Comecei essa leitura imediatamente após o término de Estação Carandiru do Drauzio Varella. Embora desconhecesse o autor e sua história, a escolha do texto se deu por tratar do testemunho de um dos sobreviventes do famigerado massacre ocorrido em outubro de 1992 em que 111 detentos foram assassinados pelo Estado. O Complexo Penitenciário Carandiru, hoje extinto, chegou a ser considerado o maior presídio da América Latina mantendo por volta de 7500 detentos no período.
O livro tem autoria híbrida, sendo composto pela transcrição das entrevistas concedidas pelo ex-detento José André de Araújo ao jornalista Bruno Zeni, responsável pela organização da obra. A divisão de capítulos ocorre em 4 partes: ‘Depoimento’, em que lemos narrativas acerca da prisão e da sobrevivência ao massacre; ‘Fragmentos de uma correspondência’, em que acessamos algumas das cartas enviadas e recebidas por André du Rap; ‘Free Style (de improviso)’, composta por uma seleção feita por Zeni a partir do relato oral de André; e ‘Aliados’, que conta com depoimentos de amigos. Ao final apresenta-se ‘Uma voz sobrevivente’ porção em que Zeni fala sobre como conheceu André e o surgimento do livro.
Escrito em tom confessional e cheio de oralidade discursiva o texto não intenciona ser obra da literatura, assim como não busca suavizar crimes ou propor o não cumprimento de penas, mas retratar a vida daqueles que estão em situação de cárcere. Pessoalmente não achei pungente, mas percebo que há um propósito sério que fundamenta-se na não homogenização dos internos e de seus crimes, além de questionar o valor correcional que os presídios supostamente ofertam e expor a violência perpetrada pela sociedade, instrumentalizada pelo Estado através de um sistema extremamente lucrativo.