Silencioso nas articulações, estrondoso na tribuna, mestre da conciliação, Tancredo Neves se tornou o símbolo da redemocratização brasileira. Em seus cinquenta anos de vida pública, o político mineiro participou dos momentos mais importantes da história do Brasil. Foi ministro da Justiça de Getúlio Vargas em 1954, apoiando o presidente até o trágico fim. Primeiro-ministro da experiência parlamentarista de João Goulart em 1961. Líder do governo, senador e governador de Minas Gerais. Nos 21 anos de resistência pacífica ao regime militar, costurou a derrocada da ditadura em 1985 aceitando eleger-se presidente, ainda que sob regras não democráticas. Foi internado em estado grave às vésperas de assumir o poder. Sua morte estarreceu a população - "Eles não o deixaram tomar posse", repetia-se pelas ruas enquanto passava o cortejo fúnebre -, porém seu legado conduziu o Brasil de volta ao caminho da democracia. Além de uma biografia, Tancredo Neves, o príncipe civil é uma grande reportagem sobre a política brasileira.
Tancredo Neves - O príncipe civil
Plínio Fraga
O HOMEM CERTO NAS HORAS INCERTAS
"Tancredo Neves, o príncipe civil", da lavra do jornalista Plínio Fraga, é uma biografia bastante detalhada de um dos maiores políticos da história do Brasil. E, em razão disso, o livro também é um panorama vasto da política brasileira desde os anos 1950 até a década de 1980. A obra traça a vida da família paterna de Tancredo desde seus antepassados mais longínquos, ainda nos Açores, passando por aqueles que se estabeleceram no Brasil, criando raízes em São João del-Rei, local de nascimento de Tancredo. Acompanha a infância do biografado, seus anos de formação e seu ingresso na política, quando se torna vereador em seu município natal. O destaque, é claro, vai para três momentos singulares na vida de Tancredo, e do Brasil. O primeiro, em 1954, quando ele era ministro da Justiça no governo Vargas, sendo que em 24 de agosto daquele ano ele estava presente no Palácio do Catete quando ocorreu o suicídio de Getúlio. O segundo é sua atuação na grave crise de 1961, após a renúncia do presidente Jânio Quadros, quando ele se comprometeu a intermediar a posse do então vice-presidente João Goulart, que acabou convencido a aceitar o regime parlamentarista. Tancredo, então, tornou-se ele próprio o primeiro-ministro. E o terceiro é sua eleição, pelo Colégio Eleitoral, para a presidência da República, derrotando o candidato do regime, Paulo Maluf. Foi eleito, mas não foi empossado, tendo em vista a patologia que o levou a ser internado, com seu óbito ocorrendo em 21 de abril de 1985, justamente no Dia de Tiradentes. Vereador. Deputado estadual. Deputado federal. Senador. Governador de Minas Gerais. Primeiro-ministro. E até presidente eleito. Uma história riquíssima de alguém que foi político por excelência, tipicamente mineiro, conciliador nato, que conseguiu se equilibrar na oposição durante os anos da Ditadura Militar e que lutou com sucesso pela redemocratização do Brasil. Quis o destino, contudo, que Tancredo Neves não tomasse posse. Mas seu nome entrou definitivamente na história, deixando ele a vida para voltar a descansar em sua São João del-Rei, onde foi sepultado. Como todo político, como qualquer pessoa, tinha seus defeitos. Mas sua habilidade como político era espantosa, mormente se compararmos a toscos representantes dos brasileiros que ocupam, lamentavelmente, lugar de destaque na política atual.
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