Malcomportadas línguas volta com outros textos, mas com a mesma orientação da edição anterior: denunciar o pensamento único e generalizadamente atrasado em relação às línguas. Trata-se de pequenas análises, sem pretensão de exaustividade e mesmo de grande precisão. A idéia é mudar a direção do olhar, geralmente incapaz de observar mesmo poucos dados com o mínimo de cuidado e de precisão. As reflexões contidas em Malcomportadas línguas, série de exercícios de análise que Sírio Possenti, linguista e professor da UNICAMP, vem publicando nos últimos anos, são sempre motivadas por um fato de linguagem ou um palpite mais ou menos infeliz sobre questões de língua. Ao contrário da viciada mania dos gramatiqueiros, estes textos propõem um olhar diferente sobre fatos de língua, sejam os corriqueiros, sejam aqueles aos quais a escola dedica inutilmente seu tempo.
Malcomportadas línguas (Linguagem #36) -
Sírio Possenti
Edições (1)
Ver maisQue falta fazem intelectuais rebeldes! é a frase que encerra o livro Malcomportadas línguas, de Sírio Possenti, coletânea de 44 crônicas do linguista acerca de vários temas relacionados à gramática e às posturas frente a ela. Não haveria melhor frase para a conclusão e, também, para resumo dessas crônicas: um esforço transgressor (pelo menos, na grande mídia) e reflexivo de um fato trivial a língua , que, apesar da natureza, implica tratamento analítico altamente complexo. Uma das passagens, em que o autor parafraseia outro linguista de destaque, Dominique Maingueneau: A língua é, antes de qualquer coisa, um sistema semiformal e este é atravessado pelos embates subjetivos e sociais. (cap. 22: Língua: o que é isso?), transparece o teor de suas considerações sobre os fatos da língua, fugindo de saídas fáceis e comezinhas, como geralmente apresentadas pelos gramatiqueiros de plantão, conforme Possenti, e buscando um entendimento mais robusto e científico do que ainda hoje insistem em classificar de erros de português e também de outras questões mais amplas sobre linguagem. Se, por um lado, essa abordagem é rebelde, e o é, se pensarmos que a terceira edição é de 2009, não é revolucionária, ao menos não para os já inseridos nos estudos da linguagem, especialmente os estudos linguísticos das últimas décadas. Todavia, nisto se configura a divulgação científica: tornar determinado conhecimento mais fácil de ser compreendido por pessoas leigas na área, abdicando de nomenclaturas especializadas e aprofundamentos teóricos em prol de uma apresentação palatável, interessante e, mesmo assim, cientificamente acurada do alvo de explicação. Nessa toada, o texto de Sírio é potente enquanto veículo de divulgação devido a sua incontestável competência técnica e a sua admirável habilidade de tratar com leveza e graça dos diversos assuntos da língua. Entretanto, há pouca coisa que escapa dos efeitos do tempo, e disso não escapam os textos de Sírio, seja pelas referências midiáticas em voga na época e quase desconhecidas pelo grande público hoje em dia, seja pela atualização de algumas discussões desimportantes até então e protagonistas hoje. Contudo, isso não é suficiente para tirar dos textos seu efeito (talvez, no máximo, diminua um pouco). Destacam-se as seguintes passagens: Logo após a posse de Lula, um articulista do Correio Popular, de Campinas, comentando medidas do novo governo, repetiu uma velha expressão para explicar o que estaria acontecendo: o governo é como um violino, que se segura com a esquerda e se toca com a direita. (p. 61, cap. 20: Alguma precisão, por favor) A escola, e outras agências educacionais, deveriam ter claro que ler é um trabalho. Acredito, inclusive, que é muito mais fácil que se chegue a situações em que ler é um prazer se o acesso mais ou menos organizado à leitura for realizado na forma de trabalho. Que o prazer não seja uma condição, mas, eventualmente, um efeito. (p. 92, cap. 31: Leitura é trabalho) Trata-se de um traço cultural interessante de nosso tempo. Talvez esteja relacionado de alguma forma com o relativismo que desconfia de qualquer princípio ético (quem sabe o que é certo?) e de qualquer regra epistemológica (quem pode garantir a mais mísera verdade?). O exagero dessa posição é que a própria realidade não existe; se existe, é efeito de discurso. (p. 117, cap. 42: Esboço de um ensaio: eufemismos e tabus) [...] sabe-se que o padrão linguístico está estritamente ligado à aceitação de certas formas pelos segmentos dominantes de uma sociedade e não, como alguns pensam, a critérios de correção naturais a uma língua. Se o segmento dominante emprega certas formas sem se dar conta de que há problema com elas, isso significa que já pertencem ao padrão. (p. 125, cap. 44: Programa Mínimo) Aos profissionais, serve para colocar as reflexões na prática de ensino. Aos leigos (por favor, profissionais, recomendem aos leigos), serve para subverter e substituir velhas e antiquadas noções de língua, de modo certeiro e bem-humorado.
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