Paulo é diretor de um banco em São Paulo. Ele tem um objetivo: ser o escolhido para chefiar o novo empreendimento de sua empresa na China. Para isso, faz aulas de mandarim, dedica-se em horas-extras, dá palestras aos seus empregados. Nada o impede. Nem a dor nas costas, que o ataca desde sua infância.
O Paulo ainda não sabe que será escolhido, mas pretende indicar o Paulo para seu lugar. Já falou até com o Paul, o inglês que preside o banco no Brasil, e com a Paula, do RH. Aliás, a Paula contou que o filho da puta do Godói queria demitir a Paula, sua secretária, porque a idiota tem medo de vento e não aparece para trabalhar em dia de ventania.
Mas o Paulo não deixou e levou a Paula para seu time. Para provar para todo mundo que ele sabe lidar com funcionários problemáticos. Até com idiotas com medo de vento. Mas ele queria mesmo era mostrar para todos que o filho da puta do Godói não manda em nada.
Esse é o enredo de O Livro dos Mandarins, de Ricardo Lísias. O livro, com ironia desconcertante, faz uma crítica pesada ao mundo corporativo, onde todos se parecem e as aparências são mais importantes do que a verdade.
Não é à toa que todos os funcionários do banco se chamam Paulo, Paula ou variações. Só um personagem na primeira parte do livro foge à regra, justamente o Godói, que desperta o ódio do Paulo principal, e é exemplo de tudo que o Paulo abomina.
Paulo, por sinal, não tem amigos, só networking. Quando não está no banco, está estudando mandarim. Não tem vida pessoal. Será o escolhido para liderar o projeto por mostrar sua fidelidade canina ao banco, passando por cima de tudo.
A partir da segunda parte do livro, quando começa o trabalho de Paulo no Projeto China, a história ganha força e ainda mais ironia. O trabalho não tem nada do que Paulo esperava, mas, com sua fidelidade ao banco, ele terá a capacidade de manter todas as aparências, de fingir não ver e até de afirmar o contrário da mais óbvia realidade. Se no começo era um Paulo no meio de tantos, aqui ele se destaca e assume múltiplas personalidades.
De volta ao Brasil, na terceira parte do livro, Paulo irá tocar seu sonho: aconselhar executivos. Ali também vai exercitar o que aprendeu na China, lucrando acima de todas as maneiras, até com as adversidades, e contando com a capacidade dos outros Paulos e Paulas de também fingirem que não veem o óbvio.
A China cresce em ritmo acelerado há duas décadas. Tem quem diga que passará os Estados Unidos em 40 anos, tornando-se a maior economia do mundo. Não interessa que o governo chinês viole os valores ocidentais, como a democracia, a liberdade, os direitos humanos, a propriedade intelectual. Os lucros bastam. Paulo não liga. Lula também não. Obama também não. A ONU também não. No fundo, são todos Paulos.
de: pedradasculturais.blogspot.com