"Era 2124, quando Eivel se apagou."

"Era 2124, quando Eivel se apagou."
Após acordar na cidade de Eivel, destruída, sem energia elétrica ou contato com o exterior, Kerah se vê perdido e sem memórias em um mundo arruinado, onde criaturas espreitam nas sombras que dominam a cidade, cada passo pode ser seu fim e a única certeza que tem é achar alguém chamado Viktor. O que mantém a trama andando é o mistério que segue até as últimas páginas sobre o que está acontecendo, o que estamos vendo é real? O que é real dentro daquele universo? E posso dizer que o que mais me agradou em toda a obra foi que o autor não subestima a inteligência do leitor em nenhum momento do livro, pelo contrário, existem muitas questões que ficam abertas e outros detalhes subjetivos. É uma delícia fazer suas suposições durante a história sem saber se está seguindo pela linha de raciocínio certa ou então se está sendo enganado pelo autor. As minhas suposições se provaram quase todas certas quando eu terminei o livro, mas não foi algo frustrante, porque o autor não ficava esfregando pistas óbvias na minha cara. A única parte que me deixou um pouco incomodada nesse quesito foi logo no começo, quando o Kerah acaba vendo em uma televisão uma explicação sobre o que está acontecendo. Primeiro, é uma coincidência grande demais, poderia ter sido mostrado de outra forma, com os humanos que estavam se escondendo, ou então não mostrando todas as informações e desligando a televisão, o autor poderia ter usado esse momento para dar várias pistas falsas. Não há muitos personagens e o único que tem mais tempo é o Kerah, e eu não consegui me sentir conectada com ele, enquanto não tive tempo para me conectar a ninguém mais. Esse, para mim, foi o maior problema do livro. Ele segue um ritmo rápido e é pequeno, mas tornou-se muito arrastado logo depois da metade, porque a busca do Kerah não acabava nunca, parecia que eu tinha lido 300 páginas dele procurando, ao invés de um pouco mais de 100, segue assim por mais algumas páginas e depois recobra o mesmo ritmo de antes, o que é um refresco. Outra coisa que me incomodou bastante foram a falta de necessidade para algumas cenas, na primeira cena chocante eu pensei "que legal, o autor não tem medo de colocar esse tipo de conteúdo, gostei", mas na quinta eu já estava saturada, não me chocava, não fazia muito sentido, poderiam ter sido substituídas por cenas que contribuíssem mais para a história. Mostrar outra face do Kerah (se ele tivesse alguma outra e já não fosse outra face), descrever melhor os lugares — a falta de descrição me deixou incomodada em alguns momentos, mas foi algo facilmente contornado, já que tudo está escuro na maior parte do livro —, mostrar outros personagens. Parecia que elas estavam lá só para chocar — e não estavam mais cumprindo seu papel. O nosso antagonista, Arkell, é interessante, assim como a ideia por trás dele, mas, como o Viktor, tem muito pouco tempo. Falando do Viktor, ele dá um chilique no final do livro que me pareceu muito coisa tirada da primeira fanfic que alguém escreveu, o que me fez rever toda a imagem que eu tinha dele, não foi algo particularmente agradável. O encerramento do livro foi satisfatório, mesmo com várias questões deixadas em aberto. Gostei de como as coisas ficaram, da sensação de uma jornada terminada e o começo de outra que eu só podia vislumbrar. O Arkell insiste várias vezes que foi o Kerah que matou os próprios pais, insiste nisso ad nauseam, o que me fez seriamente pensar se eles não seriam a mesma pessoa, afinal, a única pessoal que vai te atormentar pelo resto da vida é você mesmo. Não sei, acho mais fácil o Kerah ser uma projeção da mente do Arkell, ou então parte da consciência dele externizada, não exatamente a mesma pessoa, mas duas coisas vinda do mesmo lugar, e não exatamente uma projeção nesse caso, mas uma criatura que se tornou independente. É um pouco confuso de explicar. Em último caso, pensei no Kerah ter vindo de uma outra dimensão, pelo chilique do Viktor no final. Ou então algo vindo do Viktor, já que quando o Kerah acordou ele estava procurando por Viktor, não pelo Arkell. E não faz sentido a única certeza do Kerah ser o Viktor se ele tiver se originado do Arkell. Ou talvez eu só esteja viajando muito. Muito mesmo. Entretanto, a minha maior sensação com o livro foi que ele deveria ter sido muito maior. Em muitos momentos, parecia que eu estava lendo um esboço, um resumo de uma obra original. Acho que seria muito melhor se fosse mais desenvolvido. Falando nisso, gostei muito do trabalho final do livro, com páginas negras e páginas brancas, dependendo do momento em que a história se passava, ficou muito bonito e instigante, porque eu queria saber o que diabos acontecia nas benditas páginas brancas. Não sei se essa era a intenção do autor, mas, olha, deu muito certo. Blackout é um bom livro, mas com muitos pontos que precisam ser consertados e serem mais desenvolvidos, uma ficção científica que pode ser lida em uma tarde relaxante, se você, assim como eu, gostar de dar uns nós na mente enquanto relaxa.


