E toda a perfeição do amor de Deus, consiste em unir a nossa vontade com a sua santíssima vontade. "O principal efeito do amor, diz São Dionísio (De divinis nominibus, c. 4.), é unir a vontade daqueles que se amam de maneira que se torne uma e a mesma vontade." Por conseguinte quanto mais a pessoa está unida coma vontade divina maior será o seu amor. Penitências, meditações, comunhões e obras de caridade, praticadas para com o nosso próximo, são de certo agradáveis a Deus, mas quando? Quando estas obras são feitas em conformidade com a sua vontade; mas, quando elas não são praticadas pela vontade de Deus, não só lhe são desagradáveis, mas odiosas e merecedoras unicamente de castigo.
Tratado da Conformidade com a Vontade de Deus -
Santo Afonso de Ligório , Santo Afonso Maria de Ligório
Tratado da Conformidade Com a Vontade de Deus
Toda a nossa perfeição consiste em amar ao nosso amabilíssimo Deus. E toda a perfeição do amor de Deus consiste em unir a nossa vontade com a sua santíssima vontade. “O principal efeito do amor”, diz S. Dionísio (De divinis nominibus , c. 4), “é unir a vontade daqueles que se amam de maneira que se torne uma e a mesma vontade”. Por conseguinte, quanto mais uma pessoa está unida com a vontade divina maior será o seu amor. Penitências, meditações, comunhões e obras de caridade, praticadas para com o nosso próximo, são decerto agradáveis a Deus, mas quando? Quando estas obras são feitas em conformidade com a Sua vontade; mas, quando elas não se praticam pela vontade de Deus, não só lhe são desagradáveis, mas também odiosas e merecedoras unicamente de castigo. “O Senhor”, disse o Profeta a Saul, “não deseja sacrifícios, mas obediência à sua vontade: acaso pede o Senhor holocaustos e vítimas, e não obediência à sua vontade?” (1Sm 15, 22-23). Aquele que trabalha segundo a sua própria vontade, e não conforme a vontade de Deus, comete uma espécie de idolatria, porque em lugar de adorar a vontade divina, adora de alguma maneira a sua própria. A maior glória, pois, que nós podemos dar a Deus, é cumprir sua bendita vontade em tudo. O nosso Redentor, que desceu dos Céus à Terra para promover a divina glória, cumprindo com a divina vontade, veio principalmente ensinar-nos a assim o praticarmos, pelo seu mesmo exemplo. E ele repetidas vezes declara, que não veio fazer a sua vontade, mas sim a de seu Eterno Pai: “Eu desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas sim para cumprir a daquele que me enviou” (Jo 6). E nisto, desejava Ele que o mundo conhecesse o amor que tinha a seu Pai, na sua obediência à sua vontade, a qual era que Ele fosse crucificado sobre uma cruz para salvação do gênero humano: por isso, quando o Senhor se adiantou a encontrar seus inimigos, no horto de Getsêmani, que vinham para o prender e matar, Ele disse: “Eu me entrego ao seu furor, para que o mundo veja que eu amo a meu Pai: e que cumpro o que meu Pai me tem ordenado: levantai-vos pois e vamos daqui” (Jo 14, 31). E desta maneira, cumprindo com a divina vontade, Ele disse que conhecia quem era seu irmão: “Aquele que fizer a vontade de meu Pai, que está no Céu, esse é meu irmão” (Mt 12, 50). Tem sido sempre este o fim que os Santos todos têm levado em vista: a conformidade com a vontade de Deus, conhecendo muito bem que nisto consistia a pureza da alma. O beato Henrique Suso disse: “Deus não quer que nos abundemos em luzes espirituais, mas sim que em tudo nos conformemos com a sua divina vontade”. E Santa Teresa: “Tudo o que se deve procurar no exercício da oração é a conformidade da nossa vontade com a vontade divina, tendo por certo que nisto consiste a maior perfeição. Aquele que for mais superior nesta prática receberá maiores mercês de Deus, e fará os maiores progressos no caminho da perfeição”. Beato Suso, exclama: “Eu antes queria ser o mais vil inseto que se arrasta pela terra, pela vontade de Deus, do que ser um Serafim pela minha vontade. Nós devemos neste mundo aprender dos Santos, que estão no Céu, a maneira de amar a Deus. O amor, puro e perfeito, que os Bem-aventurados no Céu têm para com Deus consiste em uma perfeita união da sua vontade à divina vontade. Se os serafins entendessem ser esta vontade, que eles levantassem montes de areia sobre as praias do mar, por toda a eternidade, ou que arrancassem erva nos jardins, eles o fariam com o maior prazer e gosto. E mais ainda: se Deus lhes dissesse que seriam queimados no fogo do inferno, eles desceriam imediatamente ao abismo, para cumprirem a vontade divina. E é o que Jesus Cristo nos ensina a pedir, que se faça a vontade de Deus na terra, como os Santos o fazem no Céu (Mt 6, 10). Nosso Senhor chama a Davi “um homem segundo o meu coração, porque cumpriu todas as minhas vontades” (At 13, 22). David sempre estava pronto a abraçar a divina vontade, como ele mesmo declara. “O meu coração está pronto, ó meu Deus, o meu coração está pronto” (Sl 56, 8). E tudo quanto ele pedia ao Senhor, era que lhe ensinasse a cumprir a sua divina vontade: “Ensinai-me a fazer a Vossa Vontade” (Sl 142, 10). Um ato de perfeita uniformidade com a vontade divina basta para constituir um santo. Diz Santo Agostinho, não podemos oferecer a Deus coisa mais agradável do que dizer-lhe: “Senhor, tomai posse de nós: nós vos entregamos a nossa vontade, fazei-nos saber o que exigis de nós, e nós o cumpriremos”. (...) a uniformidade quer dizer mais, quer dizer que a vontade divina e a nossa se tornaram uma só: de maneira que não devemos desejar senão o que Deus deseja e quer. (...) este deve ser o objeto de todas as nossas ações, de todos os nossos desejos, meditações e orações. O grande ponto, porém, é abraçar a vontade divina em tudo quanto acontece, seja agradável ou desagradável às nossas inclinações. Nas coisas agradáveis, até mesmo os pecadores se conformam com a vontade de Deus. Nisto se prova o nosso amor para com Deus. O padre João d'Ávila dizia: “Uma ação de graças no tempo da tribulação vale mais que mil atos de agradecimento no tempo em que tudo prospera para nós”. Além disso, nós não só devemos unir-nos à divina vontade nas adversidades que diretamente nos vêm de Deus, como a doença, a desolação do espírito, a pobreza e a morte de nossos parentes, mas também nos casos promovidos pelas criaturas, assim como o desprezo, a perda da reputação, a injustiça, os roubos e todas as mais perseguições. Devemos entender, quando sofrermos injúrias na nossa reputação, honra ou bens, que nosso Senhor não deseja o pecado que os outros cometem, mas sim a nossa humilhação, pobreza e mortificação. É certo e de boa fé, que tudo quanto acontece no mundo é por permissão divina: “Eu sou o Senhor, fora de mim não há outro; sou o Senhor que faço todas as coisas” (Is 45, 6-7). Do Senhor nos vem os bens, e também os males, porque estes nos são contrários, mas realmente são para nós bens quando os aceitamos de suas mãos. Assim o Senhor o disse a Davi que Ele seria o autor das injúrias que havia de receber de Absalão: “Levantarei males contra ti, que procederão de tua própria casa; tirar-te-ei tuas mulheres diante de teus olhos, e isto em castigo dos teus pecados” (2Sm 12, 11). Também disse aos hebreus que, em consequência de suas iniquidades, lhes mandaria os assírios para os despojarem e arruinarem: “Ai do assírio, ele é a vara e a espada da minha ira... Eu o mandarei para os despojar” (Is 10, 5-6). Santo Agostinho assim explica isto: a impiedade dos assírios foi a espada de Deus, para castigo dos hebreus. E o mesmo Jesus Cristo disse a São Pedro, que sua morte e paixão não proviria tanto dos homens, como da vontade de seu Eterno Pai: “Não beberei eu o cálice que o Pai me deu?” (Jo 18, 11). Quando o mensageiro (o qual se julga ter sido o diabo) veio dizer a Jó que os sabeus lhe tinham tirado os seus bens e assassinado os seus filhos, que respondeu o santo homem? “O Senhor os deu, e o Senhor os levou” (Jó 21). Ele não disse: “o Senhor deu-me filhos e bens, e os sabeus tudo me tiraram”, mas sim: “o Senhor os deu, o Senhor os levou”; porque ele bem sabia que a sua perda fora permitida pelo Onipotente, e depois acrescentou: “Assim como foi do agrado do Senhor, assim se fez: bendito seja o nome do Senhor”. Não devemos, portanto, receber nossos infortúnios como da mão do acaso ou da malícia dos homens, mas devemos estar persuadidos que tudo quanto nos acontece é pela vontade de Deus. “Conhecei”, diz Santo Agostinho, “que tudo quanto no mundo vos sucede é pela vontade de Deus, ainda que seja contrário à vossa”. (...) que sempre tinha cuidado de entregar a sua vontade à vontade de Deus, e que Nosso Senhor lhe havia concedido a graça de abandonar inteiramente a sua vontade à vontade divina. “A prosperidade não me eleva, nem a adversidade me abate, porque eu tudo recebo como vindo da mão de Deus, e para este fim dirijo todas as minhas preces, para que a sua vontade se cumpra perfeitamente em mim”. O Superior lhe replicou: “Não vos ressentistes vós ontem contra o inimigo, que tanto nos prejudicou, roubando os nossos mantimentos, e lançando fogo em nossa propriedade, destruindo o nosso gado e a nossa seara?”. “Não”, foi a sua resposta, “pelo contrário, dei graças a Deus como costumo fazer em iguais desgraças; conhecendo que Deus faz ou permite tudo para a sua maior glória e nosso maior bem; e por esta razão sempre estou contente, suceda o que suceder”. “Aquele que em tudo se conforma com a divina vontade, e que recebe os bens e os males como se viessem das mãos de Deus”. Àqueles que amam a Deus, todas as coisas concorrem para o bem (Rm 8, 28). Aqueles que amam a Deus vivem sempre satisfeitos, porque todo o seu prazer é cumprir a divina vontade, mesmo nas coisas que lhe são desagradáveis, tanto que as inquietações se mudam em deleites pelo pensamento de que, aceitas voluntaria mente, agradam a seu amado Senhor. “Tudo quanto acontecer ao homem justo, o não entristecerá” (Pr 12, 21). “As almas resignadas”, diz Salviano, “quando se sentem humilhadas, confessam a sua humilhação; quando são pobres, sofrem voluntariamente a sua pobreza”; em uma palavra, resignam-se a tudo quanto lhes acontece, e por isso são sempre felizes durante a vida. Se chegar o calor, o frio, ou a chuva, aquele que se conforma à vontade do senhor diz: “Eu desejo que haja calor, frio, ou chuva, porque essa é a vontade de Deus”. Se a pobreza, a perseguição ou a doença o afligem, ou a mesma morte, ele dirá: “eu desejo ser pobre, perseguido ou doente, porque esta é a vontade de Deus”. É esta a gloriosa liberdade que os filhos de Deus gozam, a qual vale mais do que todos os reinos e principados deste mundo: esta é a sólida paz que os santos desfrutam, que excede a toda a compreensão (cf. Ef 3, 19). E todos os prazeres sensuais, festas, banquetes, honras e gratificações mundanas são vaidade e caducidade, e, enquanto fascinam e entretém por alguns momentos, afligem o espírito, onde só pode haver a verdadeira felicidade. Salomão, depois de ter esgotado o gozo das delícias do mundo: Mas isto é também vaidade e vexação de espírito (cf. Eclo 4, 16). “O louco”, diz o Espírito Santo, “muda como a lua, mas o homem justo continua em seu juízo, assim como o sol” (Eclo 27,12). O insensato, isto é, o pecador muda como a lua, hoje está no crescente, amanhã no minguante, hoje está alegre, amanhã triste, hoje meigo, amanhã furioso como um tigre: e por quê? Porque a sua felicidade depende da prosperidade e adversidade que ele pode encontrar, e, então, muda conforme as circunstâncias. Mas o homem justo é como o sol, sempre igual na sua serenidade, sejam os sucessos quais forem; porque a sua felicidade está na conformidade com a vontade divina, e por esta conformidade goza uma inalterável paz. Tal é a boa, aceita e perfeita vontade de Deus (cf. Rom 12, 2). Porque Deus não pode desejar coisa alguma que não seja a melhor e a mais perfeita. A adversidade, sem dúvida, causa pena e dor em nossos sentidos, mas isto só tem lugar na parte inferior, porque o espírito, que é a parte superior, deve ser todo tranquilidade e paz, estando a vontade unida à de Deus: “O vosso gozo”, disse o Senhor aos seus Apóstolos, “ninguém vo-lo tirará, e será completo” (João 16, 22). Aquele que está sempre em uniformidade com a divina vontade, goza de uma paz inteira e perpétua: inteira, porque ele tem tudo quanto deseja, como acima dissemos, perpétua, porque ninguém o pode privar de tanto prazer, assim como ninguém pode obstar ao que Deus quer. "... nunca tive um dia mau: porque, se tenho fome, louvo a Deus; quando cai neve ou chove, eu o bendigo; se alguém me despreza, me despede ou me aflige, ou se encontro outra qualquer tribulação, dou sempre graças a Deus. Disse-vos que nunca fui infeliz, falei a verdade, pois que me tenho acostumado a conformar-me com à vontade de Deus, sem reserva; assim, tudo quanto me acontece de bem ou de mal, eu o recebo de suas mãos com alegria, como se fosse a minha melhor sorte, e isto me torna feliz”. — E se Deus quisesse — disse Taulero — a vossa condenação que haveríeis de dizer? — Se tal fosse a vontade de Deus — respondeu o pobre —, eu com humildade e amor me abraçaria comNosso Senhor, e me lançaria de tal modo com Ele que, quando me quisesse precipitar no inferno, o obrigaria a ir ali comigo, e me acharia então mais feliz com Ele no abismo do que gozando das delícias do Céu sem Ele. Este pobre homem, pela sua uniformidade com a vontade divina: ele na sua pobreza era seguramente mais rico do que todos os monarcas da Terra, e mais feliz em seus padecimentos, que todos os mundanos no gozo de todos os prazeres. Quão grande é a estupidez daquele que resiste à vontade divina! Forçoso é sofrer tribulações, porque ninguém se pode subtrair ao cumprimento dos divinos decretos. Quem resiste à sua vontade? (cf. Rom 9, 19). E sofrê-las-ão sem fruto, e também trarão sobre si maiores castigos na vida futura, e maior ansiedade na presente. Quem jamais lhe resistiu, e obteve paz? (cf. Jó 9, 4). Se o homem enfermo se queixa de suas dores e enfermidades, se o que é pobre lamenta a sua sorte perante Deus, e se enfurece e blasfema, que lhe resulta senão o aumento de suas aflições? “Que procuras tu, ó homem”, diz Santo Agostinho, “quando procuras bens? Procura o único bem, no qual se encerram todos os bens”. Que procuras tu além de Deus? Procura-o, e acha-o; une-te e liga-te a Ele, à sua vontade, e viverás feliz nesta e na outra vida. Numa palavra, que mais deseja Deus senão o nosso bem? Quem nós acharemos que nos ame mais do que Deus? A sua vontade é não só que ninguém se perca, mas que todos se façam santos e sejam salvos: “Não querendo que alguém pereça, mas que todos se arrependam” (2Pd 3, 9). A vontade de Deus é a vossa santificação (cf. 1Tes 4, 3). Deus tem colocado a sua própria glória no nosso bem, porque sendo em sua essência infinita bondade, como diz São Leão, e a bondade sendo por natureza desejosa de comunicar-se, Deus tem o soberano desejo de nos fazer participantes de seus bens e felicidade. E se nos manda as tribulações nesta vida, manda-as todas para o nosso bem: “Tudo coopera para bem nosso” (Rm 8, 28). Até mesmo os castigos, dizia Santa Judith, não vêm para nossa ruína, mas para nossa emenda e salvação. Acreditemos, pois, que estes flagelos do Senhor acontecem para nossa emenda, e não para nossa destruição (cf. Jt 8, 27). “E qual será a coisa”, diz S. Paulo, “que Deus nos negará, Ele que nos deu o seu próprio Filho? Ele que não poupou o seu Unigênito, mas que entregou por nós à morte, não nos deu com Ele todas as coisas?” (Rm 8, 32). Com confiança, portanto, devemos resignar-nos aos divinos decretos e determinações, como sendo tudo para nosso bem: “Em paz, na mesma paz dormirei e descansarei porque tu, ó Senhor, me tens seguramente inspirado esperança” (Sl 4, 9). Entreguemo-nos, pois, em suas mãos, porque Ele sem dúvida terá cuidado de nós: “ponde todo o vosso cuidado n'Ele, porque Ele tem cuidado de vós” (1Pd 5, 7). Pensemos, pois, em Deus e no cumprimento de sua santa vontade, para que Ele pense em nós e no nosso bem. Digamos frequentemente com a sagrada Esposa: “o meu Amado é para mim, e eu para Ele” (Ct 2, 16). O meu Amado pensa no meu bem, e eu só devo pensar em agradar-Lhe, e unir-me em tudo à sua santa vontade. O santo Abade Nilo disse que não devemos rogar a Deus para conseguirmos o que desejamos, mas sim para que em nós se cumpra a sua santa vontade. E, quando a adversidade nos perseguir, aceitemo-la das mãos de Deus, não só com paciência, mas com alegria, segundo o exemplo dos Apóstolos, que saíram da presença do conselho, alegrando-se de serem dignos de padecer opróbrios pelo nome de Jesus Cristo (At 5, 41). Se desejais agradar a Deus e viver feliz no mundo, uni-vos sempre em todas as coisas à vontade divina. Refleti que todos os vossos pecados e a amargura de vossa vida passada têm procedido de vos afastardes da vontade de Deus. Abraçai, pois, daqui em diante, a vontade divina, e dizei sempre em qualquer acontecimento: “Assim seja, meu Pai, porque assim é agradável à tua vista” (Mt 11, 26). Quando vos inquieta algum caso adverso, pensai que vos foi mandado por Deus, e dizei imediatamente: “Mudo fiquei e não abri a boca, porque Vós o tendes feito” (Sl 38, 10). “Senhor, pois que vós assim o fizestes, eu nada digo, e o aceito. A este fim deveis dirigir todos os vossos pensamentos e orações (...) “Ó meu Deus, eu aqui estou: faça-se em mim e em tudo quanto me pertence, o que for mais do vosso agrado”. A santidade será a consequência, e, tendo passado uma ditosa vida, concluirá com uma não menos ditosa morte. Se abraçamos todas as vicissitudes da vida, inclusive a morte, como vindas da mão de Deus, com submissão à sua vontade, certamente morreremos santos e seremos salvos. Abandonemo-nos, pois, em tudo à boa vontade d'Aquele Senhor, que — sendo o mais sábio, conhece o que melhor nos convém, e sendo o mais amante, pois deu a sua vida por amor a nós — quer também o que é melhor para nós. Fiquemos certos e persuadidos, diz São Basílio, de que Deus procura o nosso bem mais do que nós o podemos procurar ou desejar. 1º. Devemos unir-nos à vontade de Deus nas coisas naturais, como quando faz frio, calor, quando chove, ou em tempo de escassez ou epidemia, e em outros casos iguais. Devemos abster-nos de dizer: “Que intolerável frio, que horroroso calor! Que desagradável estação!”. Ou fazermos uso de algumas expressões que mostrem a nossa repugnância para com a vontade de Deus. Devemos querer tudo como é, porque Deus de tudo dispõe. 2º. Devemos unir-nos à divina vontade, quando padecemos fome, sede pobreza, desolação e desonra. Em todo o caso, devemos dizer: “Senhor, tu fazes e desfazes, e eu estou contente, desejando unicamente o que tu queres”. 3º. Se temos algum defeito natural, ou no nosso espírito ou no nosso corpo, como ter pouca memória, inteligência rude, pouca habilidade, falta de algum membro, ou saúde fraca, não nos lastimemos. Pois que merecimento tínhamos para que Deus nos desse uma alma mais sublime, ou um corpo mais bem organizado? Não podia Ele permitir que nascêssemos na classe dos brutos? Não podia Ele deixar-nos no nosso nada? Demos graças ao Senhor por tudo que sua bondade nos tem concedido, e por tudo que faz. Quem sabe, se tendo nós tido maiores talentos, uma perfeita saúde, um corpo extremamente bem organizado, nos teríamos perdido! A quantos a sua ciência e o seu saber tem sido a origem da soberba e do desprezo com que tratam os outros, e por isso causa da sua perdição? Em tal perigo estão outros muitos, que se adiantam nas ciências e nos talentos. A quantos outros a beleza e suas forças têm sido causa de muitos crimes! E, ao contrário, quantos por serem pobres, enfermos e disformes na sua figura, se têm salvado, e sido santos? E quantos se fossem ricos, instruídos e de boa presença, se teriam perdido e condenado? Portanto, contentemo-nos com o que Deus nos tem concedido. Não é necessária a beleza, a saúde, nem um engenho agudo, só é necessária a salvação, disse Jesus Cristo. 4º. Devemos particularmente ser resignados nas enfermidades corporais, e voluntariamente abraçá-las de maneira e pelo tempo que Deus tenha determinado visitar-nos com elas. Devemos tomar remédio, para restaurarmos a saúde, porque tal é a vontade de Deus; porém, não aproveitando estes, devemos unir-nos à vontade divina, o que nos será de maior vantagem do que a mesma saúde; e devemos dizer em ocasiões tais: “Senhor, eu não desejo a saúde nem a doença, desejo unicamente que a vossa vontade seja feita”. É, sem dúvida, grande virtude não lamentar nossas aflições, durante o tempo da dor ou enfermidade (...) O próprio Jesus Cristo, começando a sua Paixão, deu a conhecer a seus discípulos a sua tribulação: “A minha alma está triste até a morte” (Mt 27, 38). E ele rogou ao seu Eterno Pai que o livrasse dela: “Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice” (Mt 27, 39). Mas o mesmo Jesus nos ensinou que o que devemos fazer depois de tais preces é resignar-nos imediatamente à vontade divina, dizendo: “Não como eu quero, mas como vós quereis”. Vossos desejos e mortificações, não procedem do amor de Deus, mas sim do amor próprio, que procura pretextos para se desviar da vontade divina. Se desejarmos agradar a Deus, quando nos acharmos doentes e de cama; basta repetir estas palavras: “Senhor seja feita a vossa vontade”, por cujas palavras agradaremos mais a Deus, que por todas as devoções e mortificações que nos sejam possíveis oferecer-lhe. Não há melhor caminho no serviço de Deu do que aquele que nos conduz a abraçar a sua vontade com alegria. O venerável padre Ávila (Epist. 2,) escreveu a um sacerdote que estava enfermo: “Amigo, não vos inquieteis com o bem que poderíeis fazer, se estivésseis bom, mas contentai-vos de continuar doente todo o tempo que Deus quiser. Se procurais a vontade de Deus, indiferente vos deve ser o estar mal ou bem de saúde”. E certamente assim o podia dizer, porque as nossas obras não glorificam a Deus, mas sim a nossa resignação e conformidade à sua santíssima vontade. Daqui diz também S. Francisco de Sales que Deus é mais bem servido por nossos padecimentos do que por nossas fadigas. Conta-se de um devoto de São Tomás de Cantuária (L. 5. c. 1.) que estando doente fora à sepultura do santo para recuperar a saúde. Melhorou, pois, e voltou ao seu país; porém, pensou, então, consigo mesmo: “Se a minha enfermidade fosse vantajosa para a minha salvação, que uso poderei fazer da saúde?”. Neste pensamento, voltou ao sepulcro do santo, e lhe suplicou que rogasse a Deus para que lhe concedesse o que melhor contribuísse para a sua salvação; depois do que, recaiu com a mesma doença, e ficou perfeitamente satisfeito, persuadindo-se de que Deus o afligia para seu maior bem. Lourenço Súrio relata o mesmo de um cego, que tinha recobrado a vista pela intercessão de São Vedasto, bispo; mas depois pediu que se a vista lhe não era proveitosa à alma, queria tornar a ser cego; e, tendo feito esta súplica, novamente se achou cego, como antes. Portanto, ou estejamos enfermos ou sãos, não devemos pedir, nem a saúde, nem a moléstia, porém entregarmo-nos inteiramente à divina vontade de Deus, que é quem dispõe de nós como lhe apraz. Mas, se pedirmos a saúde, seja ao menos pedida com resignação e expressa condição de que a saúde do corpo não seja prejudicial à salvação da alma, de outro modo nossa súplica seria defeituosa, e não seria ouvida, porque Deus só ouve aquelas rogativas que são acompanhadas de resignação. “Mil graças te sejam dadas, ó Senhor, pelo padecimento que me mandaste. Peço-te que me mandes um maior, se essa for a tua divina vontade. Desejo que me aflijas e não me poupes na menor coisa, porque o cumprimento da tua vontade é a maior consolação que posso receber nesta vida”. Devemos conformar-nos, e aumentar nossa confiança na sua bondade, dizendo: “Tu, ó Senhor, me deste este socorro, e agora o tiraste, bendita seja para sempre a tua vontade, porque Tu mesmo suprirás essa falta, e me ensinarás como te devo servir”. Igualmente devemos aceitar das mãos de Deus outra cruz qualquer que Ele se digne enviar-nos. Mas tantos padecimentos, direis vós, são castigos. Eu respondo: “Acaso não são os castigos, que Deus nos envia nesta vida, graças e benefícios? Se o temos ofendido, é necessário satisfazer à divina justiça de algum modo, ou nesta vida ou na futura”. A isto exclamaremos com Santo Agostinho: “Cortai e queimai aqui, ó Senhor, mas poupai-me na outra vida”. E com o Santo Jó: “Seja consolação minha que, afligindo com tristeza, Ele não me poupe” (6, 10). Aquele que tem merecido o inferno deve consolar-se quando Deus o castiga neste mundo, porque isto lhe inspirará a esperança de que Deus o isentará do castigo eterno. Digamos então, quando Deus nos pune, o que dizia o sumo sacerdote Eli: “É o Senhor; faça Ele o que for justo e agradável a seus olhos” (1Sm 3, 18). Deve, pois, a alma agradecer ao Senhor quando Lhe apraz favorecê-la com doçuras espirituais; mas não afligir-se, nem impacientar-se, quando a entrega à desolação. Devemos especialmente atender a este ponto; porque algumas almas fracas, quando experimentam securas espirituais pensam que Deus as tem abandonado, ou ao menos que a vida espiritual não lhes é própria, e por este motivo descuidam-se da oração e perdem o benéfico resultado do que até ali haviam praticado. Não há melhor ocasião para a conformidade com a vontade de Deus do que o tempo da secura espiritual. Não digo que não seja sensível a perda da divina presença: impossível é que a alma não a sinta, e não a lamente, quando o nosso mesmo Redentor a sentiu e lamentou sobre a cruz : “Meu Deus, meu Deus, porque me desamparaste?” (Mt 27, 46). Todos os santos sofreram securas e desolação do espírito. “Que dureza de coração eu experimento”, dizia S. Bernardo, “já não gozo na leitura espiritual, nem meditação”. A maior parte dos santos viveu em secura espiritual e sem consolações. Estas, o Senhor não as concede senão raras vezes e talvez aos espíritos mais fracos, para que não parem no caminho espiritual. Mas direis vós: “Se eu soubesse que esta desolação vinha de Deus, ficaria satisfeito; porém, o que me aflige e me perturba é o temor de que proceda das minhas faltas, e que seja um castigo pela minha tibieza”. Pois bem, lançai fora essa tibieza e sede mais diligentes. Quando a alma se entrega à oração, não pode derivar dela maior vantagem do que a união com a vontade divina; resignai-vos, pois, e dizei: “Senhor, eu aceito esta tribulação da tua mão, e a aceito pelo tempo que tu quiseres: mesmo quando te fosse agradável que eu permanecesse aflito por toda a eternidade, eu estou satisfeito”. E assim, esta oração, ainda que penosa, vos será mais vantajosa do que as mais suaves consolações. Mas devemos também persuadir-nos de que a secura espiritual não é sempre um castigo, mas muitas vezes disposição de Deus para nosso maior bem e também para nos conservar humildes. Para que São Paulo se não tornasse vaidoso com as mercês que tinha recebido (...) “E para que a grandeza das revelações me não exaltasse, me foi dado o estímulo de minha carne, um anjo de Satanás para atormentar-me”. (2Cor 12, 7). Aquele que ora a Deus com espiritual doçura e deleite, bem pouco faz. “É um amigo e companheiro à mesa, mas me deixará no dia de aflição” (Ecl. 6,10). Vós não considerais como verdadeiro amigo aquele que só vier á vossa mesa, e tomar parte em vossos divertimentos; mas sim aquele que vos vem valer nos trabalhos e vos acudir nas tribulações, sem que disso tire vantagem própria. Taulero também diz que àquele que, no tempo da secura espiritual, perseverar na oração, Deus concederá maiores graças do que àquele que orar com sensível devoção. O padre Rodriguez diz que certo homem confessava que, pelo espaço de quarenta anos, não tinha experimentado consolação alguma na oração, mas que naqueles dias em que orava se sentia mais forte em virtude, porém, se não orava conforme o costume, sentia-se possuído de tal fraqueza que era inteiramente incapaz de fazer alguma boa obra. Não são as tentações, mas o consentir nelas, que nos priva da divina graça. Finalmente devemos unir-nos à vontade de Deus no que toca à nossa morte, tanto no tempo, como na maneira que Deus te nha determinado que ela nos chegue. Digamos sempre, quando pensarmos na morte: “Senhor, salvai a minha alma, e decretai a minha morte como vos aprouver”. Também devemos unir-nos com a divina vontade quanto ao tempo da nossa morte. O que é este mundo senão uma prisão na qual sofremos e estamos em contínuo risco de perder a Deus? A isto exclamou Davi: “Soltai a minha alma de sua prisão” (Sl 141, 8). Isto fazia Santa Teresa suspirar pela morte. Quando ela ouvia as horas no relógio alegrava-se, e consolava-se porque havia passado uma hora de sua vida; uma hora em perigo de perder a Deus. O padre Ávila dizia que aquele que não está em disposição imprópria para morrer deve desejar a morte, pelo perigo de perder a divina graça durante a vida. Que coisa pode ser mais desejável e mais deleitosa do que assegurarmo-nos, por uma santa morte, da impossibilidade de perder o favor e a graça de Deus? Porém, se Deus quisesse que vós agora morrêsseis, que faríeis depois se tivésseis vivido contra a vontade de Deus? Quem sabe se teríeis aquele feliz fim que esperais? Quem sabe se mudaríeis vossos costumes, se cairíeis em novas culpas e vos perderíeis? E então, se nada fizésseis enquanto vivêsseis, e somente assim, ser-vos-ia possível o não cometer culpas, por leves que fossem. “Por que”, exclama São Bernardo, “por que desejamos nós a vida, a qual quanto mais se prolonga, mais pecaminosa é? E é certo que um único pecado venial desagrada mais a Deus do que lhe agradam todas as obras boas que possamos fazer”. Eu digo mais, aquele que pouco deseja o Céu, prova que tem pouco amor a Deus. Quem ama deseja a presença do amado; porém, nós não podemos ver a Deus se não deixarmos a terra; e por isso os santos suspiravam pela morte, para poderem ir ver o seu amado Senhor. Assim exclamava Santo Agostinho: “Ó, que possa eu morrer, que possa eu ir ver-te”. Também São Paulo: “Desejava me ver livre do cárcere do corpo e estar com Jesus Cristo” (Fl 1, 23). Igualmente Davi: “Quando irei e aparecerei diante de Deus?” (Sl 41, 3). E assim também dizem todas as almas que amam a Deus. Certo autor refere (Flores. Emil.) (Graul. 4. C. 68) que um cavalheiro indo caçar a um bosque ouviu um homem cantando melodiosamente; parou, e viu um pobre leproso cheio de chagas. Perguntou-lhe o caçador se era ele quem estava cantando. “Sim”, respondeu o leproso, “era eu”. — “E como podeis vós cantar e estar contente suportando aflições e dores que vos vão gradualmente privando da vida?”. O leproso respondeu: “Entre mim e o Senhor, nada mais há que esta muralha de barro que é o meu corpo; removido este obstáculo, eu gozarei o meu Deus, e, vendo que todos os dias me vai caindo a pedaços, alegro-me e canto”. Numa palavra, devemos olhar para tudo quanto nos acontecer como vindo das mãos de Deus. E a este fim se devem dirigir todas as nossas ações. Fazer a vontade de Deus; e fazê-la, porque é a sua vontade. E, para assim o observarmos mais seguramente, devemos deixar-nos guiar por nossos diretores, quanto ao interior, para melhor conhecermos a vontade de Deus a nosso respeito, tendo grande confiança nestas palavras de Jesus Cristo: “Aquele que vos ouve, a mim ouve” (Lc 10, 16). E, sobretudo, devemos ser cuidadosos de servir a Deus por aquele caminho que Ele quer que o sirvamos. Digo isto para evitar a ilusão de muitos que se entretém com a ideia de que estão perdendo o seu tempo, e dizem: “Se eu estivesse em um deserto, se entrasse em um mosteiro, se eu estivesse em qualquer outro lugar que não fosse este, distante de parentes e companheiros, viria a ser santo; praticaria estas ou aquelas mortificações, e me entregaria todo à oração”. Eles dizem: “eu faria, eu faria”, e, no entanto, suportando involuntariamente a cruz que Deus lhes tem dado, não caminhando pela vereda que o Senhor lhes tem mostrado, não só não se tornam santos, mas fazem-se maus, péssimos. Estes desejos são muitas vezes tentações do Diabo; porque não são conformes com a vontade de Deus; e devemos por isso rejeitá-los, e tomar ânimo para servirmos a Deus no caminho que Ele nos tem escolhido. Fazendo assim, viremos a ser santos, em qualquer estado de vida em que o Senhor nos tenha colocado. Queiramos, pois, sempre o que Deus quer, e fazendo assim Ele nos abraçará em seu seio. Para este fim, familiarizemo-nos com certas passagens da Escritura que nos chamam a unir-nos em todo o tempo com a divina vontade: “Senhor, que queres tu que eu faça? Dize-me, ó Deus, o que queres de mim, e eu cumprirei a tua vontade em todas as coisas, eu sou teu, salva-me” (Sl 118, 94). Já não sou de mim mesmo, mas teu, ó Senhor, faze de mim o que for do teu agrado. Particularmente quando alguma pesada adversidade nos oprime, a morte dos parentes ou amigos, ou a perda de bens ou de reputação, digamos: “Sim, meu Pai, sim, meu Deus, porque assim vos é agradável”; “Sim, meu Pai e meu Senhor, assim seja feito, porque assim te agrada” (Mt 11, 26). E, sobretudo, seja-nos preciosa aquela oração que Jesus Cristo nos ensinou: “Seja feita a tua vontade assim na terra como no Céu”. Nosso Senhor disse a Santa Catarina de Gênova que, todas as vezes que recitasse o Pai Nosso , ela se demorasse particularmente nestas palavras, rogando-lhe que ela pudesse cumprir na terra a sua santíssima vontade, com a mesma perfeição com que os Bem-aventurados a cumprem no Céu. Façamos, pois, da mesma forma e seremos santos no Céu.
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Alphonsus Maria de' Liguori,
Afonso Maria de Ligório, C.Ss.R., nascido Alphonsus Maria de' Liguori, foi um bispo católico italiano que se destacou como escritor espiritual, filósofo escolástico e teólogo. Nascido numa família nobre de Nápoles, Ligório teve uma brilhante carreira em direito antes de ser ordenado padre. Depois disso, fundou uma ordem religiosa, a Congregação do Santíssimo Redentor (chamados "redentoristas") dedicada ao trabalho entre os pobres. Em 1762, foi nomeado bispo de Santa Agata de' Godos. Afonso foi um escritor prolífico, publicando nove edições de sua "Teologia Moral" ainda em vida, além de outras obras devocionais e ascetas, além de muitas cartas. Entre suas obras mais famosas estão "As Glórias de Maria" e "O Caminho da Cruz", esta última utilizada ainda hoje em muitas paróquias durante os serviços religiosos da Quaresma. Afonso foi canonizado em 1839 pelo papa Gregório XVI. Em 1871, Pio IX proclamou-o Doutor da Igreja (Doctor Zelantissimus). Um dos autores católicos mais lidos, é também o santo padroeiro dos confessores.


