Neste seu primeiro livro de crônicas, Pedro Gonzaga transforma o que é memória em textos de um lirismo hoje quase perdido, revelando o poeta que ele também é. As doces ruas de seu bairro porto-alegrense, as musas do passado e de agora, as lembranças de um encontro às escuras e um inesquecível ano-novo na praia são alguns elementos de seu inventário sentimental, construído com leveza e apuro. De forma nada convencional, ao final de cada crônica o autor apresenta pós-escritos que acentuam o caráter de conversa franca entre cronista e leitor, uma das marcas do gênero.
O Livro das Coisas Verdadeiras
Pedro Gonzaga
o livro das coisas verdadeiras
Da coleção de volumes de crônicas publicados pela Arquipélago já havia lido três do Luís Pellanda, senhor do tempo curitibano, mas ainda estou devendo os do Humberto Werneck, do Ivan Angelo e do Luiz Ruffato. Calma no Brasil, ainda há tempo, sempre digo eu, mas sei que eles podem se perder na confusão de casa. Noutro dia encontrei nesses guardados, da mesma coleção, esse "O livro das coisas verdadeiras", de Pedro Gonzaga, professor, poeta e tradutor porto-alegrense. São 53 crônicas, publicadas anteriormente em jornal, mas algo reinventadas, pois à elas Gonzaga acrescenta pequenos pós-escritos, comentários em que ele reflete sobre a perenidade da coisa, dos acertos e desacertos daquilo que engendrou, da eventual repercussão que à época elas provocaram. Ele optou por organizá-las no que chamou de ordem emotiva, portanto não cronológica, de forma que o leitor é guiado pela chave de um afeto, mas um afeto de empréstimo, que talvez seja mais caro ao autor. Ele também usa neles a chave do humor, que sempre é um troço complicado. Não que não funcionem, mas os pós-escritos roubam alguma coisa das crônicas originais, que são belas, e sabem se defender muito bem sozinhas, acho eu. Acompanhamos um sujeito que sabe ver o mundo, não tem medo de recuperar as influências do passado, se espanta e analisa seus espantos cotidianos, registra seu amor aos livros, aos amigos, aos alunos e as viagens. Trata-se do produto de um escritor que esconde um leitor profícuo e disciplinado, pois escondidas nas crônicas há uma miríade de micro-citações, de estalos, associações e epifanias, cousas que fazem a alegria de nós, apressados leitores. Depois de conhecer esse volume passei a acompanhar as crônicas que Gonzaga publica semanalmente (clica aqui!, para ler pequenos trechos delas). Estão realmente saborosas e merecem metamorfose para o formato mais perene dos livros. Tomara que sim. Vale! Registro #1262 (crônicas e ensaios #225) [início: 26/01/2018 - fim: 18/02/2018] "O livro das coisas verdadeiras", Pedro Gonzaga, Porto Alegre: Arquipélago Editorial (A arte da crônica, vol. 8), (1a. edição) 2016, brochura 14x21 cm., 166 págs., ISBN: 978-85-60171-82-8
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