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    Conservadorismo (Biblioteca Antagonista #8) -

    Michael Oakeshott

    Âyiné
    2016
    194 páginas
    6h 28m
    ISBN-13: 9788592649081
    Português Brasileiro
    4
    52 avaliações
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    O racionalismo na política, As massas na democracia representativa e Ser Conservador, pela primeira vez reunidos em um único livro para o público brasileiro, podem ser considerados como a melhor introdução ao pensamento do grande filósofo conservador Michael Oakeshott. Os três ensaios são reflexões claras e instigantes sobre aspectos do complexo mundo político e de seus atores e conceitos. Em uma analogia tomada de empréstimo do Marquês de Halifax, figura a qual Oakeshott admirava profundamente, o Estado seria um navio que não saía de nenhum porto, nem se dirigia a lugar algum, o trabalho era unicamente equilibrá-lo em um mar instável e imprevisível. A priori tal posição pode parecer de um niilismo blasé, mas ao seguirmos a leitura dos ensaios selecionados fica claro o raciocínio lúcido e sofisticado que levou o filósofo inglês a ser um dos mais lidos em seu país. Leitura mais que necessária para tempos de polarização política.

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    Marcelo Gabriel Delfino04/09/2017Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Existe uma entrevista de Gilles Deleuze, filósofo francês, onde ele explica qual a diferença entre esquerda e direita. Logo de início ele explica que não existem governos de esquerda, porque isso é impossível. Segundo ele, esquerda e governo são antagônicos. Depois ele entra no tema propriamente e diz que a diferença entre as duas é de percepção (palavra interessante, como veremos). A diferença é que na esquerda se parte do geral, do global para reduzir o olhar até chegar ao indivíduo. Passa pelo globo terrestre, depois o continente, o país, estado, cidade, bairro, etc, até que se chegue ao indivíduo. Já a direita parte de si mesma, do indivíduo e faz o caminho oposto. Isso significa, ainda segundo Deleuze, que o direitista não é capaz de compreender um problema grave, como a fome, se ele não o atingir diretamente, porque está distante de si. Se não o afeta, não é importante e por essa razão, o direitista é visivelmente insensível às grandes questões éticas de nosso tempo. Ao contrário, o esquerdista percebe que tudo que o toca é humano, lhe diz respeito. Ele sabe que a fome num país pobre e periférico é mais próxima dele do que a abundância de sua vida burguesa na França. Gostaria de fazer um comentário breve sobre essa afirmação. Em primeiro lugar, se trata do velho e conhecido procedimento de afirmar que a esquerda é mais humana do que a direita, porque epistemologicamente está envolvida com temas que a direita nem sabe que existem. E Deleuze chega mesmo a afirmar que são melhores não porque são moralmente melhores, mas porque tem uma percepção mais aguçada da realidade. Ora, esse tipo de noção serve, como sempre, para rebaixar seus adversários, negando-lhes inteligência e descartando o debate desde o início. Quantos de nós já não viram um esquerdista nos negar a fala dizendo que não tem nem como ter debate porque não temos estofo intelectual para discutir qualquer questão que seja? Sem contar, e o maior risco é esse, que faz a moral brotar, como que por encanto, de uma simples escolha metodológica, como se bastasse optar pelo caminho da esquerda para que uma nova moral (mais verdadeira, como esse comentário deixa transparecer) nos tomasse e conduzisse para as verdadeiras questões sociais. Essa suposição é embasada no ponto de que no fundo um alguém de direita só pensa assim porque está muito confortável com o mundo em que vive. Apesar de não repetir Marx aos quatro ventos, Deleuze só faz reproduzir a tradicional afirmação de que somos nada mais do que a consciência de nossa classe social e reproduzimos o que ela pensa (só percebemos o que nossas condições materiais de existência permitem). Assim, se somos burgueses com algumas posses, ignoramos que outros no mundo passam fome e sofrem violência. Se somos pobres e pensamos assim é porque já fomos infectados pela ideologia das classes dominantes. Só que Deleuze parece desconhecer o que é o pensamento da direita e prefere viver de estereótipos que o satisfazem em seu escritório confortável enquanto formula teorias para levar à revolução (quem duvida, leia “O que é a Filosofia”, onde ele afirma que se trata exclusivamente de inventar conceitos). Mesmo que ele estivesse correto, partir do indivíduo como fator primordial de análise não é partir de si mesmo. Ora, isso não seria ciência, nem filosofia. Existem procedimentos para isolar nossos desejos e captar o que é a realidade. O que a direita faz é partir do indivíduo porque ele é a única realidade concreta. Mesmo que existam classes sociais (e vários grandes marxistas reconhecem que é só um conceito para balizar o pensamento, não que tem existência real), elas ainda seriam compostas por indivíduos. Não há outra realidade concreta com que se possa trabalhar. Se Deleuze pensa que o macro pode nos orientar em como lidar com as pessoas só pode cometer erros seguidos de mais erros. Alguns desses erros são muito bem explicados na primeira conferência desse pequeno livro. Oakeshott nos mostra que toda tendência ao planejamento leva a desgraças porque parte, adivinhe, justamente do coletivo e ignora a vida concreta dos indivíduos e como ela é afetada pela política e pelos avanços da história. Quem parte dos indivíduos concretos sempre terá métodos diferentes para problemas diferentes, de acordo com as necessidades reais que precisa enfrentar. Mas quem parte do macro sempre terá como base uma teoria, uma suposição ou mero exercício mental para lidar com os problemas, porque desconhece a realidade deles. No exemplo de Deleuze, seria tolo supor, como o filósofo faz, que a fome na Etiópia é mais próxima de um francês do que a vida burguesa de um vizinho do quarteirão seguinte; o motivo para isso é que mesmo que esteja solidário ao problema da Etiópia, o sujeito francês pouco ou nada pode fazer para mudar uma situação em outro país, com outra história e causas diferentes para problemas que podem até parecer, mas que não são realmente iguais. No entanto, na ideologia defendida por Deleuze, basta um componente de empatia, que seria revelador da moral superior dos esquerdistas, para atacar o problema e pronto. Oakeshott mostra que essa tendência a ignorar a experiência concreta em nome de regras, exercícios mentais e planejamentos, que atravessa praticamente toda a política moderna, levou a muitos desastres em nossa história e levará a muitos mais ainda. À primeira vista, usar o trecho da entrevista de Deleuze como exemplo do que Michael Oakeshott está dizendo pode parecer forçado. Mas não é. Isso porque o traço mais forte do racionalismo, ou seja, da planificação, é negar a experiência e apostar todas as fichas na razão. Tudo que não seja planejado é negado como preconceito, nem chega a ser uma forma de conhecimento, mesmo que seja toda a experiência de uma vida, equilibrada pelo conhecimento teórico e pelo prático, que só pode ser conquistado no cotidiano e ao longo de anos de prática. Pois o conhecimento prático, que não está em nenhum manual ou código, é adquirido pelo indivíduo. Logo, ao apresentar, todo contente, como um exemplo da sabedoria máxima da esquerda partir dos grandes planos até chegar ao indivíduo, demonstrando que este não importa, porque o fundamental são as classes sociais, os grupos, etc, Deleuze está apenas referendando o que Oakeshott está dizendo. A esquerda, como exemplo máximo de corrente que tenta planejar tudo racionalmente, desprezando qualquer elemento imprevisto ou algum conhecimento anterior, ignora o saber prático que só o indivíduo pode adquirir. Só que essa tendência já contaminou nosso entendimento de mundo mais do que imaginamos. E é sobre isso que Oakeshott faz o alerta mais importante. Mesmo quem se posiciona contra a esquerda se deixou levar pelas ilusões do racionalismo. Já no fim do texto, depois de explicar que essa tendência nasce de leituras rasas de Bacon e Descartes, o autor lembra que para um racionalista, quando as coisas dão errado, só o que lhe resta é se aprofundar mais ainda no atoleiro. Porque o conhecimento prático é mero preconceito para ele, não devendo ser levado em conta, o que lhe resta é formular novos e novos planos a fim de corrigir o que havia dado errado da última vez. Lembra alguma coisa? Talvez o bordão “deturparam Marx”... Há também um comentário fantástico sobre Maquiavel, outra das figuras mais reverenciadas pela academia e que se tornou quase que um axioma. Para acadêmicos em geral, o que Maquiavel escreveu é o ápice do realismo, não podendo jamais ser refutado a não ser que se deseje correr o risco de receber a alcunha de sonhador, ingênuo e assim por diante. Mas na visão de Oakeshott, o que o pensador florentino faz é estabelecer o primeiro grande manual racionalista da história, com base nos princípios estabelecidos por Bacon e Descartes. “(...) o princípio de Maquiavel foi prover uma farsa para a política, um treinamento político para compensar a falta de educação na área, uma técnica para um governante que não tradição alguma” (p. 65). Ou seja, seguir Maquiavel é elevar o racionalismo à categoria de verdade absoluta e desprezar a experiência concreta, adquirida com a vivência real dos problemas. O racionalista faz tabula rasa da mente humana. Acredita que basta modificar as condições de ensino, educar os educadores, iniciando um novo mundo a partir do zero para que tudo dê certo. É importante entender isso, e o autor volta a esse ponto muitas vezes. O racionalista na política acredita que todos os problemas podem ser resolvidos primeiro em sua mente e que tudo que existe hoje, aquilo em que a sociedade se baseia, pode ser atirado fora e reformulado por novos princípios que ele criou com sua técnica mental. Parece com alguma formulação que você conheça? Gramsci, educar os educadores... Pois é... Ainda temos mais duas conferências no livro. Na segunda, Oakeshott demonstra que o processo histórico de surgimento do indivíduo foi contrabalançado por outro que fez surgir o anti-individualista. De um lado, temos aquele que procura desenvolver suas capacidades, sua autonomia, ao mesmo tempo que compreende o significado dos valores e da sociedade; do outro lado temos quem não consegue realizar essas tarefas sozinho e procura denegrir o sentido do que os outros fazem, alguém que precisa da multidão para se fortalecer e protegê-lo. Nesse momento, me pareceu ao menos, Oakeshott lembrou um pouco Nietzsche. Inclusive aproveitando a crítica deste em relação ao socialismo para esclarecer o que entende por esse homem da massa. É bastante interessante, mas também previsível, porque o autor coloca o socialismo como um processo histórico que pretende frear (ou reverter) um outro processo, mais elaborado e vigoroso, mas que pode ser destruído com todas as peripécias do socialismo. Talvez eu exagere, mas com base nesse texto, e aproveitando o evidente tom nietzschiano, se poderia dizer que o socialismo é histórico, claro, mas apresenta tendências anticivilizatórias e sua vitória significaria um retrocesso provavelmente irreparável para nosso desenvolvimento. No texto que fecha o livro, Oakeshott procura definir o que é o conservador. É preciso afastar todas essas definições herdadas de pensadores da esquerda, que enxergam o conservador como um reacionário, que deseja o retorno de situações, valores e comportamentos que estão superados historicamente (até porque, se levarmos em conta que o conservador precisa do conceito de indivíduo, dizer que ele é que é o reacionário, é talvez uma das maiores mentiras que a esquerda conseguiu pregar na direita). O conservador, de fato, tende a preferir aquilo que está estabelecido a mudanças pirotécnicas na sociedade e que geralmente produzem violência, miséria e morte. Mas a novidade aqui é que enquanto politicamente o conservador prefere o conhecido ao nunca tentado, particularmente, ou seja, em sua vida, ele pode muito bem aceitar mudanças, buscá-las e lidar muito bem com elas. O traço fundamental do conservadorismo é o respeito às escolhas individuais de cada um. Se se acredita que nossa sociedade é formada por indivíduos, pessoas capazes e independentes, responsáveis por suas escolhas e que prezam, sobretudo, a boa convivência, o governo é entendido como uma necessidade, mas que não deve interferir nas escolhas individuais. O aspecto fundamental do conservador é desejar um governo que garanta a sua liberdade de escolha e de tocar a vida como bem desejar, desde que isso não interfira diretamente na vida de mais ninguém. Pode parecer tolo, em certo sentido, porque é bastante óbvio, mas é preciso reafirmar o óbvio muitas vezes para ser bem compreendido. Não vou me alongar aqui, também. O livro merece ser lido. Para concluir, gostaria de voltar à entrevista de Deleuze. Lembramos que ele definia a visão de esquerda como aquela que parte do macro para o micro, e nesse movimento aprendia a estabelecer o que é realmente prioritário no mundo, que era combater as desigualdades criadas pelo capitalismo, pela sede de poder dos homens. Ora, essa visão, como demonstra Oakeshott, é apenas a expressão da negação do desenvolvimento histórico humano. Ela não tem nada de avançado ou moralmente evoluído, ao contrário. Ela traz em seu bojo apenas a incapacidade de acompanhar o que a humanidade produziu de melhor e o desejo de destruir aquilo que não se alcança. Deleuze, sempre preocupado em parecer jovem, bem informado das mudanças sociais (ele se via como uma das vozes de Maio de 68, uma consequência direta de tudo que aconteceu nesse momento), só faz inserir de modo mais refinado as verdadeiras forças retrógradas que existem em nossa história. Nessa entrevista, ao menos ao definir o que é esquerda e direita, Deleuze apela para o senso comum, para os slogans mais rasteiros na esperança de que ninguém perceba sua malandragem. É realmente lamentável.

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    Michael Oakeshott

    Foi um professor, filósofo e teórico político inglês, um dos mais importantes nomes do conservadorismo britânico. Após se graduar em história pela universidade de Cambridge, decide se alistar no exercito a fim de lutar contra os nazistas. Após a segunda grande guerra, Oakeshott retorna à vida acadêmica em Cambridge, posteriormente lecionando em Oxford e finalmente se aposentando na London School of Economics. Seguiu escrevendo até o ano de 1990, quando morreu aos 89 anos. Também foi um dos mais expressivos representantes da filosofia crítica da História na Inglaterra do século XX, rompendo com a tradição positivista e empiricista que condicionou naquele país a reflexão sobre o conhecimento do passado. Sendo conservador, no sentido britânico, apresenta-se como cético. E acusa os chamados "progressistas" de serem defensores de uma política de fé. No mundo moderno, sustentou Oakeshott, a principal expressão da política de fé é o "racionalismo em política". Para o filósofo, não há um projeto de sociedade ideal que deveria ser sobreposto à realidade existente; ao contrário: parte-se desta sociedade e da acumulação de instituições que ao longo da história demonstraram na prática trazer resultados positivos. Segundo Oakeshott, a inclinação conservadora advém do sentimento de quem tem algo a perder, algo que se aprendeu a valorizar.

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    Michael Oakeshott