Aterei-me apenas à obra que dá título ao livro. Um Bonde Chamado Desejo é a síntese do choque entre personalidades e mundos distintos. Blanche, à primeira vista, é uma mulher que representa a dignidade, o bem; Stanley representa o que há de vil, a carne, o instinto animalesco do ser humano. Embora eu tenha resumido a obra em polos opostos, não há maniqueísmo aqui. Blanche revela-se falha em alguns aspectos, mas, ainda assim, parece ser uma fagulha de luz na vida que sua irmã leva.
Blanche carrega consigo os últimos vestígios de distinção de sua família e despreza, com todo o coração, os valores, o estilo de vida e a personalidade de Stanley. Se analisarmos de forma mais abrangente, trata-se de um embate entre uma nova classe trabalhadora americana e uma elite que já viu dias melhores. Assim como essa elite sulista foi esmagada com violência, quem a representa também será brutalmente violentado. O discurso não se limita ao que é melhor para Stella, mas sim às concepções de mundo que esses personagens carregam e como elas colidem.
O jogo entre Blanche e Stanley se desenrola com uma maestria narrativa impressionante. É fascinante ver os personagens se revelando com a naturalidade que apenas os grandes autores conseguem construir.
Assistir à desintegração de Blanche nas páginas finais da peça é algo devastador. A sensação de derrota, de destruição e de violência é brutal. Trata-se de uma das personagens mais complexas e interessantes que já li: uma mescla de orgulho, doçura e tristeza