Um trauma, causado por uma dor imensurável faz uma pessoa desenvolver medo – talvez – das coisas mais belas e de que costumava gostar. Faz com que as pessoas se fechem em si mesmas para não serem atingidas por tudo que se relaciona ao trauma, a dor que os aumenta. Acabam por fechar-se com a dor e alimentar-se dela dia após dia, respirá-la, vivê-la. Creio que a maioria das pessoas que tem um trauma, e carregam uma dor imensa, quando passam por uma situação difícil, – talvez mais difícil do que aquela que levou ao trauma – despertam o instinto, a vontade intrínseca ao homem de viver e lutam com todas as suas forças, lutam contra o medo que os corrói, lutam contra o destino e acabam por redescobrir o mundo, a vida. A esperança se faz luz, e então não há mais o medo. Mesmo que não percebendo, tais pessoas, ao invés de continuarem deixando-se levar pelas sombras, escolheram lutar, escolheram viver.
A história de Stela, personagem do livro “O Medo e O Mar” de Maria Camargo, é assim. Ela e o irmão, Miguel, perderam a mãe devido a um mergulho de exploração que esta fazia em Paraty. Uma das últimas imagens que possuem da mãe é de seu corpo já inerte, com uma estranha chave em mãos. Chave essa que Miguel passou a usar pendurada em volta de seu pescoço.
Stela e o irmão ficaram então sob os cuidados e o carinho do pai. Miguel, para sua sorte, era pequeno quando sofreu a perda de Laura, mas Stela, já capaz de entender o que era a morte, não teve esta sorte. A garota sentiu um enorme peso em seu coração: a dor. Desde então, jurou nunca mais tanger água salgada. A menina se deprime, se fecha e tenta a todo custo não remexer em suas lembranças. Porém, parecia não estar dando certo, principalmente quando o pai decidiu levá-la junto ao irmão para Paraty: a idéia não foi bem recebida, obviamente. E foi ainda mais desgostoso chegar a uma cidade onde os sapos passaram a habitar em profusão, e onde, a intervalos consideravelmente pequenos de tempo, mais e mais pessoas morriam.
A velha casa onde costumavam passar os fins de semana ainda se conservava como no dia em que a tragédia pousara sobre a família. E ali, bem na frente, se estendia o mar.
Rodrigo, o pai dos garotos, havida ido a Paraty para dar aulas de mergulho e assim, Stela e Miguel deveriam ficar sozinhos, uma vez que não conseguiram encontrar a mulher que trabalhara para eles antes. Porém, quando Rodrigo já estava de saída, e deixando os filhos sozinhos a não ser pela companhia um do outro, eis que aparece uma elegante mulher: Bárbara, que se apresentou como sobrinha da antiga serviçal, e disse que estava ali para zelar pelos garotos. A energia que emanava era diferente, mas não estranha a Stela; ela de certa forma se sentia confortável na presença de Bárbara. Porém, algo a dizia que não deveria sentir-se assim.
Com a chegada de Bárbara, várias coisas mudam a ponto de parecer que Stela e Miguel não estavam raciocinando de acordo com a lógica da realidade. A chave, que aparentemente era só um pedaço de ferro estranhamente forjado, e uma lembrança da mãe, se torna uma peça essencial na história, justamente a chave para a solução dos problemas que estão por vir.
O Livro “O Medo e O Mar”, é um livro sugerido para o público de todas as idades. É um livro fantasioso, de fácil leitura, e que apesar de parecer infantil, prende o leitor por alguns aspectos da trama. Não aconselho para quem espera finais grandiosos e uma leitura mais consistente e densa, porém, indico para quem gosta de uma linguagem mais fácil, e uma leitura light, onde não se deve raciocinar muito e nem guardar tantos detalhes, mas que, porém, também goste de se emocionar.