Como num sonho, Angélica ouvia as vagas quebrando contra o casco do navio. O balanço suave a punha eufórica. Desfalecendo, sentia nos braços a força daquelas mãos poderosas. Ele a seduzira, a hipnotizara por meios mágicos... Quem afinal, lhe inspirara outrora sentimentos assim, aquela mescla de atração e desconfiança? Joffrey de Peyrac! Seu marido! Seria naquele navio que ela se veria no ponto de confluência de todas as suas existências? Quinze anos haviam se passado desde que o amado marido fora queimado vivo em praça pública. Quanta coisa se atribuíra desde então à bela Marquesa dos Anjos, amante do rei de França, viúva do Conde de Peyrac. Uma mulher vestida de ouro, favorita de um rei grandioso que fazia tremer o mundo. Angélica fechava os olhos, virava a cabeça como faria entregando-se. Chegara àquele ponto da vida em que a única riqueza que se possui e que não pode ser arrebatada é a si mesmo. Atrás de si batia o mar no costado do navio. O mar incessante e indiferente...


