Dois olhos sobre a louça branca -

    Nathan Sousa

    Editora Penalux
    2016
    88 páginas
    2h 56m
    ISBN-13: 9788558331159
    Português Brasileiro

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    Krishnamurti Góes dos Anjos03/01/2017Resenhou um livro
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    UM OLHAR VIGILANTE

    “O que em mim sente está pensando”, é um verso de Fernando Pessoa que bem traduz a poesia apresentada pelo premiado escritor piauiense Nathan Sousa em seu mais novo livro, “Dois olhos sobre a louça branca”, publicado pela Editora Penalux. O volume divide-se em quatro blocos a reunir 52 poemas, todos a revelar uma poética de complementaridade ou acordo, entre pensamento e emoção. Nathan abandona a forma melopaica (ritmo, rima, estrutura) do poema tradicional, e inclina-se para o logopaico (jogo de idéias entre as palavras, exercido por Ezra Pound), buscando o máximo grau de expressão. Poemas que terminam por configurar certa dimensão filosófica. É na interseção do sensível com o racional que o olhar revela o pensamento, quando o poeta lança seus olhos nos desvãos da existência, ou melhor, sobre a louça branca do fundo de um prato, onde o sentir + o pensar, vão traduzindo em metáforas e metonímias o real indizível de nosso tempo de horrores. (observemos esta idéia na concepção da capa). Expliquemos melhor: ao cabo da obra, fica-nos uma visão do conjunto em que os poemas traduzem (cada qual a seu tempo, termo e sem perder as mensagens particulares de cada um deles), como que um percurso sobre o simples ato de sentar-se a uma mesa e comer. Nada mais trivial, mas na pena do autor, uma verdadeira viagem filosófica eivada de um lirismo especulativo. Acompanhemos como isto se dá: “quando esta mesa for tão somente um objeto de madeira e prego, onde aqui estive apoiando os cotovelos (as mãos; os pés de equilibrista desprovido de voo); quando for apenas mesa, sem nenhum jarro de porcelana barata, com rosas de plástico compradas na promoção (gestos, balé de dedos, murros, pratos, xícaras, rostos deitados, olores, copos e taças de cristal, percussão de talheres, naipes de cartas reviradas, manchas de café e molho)” Poema “Carpintaria (a manhã que desliza na mão que acena)”, p.39 Ao se por a escrever, percebemos a superfície de tensões dramáticas muito marcadas por um comprometimento humano de poesia pura: “risco o branco do papel com os olhos abertos para a história - estou nas catástrofes naturais e no divino direito à mudez. Vejo perguntas comendo o núcleo de minha escrita, mas uma cadeia sucessiva de explosões reelabora minhas palavras. estou no recomeço do nada, revisando a véspera no domingo de Deus. (apalpado dentro de mim mesmo, prossigo (estarrecido),” Poema “No domingo de Deus”, p. 23 Prossegue estarrecido a ver o que fizemos de nós: “a pressa tem sido a trava. e acabamos por considerar que a memória é que nos desafina a flauta. ainda que a palavra insista no papel (que voa ou se degenera em mofo e traça), nossas pegadas são apagadas e nem mesmo a urina derramada no canto do muro deixou algum fedor. já nascemos com a idade média encravada entre a pele e a penugem. então, fazer-se de tolo é que é o negócio. antes que o prato esfrie ou emagreça. caso contrário, o que sobrará são os clarões da cobiça, até que todo o tempo que ainda nos resta seja consumido com velocidade para que nenhuma cabeça se atreva a rir dos pássaros imitando as cobras. há lampejos e metamorfose no dorso do oceano”. Poema “O velho percurso das horas (a asa que rasteja)”, p.51 E revela-nos uma poética de sentido extremamente lúcido – porque pensado –, vigilante e voltada para a realidade angustiante e brutal: “... é preciso antes de tudo trabalhar para extirpar do pensamento a errônea associação da vida como um jogo de perde e ganha (a língua e o que dela deriva são miasmas de esplendor e sepultura) não sei com que rosto acolherei aquele que de opacidade se alimenta. não sei com que febre eu saberei domar este repúdio, este engano. do pouco que arrasto, só tenho as unhas para tocar no tesouro das feridas”. Poema “Não me peças nada (amar sobre a lâmina)”, p. 53 Denuncia ainda a tristeza do fracasso a que a humanidade se arvora, “nossos frascos de porcelana cheios de rótulos, sempre relegados ao criado porque ainda precisamos conter as explorações minuciosas de nossos corpos, porque já trazemos o supérfluo em cada suspiro e porque saberemos o que não fazer quando tudo for tão somente um desmantelo de relógios. (estaremos nus e amofinados por toda sorte de moléstias e desmoralizações)” Poema “Todas as janelas dão para o mar (um olho que tarda dormir)”, p. 49 Nathan Sousa é realmente uma revelação na literatura brasileira, seja pelas etapas que vem pulando de forma acelerada com a publicação de sucessivas obras de qualidade, seja pela atividade de promoção cultural de que participa e fomenta, pela premiação em concursos literários que também tem conseguido, ou pelo reconhecimento de crítica e público. Vale a pena finalmente, “degustar’ na íntegra um magistral poema, que embora não seja o último do livro, funciona como uma síntese do sentir e pensar desse poeta. Ao fechar-se o arco imaginário de sua poesia nesse livro, pensamos quase finda a refeição, os pratos sujos, vazios, precisando lavagem e entretanto... Poema “Sabor (na goela do big bang).” usar os talheres causa-me certo prazer. mefistofélico, eu sei. garfo e faca escoltando a louça branca se parecem mais com a febre do que uma combustão desavisada. por vezes, me ocorre um canto de louvação. noutras, a boca (educada) cala e come. por vezes, limpo as armas. noutras, passo a língua nas lembranças. Livro: “Dois olhos sobre a louça branca” - Poesia, de Nathan Sousa, Editora Penalux, Guaratinguetá – São Paulo, 2016, 88p.

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