Uni Versos Pessoais -

    Lucas Walker

    Kazuá
    2016
    74 páginas
    2h 28m
    ISBN-13: 9788555650451
    Português Brasileiro

    SÍNTESE SEM TEMPO Não deixa de ser um processo curioso aquele que consiste no versar quase exato das mágoas e expectativas frustradas que o mundo contemporâneo nos concede; mais ainda: essa poesia, espelhando o tempo comprimido pelas aglomerações urbanas, pretende ser, tal qual quase tudo nas cidades, uma réstia de beleza, um segundo de êxtase, e nada mais. Sabe-se, porém, que a ideia de uma poesia-síntese, curta por essência de seus temas, não é nova e nem relativa às eras das TVs e computadores. Vem desde as pequenas trovas medievais e dos antiquíssimos haicai, até atingir o seu auge durante a Belle Époque francesa. Mas em que exatamente o poema-síntese de Lucas Walker se diferencia de um haicai, por exemplo? Ora, para Lucas, não é necessário que se siga uma regra fixa no verso – tampouco rimas. O essencial na poesia de Walker é o transbordar sentimentos sugeridos por situações contemporâneas trabalhadas pelo poeta. Vejamos esse dístico: Amores que ficam no papel São desejos que esquecemos. O infinito pessoal que o poeta sente é a saudade de algo inatingível, de um amor que não foi, mas não deixou de ser. Talvez Hermes Fontes, poeta simbolista nordestino do início do século XX, compreendesse também esse sentido nos versos “Saudade é eternidade: Eu tenho a eternidade dentro de mim!”. Lucas Walker diversas vezes nos parece um solitário na multidão, bem ao gosto baudeleriano de um ser repleto por ânsias e angústias que não encontra uma alma-amiga na multidão. Esse ser só em meio a tudo intensifica-se de uma maneira mais pungente ainda na era digital, em que a vivência de alguém é delimitada pelo o que a rede virtual aprova ou não. Certos versos da obra são clarividentes nesse ponto: Relato de um suicida: amei sozinho. E também INTENÇÕES Levo para minha casa A fim que decore o caminho. Porém, Lucas parece resignar-se às vezes com a condição solitária que lhe foi imposta. Não como um estoico, que aceita o sofrer por um bem geral da sociedade, mas como alguém que sabe que, inadaptado, vale muito a solidão nesse mundo de poucas nobrezas – embora o Ideal, diluído na ideia de amor-perfeito, mantenha-se como um estandarte idílico. Esse mundo do poeta, porém, é cantado por Walker como se o verso fosse um espelho-síntese do que somos e do que sentimos. A quem o canto soa? Fica ao encargo do leitor descobrir: Eu canto tristezas pra você me escutar. Caio Cardoso Tardelli Poeta, ensaísta e pesquisador. Autor de “Perfumes que Ficam” (Editora Kazuá, 2015).

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