O dono do caderno e os olhos de ler a vida
“Caderno de poesia” (Partesã, 2017) é o segundo livro do escritor Assis Furtado, radicado em Araraquara, e o primeiro de poesia – o livro anterior, “Morro da dezembrada”, é de contos e foi lançado em 2016. Professor de português, mestrando em literatura brasileira na Unesp/ Araraquara, Assis escreveu os poemas desse livro entre 2005 e 2016. Foram coligidos 86 poemas entre mais de quatrocentos e vinte. O processo material da produção do livro confere um charme especial ao seu projeto gráfico. Assis bolou um caderno, com capa de papelão e prendedor para papel perfurado, em que vai escrevendo à mão seus poemas. À medida em que são escritos e preenchem o caderno, Assis repõe mais folhas brancas para novos poemas. Portanto, a capa do livro “Caderno de poesia” é a própria capa do caderno querido, com ranhuras e pequenos rasgos, algo precioso para o autor e que sensibiliza o leitor. Quanto aos poemas – e é o que mais nos interessa, evidentemente –, é impressionante a unidade temática encontrada num livro que, como já disse, foi sendo escrito ao longo de anos. Certamente Assis não tinha, em 2005, a ideia de editar um livro com os poemas que começava a escrever, com uma determinada “cara”: os poemas foram apenas surgindo um a um. O estilo é variado na métrica, mas é uniforme no tratamento das palavras e na fuga às rimas consoantes. Um ritmo suave embala a leitura, tornando-a prazerosa. Quanto ao tema, creio que é o que há de mais importante a ser dito, além de como ele é apresentado: Assis escreve sobre o que o circunda, e só. É com uma certa distância que ele resgata o corpo amoroso, que ele vislumbra urubus carniceiros, que ele reinaugura a vida das palavras: “Aspecto rubro Aspecto rubro, em volta; labaredas que ornem a máscara, o véu e o nome: carmim propriedade – artigos pendentes da língua ...da palavra, rúbia granada, do fogo, intenso reencarnado; a tinta vermelha que os cílios recebem e lançam, desdenham, ferventes as brasas: mastiga-me forte estes versos na atividade de Musa girando por sobre o Reino. Há um nome, secreto, dizendo, absoluto; um nome desperto, erguendo sinal de um nome repleto chamando – quando menos espero.” É um poeta que presencia a vida e a conta lentamente, com metáforas das melhores, sem exagero, e com certa secura no tratamento dos versos. Neles, percebe-se muita técnica, descobre-se um mundo poético bastante particular que, enfim, virou esse livro. O “Caderno de poesia” de Assis Furtado é, segundo o crítico Bruno Malavolta, em prefácio ao livro: [...] alguma flutuação entre dicções, tensão ou maturidade lírica, por outro, sua irrepreensível unidade, para utilizarmos uma expressão de Ivan Junqueira, faz dessas flutuações nada mais que a graduação esperada de um cancioneiro [...]. Essa concepção de um cancioneiro de fato cai muito bem para o livro, e o estilo, nomeado por Malavolta como neoclássico, destaca-se da maior parte da produção poética contemporânea. Em primeiro lugar, o poeta experimenta diversas métricas nos poemas. Em seguida, sabe-se que o poeta é uma testemunha da vida, não se imiscui nela, não se mete demasiado com as palavras (embora um dos poemas chame-se “Palavra”, e este seja dos melhores) como se tem feito à exaustão nos nossos dias. O olhar de Assis parece um olhar meio perdido, que de repente, já então eu lírico, encontra algo que até então passara despercebido. Seus versos são de uma elegância ímpar.

