Escrito por Shakespeare por volta de 1603, essa foi a peça que inspirou o grande Machado de Assis a escrever Dom Casmurro e seu alucinado personagem tomado pelo ciúme, Bentinho. Claro que ele recria 'Otelo' a partir de uma percepção muito própria, não parecendo tão trágico.
A questão racial é manifesta nessa obra e deixada completamente evidente com as falas de Brabâncio, pai de Desdémona, quando toma conhecimento do amor da filha por um homem negro, um Mouro... e firmada mais uma vez por Iago; que se sentia ofendido em seu orgulho por ter que servir ao berbere e aceitar a promoção de Cássio, que achava ser sua por merecimento.
Iago encontrou terreno fértil nas inseguranças de Otelo e semeou a discórdia que culminou no femicídio mais famoso da literatura e em um transtorno estudado nas aulas de psicologia; Síndrome de Otelo – Ciúme Patológico e Delirante.
Otelo se sentia abaixo socialmente de Desdémona e isso tornou fácil para seu inimigo manipulá-lo e causar intrigas convincentes aos seus olhos.
Iago é um personagem maquiavélico e sem limites que era tido como íntegro e honesto pelo general Otelo, Cássio, Desdémona, Rodrigo e por todos a sua volta. É um verdadeiro vilão que rende uma ótima discussão sobre aparência e realidade.
Essa é uma obra magistralmente bem escrita que em poucas palavras suscita muitas reflexões que ecoam desde 1603 até os dias de hoje. O ciúme de Otelo é usado como atenuante para o crime que ele cometeu, e 408 anos depois essa tragédia foi citada por um tribunal português em 2011 para considerar o efeito atenuante do ciúme. Transformando o ego ferido de um homem e a sensação de posse que seu "amor" o conferia, em motivo para dispor da vida de outra pessoa em nome de um sentimento falho que julga lhe dar direitos de causar a morte da pessoa "amada".
Otelo não amava verdadeiramente Desdémona, amava a admiração e a piedade que ela sentia pelos seus heroicos feitos e privações. O amor dela era privado, o dele era poder e afirmação pública. Ele que no início parece tão forte, seguro de si e viril, logo mostra sua insegurança e fraqueza interna.
Essa tragédia trata de ciúme, traição, amor e inveja –, além de evidenciar o racismo e a xenofobia em sua mais pura essência. Sendo assim, um marco para a dramaturgia mundial.
Shakespeare era um gênio manipulador de palavras e emoções que criava personagens trágicos com perfeição, sintetizando em suas peças manipulações e sentimentos tão reais na sua época quanto continuam sendo na atualidade.
Essa foi uma leitura maravilhosa, daquelas que você vai virando as páginas sem pensar de tão entretida e curiosa que fica com o rumo que a história está tomando. Otelo foi mais uma tragédia de Shakespeare que me conquistou completamente, assim como Rei Lear e Macbeth.
Dado tudo que essa peça me despertou; não me surpreendo por ela ser estudada, inspirar outras obras e ser adaptada para várias mídias até os dias de hoje.
Recomendo com certeza mais essa obra prima de William Shakespeare.