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    Duas Praças -

    Ricardo Lísias

    Editora Globo
    2005
    128 páginas
    4h 16m
    ISBN-10: 8525040614
    Português Brasileiro
    3.4
    18 avaliações
    Leram38Lendo1Querem27Relendo0Abandonos0Resenhas1
    Favoritos2Desejados27Avaliaram18

    O livro é constituído por 90 capítulos breves, à exceção do capítulo 50, um longo fluxo de pensamento de uma personagem. Inicialmente, duas narrativas são apresentadas, o que o leitor só perceberá no capítulo 11. Os dez primeiros capítulos iniciam a narrativa sobre Maria. Os dez seguintes, sobre Marita. E assim sucessivamente, até os capítulos 71 a 80, que concluem a história de Marita, e os capítulos 81 a 90, que encerram a de Maria. Mas não apenas, pois o autor guarda seus trunfos na manga. Antes, vamos esmiuçar as estórias principais, de Maria e Marita, duas trajetórias talvez paralelas, talvez perpendiculares, certamente partes de um mesmo mapa. A vida de Maria, uma mulher comum, é contada até a sua mesquinha morte. A narrativa explora as possibilidades alienantes envolvidas nas ações, pensamentos e desejos cotidianos de uma mulher de classe média baixa. A teia de seus recalques e preconceitos enredando-se com sua biografia, apresentada aos saltos, é bem constituída a partir de um estratagema em crescendo - elipse do senso comum. A obviedade de um destino como o de Maria é de tal ordem que o próprio discurso pode enunciar-se aos cacos, pois o leitor completará com o esperado aquilo que estiver faltando nas sentenças e na biografia, o que resulta num jogo cômico de antecipações e prospecções. Maria é também apresentada em seu fluxo de pensamentos e atos e pode ser mais desconexa, e a narrativa explora outras regiões. A fenda entre futuro almejado e resultado obtido materializa-se também no próprio texto através da ordenação caótica final do destino da protagonista. A investigação do desaparecimento de Marita, argentina estudante no Brasil, é a segunda estória que ainda continua insolucionada. Um estudante da pós-graduação tenta de todos os modos encontrar Marita, talvez filha de pais argentinos mortos pela ditadura de lá. E registra por escrito não só os kafkianos passos burocráticos que deu para tentar resolver o enigma, como seus encontros com professores, funcionários e dirigentes universitários, oferecendo ao leitor uma imagem de parte do mundo acadêmico, com tudo o que pode comportar de frivolidade intelectual, inveja pessoal, luta pelo prestígio e ganância pelo poder. Formas de discurso bem diferentes, relativas a ambientes socioculturais distintos, que confluem, contudo, para um ponto de fuga; o da ironia com que são considerados os destinos e a fatuidade que os orienta. Maria e Marita podem ter se cruzado numa rua de São Paulo. Marita, no limite, pode ser Maria, e as narrativas se articulariam descompassadas temporalmente. Porque não são duas praças, mas inúmeras, o que a demolição das narrativas de ambas no texto e pelo texto atesta com clareza. Tanto a estória de Maria quanto a de Marita, ao se dissolverem, dão passagem a estórias paralelas ou perpendiculares, momentaneamente em contato com a estória deles, e que começam a se desenvolver, vindo de um caminho e indo para outra direção. Esse seria um segundo estratagema, que permite a dispensa dos dois narradores porque o destino troca de voz ou de mão, já que todas as estórias e histórias estão aparentemente congeladas numa imagem grotesca. E são tão indistintas todas as estórias que elas podem ser simplesmente numeradas em seqüência, da capítulo 1 ao 90.

    Resenhas (1)Ver mais
    Alex Schrijnemaekers picture
    Alex Schrijnemaekers19/11/2025Resenhou um livro
    3 (Bom)

    A palavra que me vem à mente é esquize. O livro é feito de rompimentos que geram distâncias, entre os diversos personagens, mas também com a própria narrativa. Temos Maria, com sua mente [e situação social] aparentemente já fragilizada (e em novo processo de ruptura); Marita, que estuda traduções (o vencimento de barreiras da linguagem) de Dom Quixote (onde a personagem titular se encontra sem contato algum com a realidade) e tem a quebra de seus estudos com seu desaparecimento; o estudante, que custa em conseguir uma forma de comunicação efetiva com seus pares... a obra é um espelho quebrado aonde os cacos refletem suas imagens, sem a intenção do autor de juntá-las (o que pode ser interessante, mas frustrante). Acho que eu teria melhor aproveitamento se conhecesse mais de literatura argentina. A narração nas duas partes da estória também tem perspectivas diferentes. Maria em 3a pessoa, o estudante, em 1a. Mas há pouca diferença na narração em si, uma vez que não consegui pegar muito as idiossincrasias de cada personagem transparecendo na narração (à exceção dos repetições de pensamento e das interrupções do mesmo da parte de Maria). É fofo ver um leigo tentando descrever uma mente fraturada

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    3.4 / 18
    • 5 estrelas22%
    • 4 estrelas33%
    • 3 estrelas17%
    • 2 estrelas28%
    • 1 estrelas0%
    Ricardo Lísias profile picture

    Ricardo Lísias

    Ricardo Lísias nasceu em 1975, em São Paulo. Publicou em 1999 o romance Cobertor de estrelas (Rocco), traduzido para o espanhol e o galego. Em 2001 publicou Capuz (Hedra), e, em 2004, Dos Nervos(Hedra). Duas pra il;as (Globo), lançado em seguida, foi o terceiro colocado no Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira de 2006. É autor também do livro de contos Anna O. e outras novelas (Globo), finalista do Prêmio Jabuti de 2008. É autor ainda dos livros infantis: Sai da Frente,Vaca Brava (Hedra, 2001) e Greve Contra a Guerra (Hedra, 2005). Graduado em letras pela Unicamp, é mestre em Teoria Literária pela mesma universidade e doutor em Literatura Brasileira pela USP.

    33 Livros
    62 Seguidores
    São Paulo, Brasil

    Ricardo Lísias