Clézio trabalha com maestria estas duas camadas de narrativa, traçando o painel histórico de uma época, ao mesmo tempo em que cria um pequeno retrato de sua “heroína”. O leitor segue com crescente interesse, indignação e emoção a cada passo da trajetória de Ethel, impressionado ao mesmo tempo com a escrita apaixonada e lúcida deste notável autor.

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    Arsenio Meira picture
    Arsenio Meira14/11/2013Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Memória que é Arte

    Em seu "Refrão da Fome", Le Clézio recorre às lembranças da família como combustível da sua ficção, desnudando a trajetória da mãe. O romance abrange o trágico período entre guerras, acompanhando a decadência de uma família natural das Ilhas Maurício que vive em Paris. Mas o que poderia ser apenas mais uma recriação de história real sobre a Segunda Grande Guerra, assume um tom dramático, sem frases de efeito, tecido apenas pelo fio da memória, graças ao engenho empregado por Le Clézio na hora de estruturar a narrativa. O pulo do gato está na escolha da menina Ethel para conduzir a trama. É através da sua percepção infantil que percebemos as mudanças vividas pela Europa, com seu olhar ingênuo tentando entender a ascensão do comunismo e as ideias propostas pelo chanceler alemão Adolf Hitler, até então questões ainda envolvidas pela névoa da proximidade histórica. Os assuntos primeiro surgem no campo das ideias, a partir das discussões ocorridas durante as festas promovidas pelo pai de Ethel. A menina passa a anotar trechos dessas conversas em seu diário, que, embora guardem o tom despretensioso de passa-tempo, servem como um retrato daquela época instável de ferveção ideológica. Algo que só será, de fato, esclarecido após a invasão e dominação dos alemães da França. Sob o jugo dos nazistas, a família de Ethel começa a sentir na pele o significado do projeto de Hitler, sofrendo com a escassez de alimentos e a privação da liberdade, além de assistir à degradação humana e ao aumento da xenofobia. Apesar da importância histórica dos fatos, as transformações sociais dessa época aparecem como detalhes da trama, relatadas à distância. A guerra em si surge de relance através de um breve relato de Laurent, namorado de Ethel que lutou como soldado numa operação ao norte do país. A caça aos judeus não poderia passar em brancas nuvens. É retratada por meio do incômodo de Laurent em relação ao silêncio opressivo e soturno no apartamento de sua tia, que fora levada para a prisão de Drancy. As transformações políticas ocorridas na Europa da época servem quase como uma metáfora da vida de Ethel. Na narrativa, essas modificações decorrentes da ascensão do nazismo e o surgimento do comunismo são contadas em paralelo ao difícil processo de amadurecimento da personagem. Aparecem enquanto Ethel desenvolve uma relação de amizade com a garota russa Xénia; sofre a perda do seu querido tio-avô; descobre o amor com Laurent e vive o drama da decadência financeira de sua família, que perde quase todo patrimônio, inclusive as amizades, após sucessivos negócios fracassados do seu pai. A partir desse círculo familiar, construindo sutis relações entre os personagens e a situação caótica da França, por meio do esmiuçar labiríntico da memória autobiográfica, Le Clézio reflete uma quadra de tempo de um Continente que a História revelou como trágico. É aquele velho lema preconizado por Lév Tolstói, aqui parafraseado: Le Clézio, sem sair um milímetro sequer do seu cercado, falou para todos nós.

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    Jean-Marie Gustave Le Clézio profile picture

    Jean-Marie Gustave Le Clézio

    Jean-Marie Gustave Le Clézio, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura 2008, nasceu no ano de 1940, em Nice, na França, mas suas origens também nos levam à ilha Maurício, onde nasceram seus pais. Formou-se em letras e, em 1963, aos 23 anos de idade, ganhou o prêmio literário Renaudot pelo seu livro Le procès-verbal. De lá para cá, publicou contos, novelas, romances, ensaios e livros de literatura infanto-juvenil. No Brasil, foram publicados os títulos: O deserto (Brasiliense, 1986), A quarentena (Companhia das Letras, 1997) e Peixe dourado (Companhia das Letras, 2001). Atualmente, vive entre Albuquerque, no Novo México, a ilha Maurício e Nice.

    51 Livros
    19 Seguidores

    Jean-Marie Gustave Le Clézio