Era uma vez uma república latino-americana onde terror e horror se defrontam nas ruas, nos becos, nos subúrbios, nos aeroportos, nas rodoviárias, nas alamedas escuras. Viu-se então o rosto verdadeiro das tradições cristãs, em cujo nome se justificava tudo aquilo. O escárnio pelos direitos mais elementares do bicho homem, a certeza da impunidade que nenhum tribunal de Nuremberg julgaria, produziram o resultado lógico: o sadismo puro e simples, a volúpia pela dor alheia, a humilhação alheia, a abjeção alheia. A morte é o limite. A dor não é mais um instrumento para extrair confissões. É um fim em si. Uma diversão. Algo que se deve infligir rindo, brincando, gozando. E os senhores da dor e do tormento não viam nenhuma contradição em depois de uma semana surrando, queimando e eletrocutando, ir à missa, ajoelhar-se em frente a um Cristo crucificado, em condições idênticas às dos seus clientes de interrogatório. Tudo isso se passou neste 1971, ano simbólico, sem reveillon, nem corrida de São Silvestre, o ano emblemático em que um lado bom das nossas ilusões e esperanças generosas morreram no pau de arara. 1971 é inclassificável. Nem romance, nem relato. Um fluxo bruto e brutal de cenas, climas, ambientes. Sem herói nem anti-herói, onde os diálogos atropelam-se sem a marcação acadêmica dos campo e contra-campo da ficção convencional com começo-meio-e-fim.
