Nada mudou?
Um daqueles típicos romances esquecidos nos sebos e que parecem datados, A greve dos desempregados, de Luiz Beltrão, pode ser lido como o retrato de uma sociedade imersa na ditadura que se arrastava por um longo período e que, ao mesmo tempo, dava os primeiros passos para um regime democrático de fato. Nesse romance curto sobre o nosso país (embora jamais tenha seu nome mencionado em qualquer parte do livro), o autor imagina que, a partir de uma fala infeliz de um ministro (algo nem tão implausível assim) afirmando que gostaria de ver uma greve de desempregados, uma associação começa a congrega-los para, ao contrário do que se possa pensar, trabalhar em troca de doações de comida e de uma pequena quantia. Assim, ferroviários desempregados trabalham na revitalização da malha ferroviária (metrôs aí inclusos) das grandes cidades; bancários que foram demitidos por causa dos diversos pacotes econômicos típicos dos anos 70/80, substituem os colegas em greve e praticamente acabam com as enormes filas comuns da época (lembrem-se de que estamos falando de um livro publicado em 1984) e por aí vai. Em que pesem a linguagem acadêmica (toda certinha, digamos assim), o maniqueísmo explícito, o panfletarismo implícito, os chavões (a esposa que se joga na frente da bala para salvar o marido), as situações controversas pessimamente disfarçadas em uma tentativa risível de sátira (o escândalo Coroa-Brastel recebe o nome de Garoa-Plastel, por exemplo), A greve dos desempregados é o retrato afiado, detalhado, trabalhado de um Brasil afundado na corrupção, no desemprego, na monstruosa desigualdade social, na luta de classes, nos interesses ocultos (e naqueles nem tão ocultos assim). Pensando bem, como diz a música: Ô, ô, ô, ô, nada mudou...

