A formação em Psicologia no Brasil vem passando por grandes mudanças desde o final da década de 1970, na esteira de um conjunto de transformações políticas, econômicas, sociais e subjetivas. O modelo prevalente de atuação e formação em psicologia, baseado na atuação clínica de cunho liberal e privado, entrou definitivamente em crise. Passadas duas décadas, nova onda de mudanças, catalizada pelo processo de avaliação de cursos pelo Ministério da Educação, traz novamente à tona as questões envolvendo a formação do psicólogo brasileiro. Nesse intervalo, avanços foram obtidos; contudo, novos perigos se apresentam exigindo a elaboração de um "diagnóstico do presente", tal como o concebe Foucault nesse domínio, focalizando, em especial, a força imanente do mercado na sociedade e no âmbito da formação. A compreensão desses processos contemporâneos é crucial para a avaliação de seus perigos e na construção de alternativas ético-políticas.
A formação do psicólogo - Clínica, social e mercado
João Leite Ferreira Neto
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Ver maisUma análise crítica da formação do psicólogo
Encontramos na obra uma boa análise crítica da formação do psicólogo brasileiro. O autor faz uma leitura muito acertada do que encontramos na formação nos cursos de psicologia. Quase sempre vigora uma concepção de subjetividade confinada às "estruturas interiores da psique", que rejeitam a cultura, as condições socioeconômicas; o que também dificulta pesarmos uma clínica institucional - Esta quase sempre de baixa qualidade e destinada à classe proletária mais pobre. A arqueogenealogia foucaultiana e a filosofia da diferença são suas principais referências metodológicas. Para o autor, é importante que o pesquisador recuse o que já está instituído para que se possa descobrir novos caminhos. Apesar de encontrarmos uma boa discussão acerca da arqueogenealogia foucaultiana - inclusive bons comentários críticos acerca da apropriação da teoria foucaultiana -, acho que, por vezes, a discussão metodológica se tornou um pouco exaustiva e o problema da pesquisa fica um pouco esquecido. É curioso notar que Foucault pouco falava sobre o seu método. Encontramos uma crítica particular à suposta clínica progressista dos psicanalistas lacanianos, em particular da influência de Miller. Para Neto, Miller produz certo reducionismo dos conceitos lacanianos ao tentar elucida-los, tornando-os esvaziados de sua história e higienizados. A erudição filosófica de Lacan "cede lugar ao utilitarismo [...] do discípulo brilhante" (p. 24). O autor também faz uma ótima observação acerca do retorno a Freud empreendido por Lacan. Segundo ele, "o problema abordado por Lacan não foi o mesmo de Freud, ainda que fosse a ele referido: tratava-se de um retorno aos fundamentos da psicanálise, segundo sua avaliação [...]. O retorno a Freud se constituiu no esforço de estabelecer um campo teórico conceitual que assegurasse à psicanálise um lugar no conjunto das ciências, desenvolvendo uma teoria que trouxesse uma fundamentação científica à práxis psicanalítica. Essa preocupação marca definitivamente toda a produção conceitual de Lacan. E, se para Freud o problema se apresentava como sendo a investigação de processos psíquicos poderosos que atuavam à margem da vida consciente, para Lacan o problema já se colocava de outro modo. Não se tratava de fundar o campo da experiência psicanalítica, pois esse já fora estabelecido por Freud. O que estava em questão nesse momento era a correção dos rumos da instituição psicanalítica replantando a sua práxis no solo firme da ciência (e nisso ele é plenamente fiel a certo projeto freudiano para a psicanálise)" (p. 24). Além disso, para o autor é problemático falamos apenas em termos simbólicos quando se trata da subjetividade. Os modos de subjetivação são ocorrem por práticas discursivas e não-discursivas. Dessa forma, nem tudo se trata de linguagem. Por exemplo, o liberalismo econômico é uma das condições de existência da psicanálise. "A regra do livre contrato que estabelece, nos moldes de um contrato liberal, as condições para uma relação privada" (p.50) e para que esse contrato possa ocorrer também é necessário pressupor que esse indivíduo seja dotado de volição própria, ou seja, um indivíduo autônomo. Neto acompanha a leitura foucaultiana de que as práticas psi são dispositivos de produção de subjetividade, não uma leitura neutra do que seria a psique humana, "portanto, não se trata de autenticidade, de coerência com um si mesmo original e verdadeiro, mas de criação" (p. 54). Além disso, o saber psi não está desconectado de outros dispositivos. Essa produção de subjetividade poderá funcionar como forma de dominação/docilização ou como forma de resistência. Portanto, não é por quê a psicologia produz seu objeto que ela é ruim; não se trata de jogar fora o saber psicológico. Também encontramos certas incoerências na formação do psicólogo clínico. Há certo acordo nas abordagens psicológicas de que ele deve sempre procurar uma formação em organizações privadas, fora da universidade, a saber, através de escolas, sociedades, associações, institutos etc. Esse encaminhamento dos alunos para essas organizações privadas sempre é feito pelos professores da própria universidade. Ou seja, o quadro de professores desqualifica a capacidade de formação da universidade, apontando para onde ocorrerá a verdadeira formação (a verdadeira, a mais cara, a menos acessível...). Esses mesmos professores de psicologia que fazem esse tipo de encaminhamento são os mesmos que dirigem essas organizações privadas. Como a verdadeira formação ocorre nesses espaços privados, a graduação se torna apenas um espaço formal de titulação, fazendo com que, muitas vezes, o "verdadeiro psicólogo clínico" se forme antes mesmo do término da graduação em psicologia. A psicanálise é pioneira nessa cultura de dupla militância dos professores universitários de psicologia. Foi com o movimento psicanalítico que se tornou corrente o discurso de que o clínico precisaria, além do estudo teórico, também a supervisão e a análise pessoal (que não poderia ser acessado através da universidade). Nessas organizações "é sempre necessária a presença de um profissional prestigiado, detentor de um saber maior, que coordena os trabalhos envolvidos, legitimando o lugar de formação. E o valor do saber transmitido está numa relação direta com o prestígio do mestre envolvido" (p. 88). A análise pessoal também é feita entre os membros dessas instituições (quase sempre com essas figuras de prestígio). Além disso são sempre processos terapêuticos muito longos (30,2% dessas terapias/análises duram mais de 5 anos). "Levando em conta que muitos desses psicólogos estão subempregados (20%) ou nem mesmo exercem a profissão (50%), configura-se um estudo em que, de potencial produtor, o psicólogo passa a ser constante consumidor de serviços psicológicos... Sem percebê-lo, o psicólogo configura um mercado de trabalho boa parte autofágico" (p. 88) A formação do psicólogo também exclui a escuta de uma classe ao priorizar a realidade psíquica em detrimento da realidade material. Além disso, há um discurso corrente dentro da formação do psicólogo clínico de que para se manter em um processo psicoterapêutico é necessário "recursos culturais e simbólicos mínimos", o que supostamente excluiria parte da população mais pobre que não teria acesso a esses recursos; além da justificativa maslowiana, que em nome de uma hierarquização das necessidades básicas e supostamente universais do ser humano, preconizava a ideia de pão para o pobre e psicoterapia para as classes média e alta, que já têm satisfeitas suas necessidades básicas" (p. 167).
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