Leitor insaciável e apaixonado, se já havia especulado em escrever algo romanesco de minha autoria, a leitura de autores como Marcel Proust fazem-me desanimar e devolve-me rapidamente a minha medíocre zona de conforto: a redação de artigos jurídicos, teses, dissertações, etc.
Jamais havia lido um escritor com estilo tão sensivelmente belo, com capacidade ímpar de observação e descrição de personagens, cenários, sensações e detalhes, que, em conjunto, constituem um estilo único.
Para exprimir um pouco da beleza do estilo do autor, veja-se como ele descreveu a chuva: Uma pequena batida na vidraça, como se qualquer coisa a tivesse atingido, seguida de uma ampla queda leve como grãos de areia que deixassem tombar do alto de uma janela, em cima, e depois a queda estendendo-se, regulando-se, adotando um ritmo, tornando-se fluida, sonora, musical, inumerável, universal.
Não é fácil, porém, ler a obra prima de Proust. Demorei mais de um mês, tempo excessivo para meus padrões, mas ainda inferior ao que a obra demanda do leitor. Não há divisão em capítulos e o autor usa frequentemente imensos parágrafos, o que dificulta ainda mais a leitura e a marcação das pausas tantas vezes necessárias durante a leitura.
A primeira parte do livro, intitulada Combray, refere-se a uma cidadezinha fictícia do interior onde o autor-narrador teria passado férias de veraneio durante sua infância e adolescência. O narrador se recorda de sua vida involuntariamente, por meio de lembranças que lhe vieram à tona ao mergulhar um pedaço de madeleine em uma xícara de chá, célebre cena literária.
Autobiográfico, vemos o jovem narrador com dificuldades de dormir, sofrendo de doenças respiratórias, carente da atenção da mãe. Narra como seu gosto literário foi influenciado pela avó, que primava pela busca de coisas belas que ensinassem a buscar deleite em outra parte que não nas satisfações do bem estar e da vaidade.
O autor confidencia seu sonho de menino de tornar-se um escritor famoso e descreve quando, durante uma viagem, teve um insight literário e logo pegou no papel e lápis para compor uma passagem descritiva sobre as torres de Martinville, as quais acabara de observar. Ao terminar de escrever, extasiado, o jovem escritor achava-se tão feliz que pôs-se a cantar a plenos pulmões. Quem nunca passou por um deslumbre semelhante ao ter um estalo criativo súbito?
A segunda parte do livro, intitulada Um amor de Swann, narra o relacionamento amoroso entre Swann e Odette de Crécy: ele, nobre, rico, intelectual e frequentador da alta sociedade; ela, uma prostituta de luxo, frívola e vulgar. Aqui há a descrição dos preconceitos sociais e da dificuldade de aceitação do relacionamento pela sociedade, bem como do sofrimento intenso de Swann em seu relacionamento baseado no dinheiro e na submissão. É impressionante como o autor narra a gradual decadência psicológica e física de Swann em seu relacionamento com Odette: ele termina totalmente dominado pelos caprichos de Odette e se submete a suas vontades.
Na última parte do livro, Nomes de terras: o nome, o autor-narrador conta seu amor platônico pela criança-adolescente Gilberte, que viemos a saber ser filha de Swann com Odette, os quais haviam se casado. Nessa parte da narrativa sobressai-se o caráter angustiado e exagerado do autor, para quem os encontros com a pequena Gilberte nos Campos Elísios, para brincar com outras crianças, tornaram-se a razão última da sua vida, algo que ele esperava ansiosamente. Como sói acontecer nessa fase da vida, tudo parece tão importante, como se o mundo fosse acabar amanhã.
Não pude deixar de lembrar de Ulisses, de James Joyce, ao ler este livro de Proust, talvez por uma certa familiaridade no nível de detalhamento das descrições e na robustez da narrativa. Porém, enquanto desisti de Joyce, traumatizado, o francês entrou na lista de meus escritores inesquecíveis.