O amor à pátria foi o sentimento que alimentou a maior parte da literatura brasileira romântica. Para dotar o país de uma nacionalidade literária, nossos escritores não se cansaram de elogiar a natureza exuberante, trataram o índio como herói, descreveram os costumes do campo e da cidade, voltaram-se para o passado histórico a fim de glorificá-lo e abrasileiraram o uso da língua portuguesa. Os três dramas reunidos no presente volume nasceram nesse contexto e trazem as marcas do nacionalismo romântico. Em A voz do pajé, Bernardo Guimarães põe o índio em cena, dividido entre o amor por uma mulher branca e a lealdade a sua tribo. O índio aparece também em Calabar, de Agrário de Menezes, drama histórico que trata da guerra dos portugueses contra os holandeses em Pernambuco, no século XVII, e que tematiza a luta pela independência pátria. O mesmo tema é aproveitado em Sangue limpo, de Paulo Eiró, abolicionista precoce, que recuou a ação dramática a 1822, para contrapor o grande feito histórico à falta de liberdade dos escravos.
Antologia do Teatro Romântico
Elizabeth R. Azevedo
Pioneiras do teatro romântico brasileiro, as três peças dessa antologia foram escritas no século XIX, e se passam nos contextos dos períodos da colonização até a beira do fim da escravidão, por causa disso têm como temas comuns o nacionalismo, guerras entre colônias, escravidão, abolicionismo, indígenas e, dando início ao movimento do romantismo, o amor romântico exacerbado. O prefácio informa que essas são peças pioneiras na apresentação de indígenas, ou pelo menos nas formas não apenas pejorativas como os indígenas e não brancos são apresentados. - Calabar: De início um pouco cansativo e maçante, em parte pelo próprio conteúdo, mas principalmente pela linguagem em versos difícil de acompanhar. Presentes os temas da traição/deslealdade, a troca de lado na guerra, enaltecimento de um guerreiro e vingança de um amor dolorido. - A voz do Pajé: Aqui existe um conflito muito mais complexo, não só o amor do oprimido pela burguesa é um obstáculo na tomada de decisão de qual lado do conflito vai tomar, como o servo herói é criticado por outros indígenas por ter aceitado sua posição de servo a ponto de não querer guerra contra seus amos. Há conflitos e tragédias muito evocativos de Romeu e Julieta, há também a vingança de amor, como em Calabar. Existem também elementos sobrenaturais. Mais intrigante e interessante que Calabar. - Sangue Limpo: De início também difícil de acompanhar, depois fica mais fluido por conta da história cativante. Uma das coisas mais interessantes é como o reconhecimento da cor de pele é tratado de forma mais direta aqui, tratada não como um problema natural pelo próprio oprimido, mas mais entendido como um problema social, ele sabe ao que e a que lugar foi destinado pelo branco. Há aparentemente a ausência de uma família completa, de um poder patriarcal, no lugar há um amor fraternal, que toma o lugar do pai. É uma apresentação de família e de dinâmica de poder muito interessante, mas não por isso singela ou bela. Também existe uma certa resignação atípica de um dos amantes, que nem por isso deixa de ser leal ao seu bem querer da amada.
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