Deve-se ter muita perseverança para ler este livro de Ms. Highsmith. Se, no começo deste ano, "Carol" proporcionou-me alguns bons momentos de encantamento e despertou-me a vontade de conhecer mais a obra da aclamada autora, "Uma questão de moral" quase me fez desistir da leitura, tamanho o tédio e a superficialidade do enredo.
Um jogo para os vivos era considerado pela própria Patricia Highsmith o seu pior livro. Sinceramente, mesmo conhecendo pouco a obra highsmithiana, ousaria colocar Uma questão de moral no páreo. Praticamente nada funciona bem neste romance, a começar pelo título duvidoso, mesmo no original (People who knock on the door).
O livro pode ser resumido como a história de Arthur Alderman, um aluno secundarista fascinado por Biologia, que enfrentará diversos percalços familiares principalmente por conta de seu namoro com a insípida Maggie Brewster e pelo fanatismo religioso do seu pai, o vendendor de seguros Richard, e do seu irmão recluso e estranho, Robbie.
Além dessa trama central, as subtramas focalizam o primeiro emprego e outros pequenos trabalhos de Arthur, o seu ingresso no curso superior, a sua relação com alguns poucos amigos, enfim, o cotidiano comum de um jovem estadunidense na sua fase de transição ensino médio universidade, uma temática já enfastiada pelas recorrentes alusões a ela em diferentes artes.
Mas essa recorrência não é o problema, na minha opinião. Clichês podem ser bem trabalhados. Nessa obra, todos os conflitos familiares e religiosos, bem como ótimos temas (aborto, conservadorismo, american way life...) são tratados de forma rasa, e as personagens perpassam-nos por meio de atitudes maniqueístas que beiram quase o inacreditável.
Somam-se a esses problemas as mudanças abruptas de cenário, um recurso muito chato de Highsmith nessa obra; a autora parece preocupada demasiadamente com uma cronologia ininterrupta, que não faz sentido algum "in case". Definitivamente, uma trama subaproveitada, recheada de personagens sem carisma e diálogos pobres. Não engrena.