O leitor, logo nos primeiros momentos, é colocado a par de toda a situação: um crime já desvendado, mas com um suspense que cresce a cada página. Ele sabe quem é o assassino, como foi cometido o homicídio, e até mesmo o motivo. No entanto, há algo que paira, atiça o desejo de saber, alimenta o desenvolver para um desenlace. Aí o leitor é fisgado, mesmo sabendo, quer ir até o final. O ambiente um tanto quanto claustrofóbico de cidadezinha interiorana pode ser visto como uma metáfora da nossa condição contemporânea. A vida interior e exterior de cada personagem é representada de forma implacavelmente lúcida que beira a crueldade. Os personagens e a cidade como representação da nossa pequenez pós-moderna? É bem possível. Os perfis psicológicos traçados com sutil ironia, equilibrados com a miniatura narrativa das descrições de lugares e atmosferas, aliados com a ação dosada, fazem desta novela de Márcio Matos um livro marcante. A postura dúbia dos personagens quer fazer crer que não há inocentes. Acusadores, pérfi dos, raivosos, pedantes, cínicos? Sim, todos esses tipos são encontráveis, mas não inocentes. Desse modo, o sentimento aparentemente mais verdadeiro pode esconder o seu contrário: a moça utópica entorpecida de lirismo que encontra nos pobres o seu analgésico existencial, o advogado lobista, literalmente um lobisomem com traços de cordeiro perdidos em algum lugar do coração, o jovem que dá mostras de preocupação com a ordem social e moral, mas que não passa de um garoto drogado, nervoso e débil, perdido no próprio desorientamento, o promotor íntegro ocultando uma vaidade desmedida em sua conduta estéril etc. Em passagens como esta: “Depois de caído em um precipício, o corpo não tem como se escorar no vácuo e, ele consentia, a graça está em sorver a velocidade da queda.” Márcio Matos coaduna sensivelmente recursos da linguagem poética à sua prosa. Pelo arrojo da linguagem certas cenas funestas se tornam ainda mais terríveis. Em capítulos curtos, alguns com apenas um parágrafo de poucas linhas, com idas e vindas na trama, sem jamais perder a proporção, Márcio constrói – melhor seria dizer edita como um filme – este intrigante Ave noturna. A trama, porém, sofre mudanças drásticas. Pois um dos personagens “[...] se incomodara tanto com a estupidez do mundo que acabou engolido por ela.” Assim, o mal no mundo, tema que perpassa toda a história, é também ambíguo. Porque os atos malignos podem paradoxalmente gerar benesses. Algumas não serão colhidas. O certo é que ninguém em Ave noturna consegue enxergar a realidade tal como ela é. Todos estão entretidos demais com suas pequenas desordens, turvados por alguma manifestação de amor-próprio. Não obstante, como não poderia deixar de ser, o real, se não nos traz à tona de nós mesmos, acaba atropelando quem não o respeita. E as consequências danosas chegam de modo inusitado nas páginas e asas noturnas dessa ave em forma de novela. Densa em seu conteúdo, trágica no seu desenlace, severa em sua psicologia, vigorosa em sua linguagem, Ave noturna é uma novela com pouso certo no coração dos leitores mais atentos.
Ave Noturna -
Márcio Matos
Via Litterarum
2015
180 páginas
6h 0m
ISBN-13: 9788581511122
Português Brasileiro
Edições (1)
Ver maisEstatísticas
Avaliações
0 / 0- 5 estrelas0%
- 4 estrelas0%
- 3 estrelas0%
- 2 estrelas0%
- 1 estrelas0%
