Adeus, Tóquio! é um dos mais recentes lançamentos da editora Globo Alt. Recebido em parceria, esse é o tipo de livro que diverte e emociona através de uma história simples e realista.
Sophie vai se mudar. Ela está deixando Tóquio para voltar aos Estados Unidos depois de ter se acostumado a viver na grandiosa cidade japonesa. Com uma semana tique-taqueando no relógio até sua mudança definitiva, Sophie percebe que precisa aproveitar ao máximo do que Tóquio ainda tem para ela. E isso significa sair com os amigos, visitar o máximo de lugares possíveis e até resolver coisas do passado que ficaram em aberto. Questões do coração, principalmente.
"Era um redemoinho de energia. Uma tempestade de sons colidindo e zunindo. Era meu lugar predileto em Tóquio."
É um livro simples e, por isso, uma leitura rápida. Adeus, Tóquio! é uma história sobre o que significar estar em casa, o que significar deixar as coisas para trás. A jornada da Sophie envolve muito de se encontrar nessa última semana em um lugar que ela considera seu lar; a ideia de ir embora não é tão assustadora quanto de deixar tudo que ela conhece e ama para trás. Todo esse arco de aceitação e de entendimento é importante para uma personagem que raramente sai da sua zona de conforto, acostumada ao confortável e a uma rotina.
Eu gostei bastante da Sophie. Ela é uma personagem com peculiaridades, bastante resoluta, até. Em alguns momentos a achei egoísta, em outros senti empatia por ela. O maravilhoso em histórias assim é conseguir encontrar a realidade em suas personagens, e na Sophie vi muito disso. Livros que falam sobre pessoas jovens ou acertam muito no seu tom ou se tornam caricatos e pouco críveis; a Sophie é o tipo de personagem que poderia existir na nossa realidade. É uma garota sonhadora, com expectativas e muitos temores. Ela está pronta para viajar, mas não para dizer adeus. A contagem regressiva que tem feito até o momento de dar as costas para Tóquio é uma passagem de tempo para o seu próprio amadurecimento. Não algo corrido e desesperado, mas um momento de reflexão. Especialmente em relação aos seus amigos e à sua família.
"- Todos nós construímos alguém em nossa cabeça. Todos nos machucamos por causa de alguém que nos magoa."
O núcleo de companheiros da Sophie foi meio... Problemático em alguns momentos. David, seu crush e grande amigo, era um grandessíssimo palerma egoísta. Odiei quase todas as cenas com ele e um problema do livro foi tão ter tratado o cara babaca com o merecido tratamento: ou seja, pelo menos um tapa na cara. David é o típico garoto que se apoia nas meninas porque é bonito e porque engana com sua simpatia, que joga a culpa de qualquer situação nos outros e nunca nele. O típico cara que certamente entraria em uma discussão sobre suas atitudes machistas dizendo "not all men". Principalmente pelo fim do livro, eu esperei que a Sophie ou alguma outra personagem rodasse a mão na cara dele - física ou verbalmente, pelo menos.
"Porque talvez a nossa amizade não fosse perfeita, e talvez nós duas tivéssemos feito pequenos estragos, mas ela sempre estivera presente para mim."
A melhor amiga da protagonista é Mika, e ela foi outra problemática da história. Apesar de ter se redimido no final, eu detestei como Mika se apoiava na Sophie através da sua ingenuidade e empatia. Mika dividiu momentos muito revoltantes em que eu só conseguia pensar "caramba, Sophie, como você aceita um embuste desses?". Para sorte e felicidade geral da nação, o jogo vira do meio para o final do livro e a relação delas, em meio a essa reviravolta, escapa da toxidade para uma coisa saudável e que deve ser perpetuada. Mais sororidade, por favor.
Minha favorita entre os amigos foi a Caroline, e ela quase não passou de uma figurante em boa parte da história, veja bem. Namorada atual de David, ela é radiante e sorridente e disposta a ajudar mesmo que as pessoas não percebam. Sophie passa por alguns escorregões julgando a menina por ela estar namorando o garoto de quem ela está a fim, mas acaba se aproximando da Caroline e se encontrando na simpatia dela.
"- Acho que você escolhe a qual lugar quer pertencer, e esses lugares sempre estarão lá, para lembrá-lo quem você é. Você só precisa escolhê-los."
Agora, o meu personagem mais querido desse livro foi o Jamie. Recém-chegado de uma mudança, Jamie se estabelece em Tóquio depois de ter partido em meio a uma briga com a Sophie. Quando os mal entendidos são resolvidos, os dois se aproximam e é tão lindo de ler. O fato de a autora não ter batido na tecla de friendzone me fez gritar aos céus MUITO OBRIGADA. Jamie é um personagem adorável; presente, um pouco rebelde e extremamente tímido, ele vê em Sophie o que ela vê em si mesma, e admira cada nuance da personalidade dela. Os dois se entendem e dividem ótimos momentos. É o tipo de ship que nasce rápido, mas que é crível porque a amizade cresce em um sentimento mais forte. Especialmente se contar o tique-taque do relógio até a partida da Sophie, e a ideia de que eles talvez não tenham um felizes para sempre, mas um felizes enquanto podem.
Em relação à família, o que eu mais adorei foram as interações da Sophie com sua irmã mais velha, Alison. Ambas vivem suas crises de maneiras diferentes, e Alison é muito mais explosiva do que a caçula. Elas têm interações importantes para falar sobre superar e entender o que significa um "lar" - e aqui eu amei só consegui me lembrar de Anna e o Beijo Francês, onde a personagem diz que um lar não é um lugar, mas uma pessoa. É exatamente esse o sentimento que essa história nos passa.
"Eu pensava nas estrelas e em como a luz que elas possuem dura muito tempo depois que a estrela em si já se apagou. Pensei em como o nosso lar ainda é um lar, mesmo quando está a milhares de quilômetros de distância."
A edição da Globo Alt está fantástica. A capa é uma gracinha, revisão e diagramação espetaculares.
Minha única e grande ressalva a respeito da história foi o fato de se passar em uma cidade japonesa e não ter absolutamente nenhum personagem japonês. Com esse núcleo e ambiente diferenciado, esperei mais no quesito representatividade por parte da autora - até porque só tem personagem branco no arco da protagonista.
Adeus, Tóquio é um livro leve e rápido para distrair e se divertir. Para se importar com personagens e ansiar pelas decisões deles. Para entender o que significa pertencer a um lugar.