SEREIA E SONHO – MAIS UM LIVRO DE PAULINO VERGETTI
Por Krishnamurti Góes dos Anjos Autor de mais de 40 títulos publicados nos mais diversos gêneros literários, o médico alagoano Paulino Vergetti acaba de lançar “Sereia e sonho”, onde reuniu 30 contos curtos. Estamos portanto diante de um escritor veterano, de pulso firme, que empenha-se em delinear um ficcionismo em torno de personagens bem estudados, tanto nas ações quanto nos sentimentos. Não foge à curiosidade de vê-los por dentro, porém de maneira impessoal, deixando ao leitor um julgamento próprio. Bêbados, prostitutas, fazendeiros e missivas devassadas, desfilam por esses contos, em atmosferas líricas ou de universos oníricos, e até cismarentos, revelando forte imaginação inventiva e dons de observador do autor. Seu mundo é o de cada dia, mas também o da memória, tangenciados pela intuição interpretativa, onde a realidade se transfigura e se recria sob forma de entidade ou situação simbólica. Conflitos inerentes à condição humana ou ditados por circunstancias adversas são enfocados. Criada a personagem, introduzida no cenário que lhe cabe, vem o conflito, a situação, a fatia de vida…. Sobre a criação literária ou recriação do real. O autor busca sempre um veio ficcional, por mais tênue que este seja, e segue-lhe o curso, na sucessão dos naturais desdobramentos. Uma pista de seu processo criativo nos é fornecida a certa altura: “… eu conto, como se realmente ela houvesse acontecido e eu presenciado. Mas não sei se narro o que sai de mim ou o que inconscientemente me dão. Mas narro com a força da criação que chega a pulsar, impedindo-me de ser como Jaime. Vivo a contar os barulhos e os silêncios que a vida me mostra. A ladeira íngreme eu a conheço desde a minha infância; o cemitério é mesmo o de União dos Palmares, esta história é que deixa de ser apenas minha”. Conto “Cama e sepultura”, p. 24. Predominam porém, os textos contextualizados dentro da atividade médica do autor, não como temática cumpre ressaltar. É que o teor documental que o escritor filtra através de seu testemunho não invalida, jamais, o criador, o ficcionista. O armador de cenas e o construtor consciente de desfechos e segundos-planos estão comprometidos com a procura de um sentido, ainda que mergulhados na variedade de situações abordadas. Quanto a isto, concordamos com Paulo Bentancur que assina o Prefácio: “É comum que um volume com trinta histórias, tão incomparáveis entre si, levasse o leitor a se perder. Mas, pelo contrário, o inesgotável imaginário de Paulino Vergetti Neto cria um efeito inovador. Sentimo-nos como se num território minado. Nada daquela atmosfera repetitiva que em regra serve de imaginário e dicção para tantos escritores.” O ficcionista segue os passos de suas criaturas, de forma discreta e à distância, como convém, ensejando-lhes a liberdade de movimentos. É um cultor da tradição literária que vem dos clássicos. Estilo despojado, sem ornamentos desnecessários, sempre a fazer da linguagem um meio e não uma finalidade, ele busca a transparência na fluência da frase. A interface social de que também se vale, exposta em alguns contos (sobretudo os que denunciam as injustiças típicas e seculares do Nordeste brasileiro), de par com um toque surrealista de outros textos e ainda em outros, enveredando para o surrealismo, anunciam um autor que inegavelmente vem construindo uma trajetória na literatura brasileira. Uma última consideração, e talvez a mais importante, merece essa obra do autor que é também especialista em Cancerologia. E logo vamos entender perfeitamente porque estamos a citar apenas este entre os vários títulos de que se compõe o seu currículo médico. Falta à nossa ciência compreender e aceitar uma etapa de nosso ciclo evolutivo. Matéria, energia, vida e espírito. Trazemos em nós dois extremos: o do determinismo da matéria e o do livre arbítrio combinados não como extremos opostos, inabaláveis e absolutos, mas coordenados no relativo em que se movem, como duas fases sucessivas, dois pontos de uma escala. O determinismo da matéria age sob o campo da absoluta e férrea necessidade. Todavia, é no campo do espírito que sentimo-nos, e de fato o somos, perfeitamente livres. “E virou-se para o outro lado do leito de morte, como se envergonhada do mundo onde viveu as dores das diferentes injustiças a que podem estar submetidos homens e mulheres”. Conto “Diva”, p. 94. Mas as “injustiças” podem estar na chancela de nossa incompreensão da própria vida? Sim, questão de circunstâncias e entendimento. Trecho do conto “O bêbado e o filósofo: “Dois meses após aquele encontro, o bêbado foi ao velório do filósofo e chorou a sua morte, sorrindo fartamente. Estava ébrio e o outro, frio, representando o mais objetivo significado dos que filosofam ou não na vida, cheia ou vazia de álcool. Uns lúcidos[grifo nosso], outros ébrios, mas todos dentro da real finitude da carne, a qual se faz profundamente inocente, não lhe importando se com filosofia ou bebida”. p.130. Custa-nos ainda, infelizmente, perceber que no mundo psíquico onde desaparecem as leis físicas, desaparece, consequentemente, a lei do determinismo que também nos rege. Aí encontramos a verdadeira liberdade, no campo das motivações do espírito. A única potência capaz de emergir livre, num mundo de fatalidades. Na matéria está a escravidão; no espírito as vias da libertação. Precisamos abrir as vias da ciência médica para as realidades igualmente tangíveis da intuição e sobretudo da conduta ética, pois nosso livre arbítrio requer, para se regular, a direção de uma consciência superior, não necessária ao animal, mas indispensável ao homem. Teria o “acaso” que concebeu o universo, descuidado desta verdade elementar? 02/01/2017. Estamos prestes a colocar um ponto final nesta primeira resenha do ano de 2017. E não há como deixar de refletir, que mais uma vez, abre-se perante a nossa humanidade desorientada, novo ciclo temporal convidando a investigar nossas consciências sobre essas e outras verdades. Reflitamos detidamente nos trechos abaixo, salientando a notável concepção quanto às potencialidades de nossas almas que o autor demonstra. Cada qual que tire suas conclusões. “É bom aliviar o peso da cruz alheia, quando achamos dentro de nós essas forças misteriosas que só podem nos chegar vindas de um Deus protetor e vivo que parece habitar sobre nuvens douradas do mais puro amor. Sobra-me tanto fôlego ainda, não porque a minha cruz seja tão leve, mas porque meu coração é uma alavanca cheia de sentimentos que me dão forças para suportar as dores alheias que porventura cruzam o meu caminho, também cheio de dor”. Conto “A cruz da dançarina”, p. 29, e; “Medi meus passos curtíssimos e retornei à cama, sereno, caçando a essa altura, não a sereia do sonho, mas a oração da vigília. E então rezei até perto das dez, até ter outra vez meu corpo examinado minuciosamente pelos colegas médicos, cheios de vida, mas secos das sereias e dos mares da poesia onde busco desadoecer de tudo”. Conto “Sereia e sonho”, p. 74. Livro: Sereia e sonho – Contos, de Paulino Vergetti, Editora Penalux, Guaratinguetá-SP., 2016, 132p.

