Uma obra-prima inquestionável
Este romance de 1509 páginas (número de páginas da minha edição) poderia ser considerado um épico, e em certas passagens até o é. Quanto primor, quanto cuidado, quanto talento! O esmero de sua construção é análogo ao da Catedral de Notre-Dame, na própria França, país de origem do livro, ou à Catedral da Sagrada Família, na Espanha. Não consigo pensar em comparações mais dignas: a magnitude, o cuidado, os detalhes, a extensão, a representatividade, tudo deslumbra tanto nesses exemplos arquitetônicos, como neste, literário. Victor Hugo inspirou-se em um pungente caso de injustiça social para criar seu herói, Jean Valjean, em sua jornada por crescimento e engrandecimento, rumo à "santidade": o caso real de um homem condenado por roubar um pão para matar a fome. O protagonista de Os miseráveis passa quase 20 anos encarcerado justamente por cometer crime tão "atroz". E é a partir deste episódio que Victor Hugo tece uma maravilhosa e impressionante teia das vidas de outros tantos miseráveis sociais, que sofrem com injustiças e desigualdade, desequilíbrio das riquezas e, mais importante, do enorme estigma que o sistema carcerário impõe ao condenado, independente da gravidade de suas faltas. O pano de fundo é histórico: a Revolução Francesa, as Guerras Napoleônicas, as Revoltas da década de 1830, mas Hugo passeia soberanamente por profundas divagações sociais, filosóficas, religiosas, linguísticas (sim! Há até um verdadeiro tratado sobre gírias) além de, inclusive, demonstrar extenso conhecimento das vias pluviais da cidade de Paris. Hugo engrandece o poder da Educação como transformadora das condições injustas e penosas das sociedades desequilibradas, em trechos que, elegantemente, poderiam até soar como panfletários, se não fossem escritos com tamanho requinte. O final, redentor, embora sombrio e triste, deixa uma ponta de esperança de que, talvez, ainda haja salvação para a sociedade, desde que repensemos o valor da educação, do respeito e da atenção a todas as camadas sociais, sem distinção, além de, é claro, estarmos sempre dispostos a fazer e disseminar o bem. Um livro denso, demorado, mas delicioso e absolutamente necessário, pois, infelizmente, os apelos de Hugo, publicados na segunda metade do século dezenove, ainda não foram atendidos como precisam, mesmo na terceira década do século vinte e um.


