Pobreza Generalizada, Auschwitz, Racismo Estrutural, Catástrofes Ambientais, Pandemia e Câncer. A lista poderia continuar por centenas e centenas de linhas, citando diversos problemas com causas variadas, todavia, que possuem um elemento em comum: o sofrimento humano. Como lidar com o elefante branco que ocupa a sala de qualquer religião? Mais especificamente, onde está Deus quando sofremos? E qual é o lugar dos cristãos que se dizem filhos deste Deus?
Todas essas perguntas tem sua resposta em Cristo, para Moltmann. Propondo uma cristologia ancorada em uma perspectiva da esperança, o teólogo alemão constrói uma teologia da cruz robusta e desafiadora. Nela, se pode entender que o Deus crucificado está identificado com os povos crucificados; que para além da salvação pessoal, deve-se pensar sobre a libertação do ser humano e sua postura em relação aos círculos viciosos da sociedade e que é o próprio Cristo, na sua história e encarnação, que torna claro o que é e o que não é uma igreja cristã.
Em “O Deus Crucificado”, Moltmann não apresenta uma discussão abstrata, mesmo que ela seja muito densa teoricamente, mas discute a partir do concreto o que significa a cruz de Cristo e seu impacto na vida daqueles que creem. Sendo assim, aprende-se que é papel da Igreja tomar partido nos conflitos sociais e políticos a partir do amor vivificador que transforma o mundo e as relações sociais, na preocupação legítima e consciente pela vida. Da mesma forma, tomamos ciência que “ Deus não veio praticar a justa vingança […] mas vem para a justificação graciosa dos pecadores […]”
A cristologia de Moltmann também destaca de forma clara que o Reino de Deus é político, mas não pode ser, em hipótese alguma reduzida a uma idologia política particular. O Reino de Deus, na figura do Deus crucificado, se manifesta em uma postura ativa e engajada em romper com as relações hierárquicas que privam a humanidade do seu desenvolvimento nas diversas áreas da vida. A cristologia apresentada por Moltmann, possui um direcionamento muito claro, uma espécie de agenda que implica uma atuação dos cristão diante de um mundo que sofre e produz sofrimento. Neste sentido, por estar em Cristo, a igreja deve agir sobre o mundo, antecipando a presença física de Deus na atuação para libertação dos círculos viciosos que se manifestam na criação.
Mas se é papel de quem crê se opor ao sofrimento, ainda é preciso responder: onde está Deus quando alguém sofre? Em uma resposta simples, Deus está com quem sofre e é isso que Moltmann demonstra com uma reflexão robusta e, por vezes, muito difícil. Na perspectiva de Moltmann a cruz é o abraço de Deus ao abandono e ao sofrimento, entretanto, a tragédia que é a morte de cruz e o abandono que ela significa no sofrimento vivido pelo próprio Deus, ganha outra conotação a partir da ressurreição. Portanto, na sua compreensão teológica, a cruz precisa ser compreendida pela ressurreição.
É nessa dinâmica que Moltmann nos ajuda a compreender que Deus tomou sobre si, na pessoa do Filho, o abandono para que nosso abandono estivesse Nele e sofreu trinitariamente o evento da cruz para que todo o nosso sofrimento estivesse também Nele. Entrou na história para que esta história fosse sua história e para garantir, pela esperança da ressurreição, que o fim dela não fosse o fim. Nesse processo, vicariamente, Deus faz os pecadores justiça porque se fez pecado por nós, manifestando sua soberania em um ato de amor sofredor, isto é, na solidariedade com todo aquele que sofre.
Assim, Moltmann nos ajuda a compreender que a realidade concreta do sofrimento não é a realidade derradeira, mas aquela que já está superada na promessa realizada em Cristo e já presente no futuro de Deus, experimentado na fé, inaugurado na ressurreição do crucificado. Como o autor nos fala, não se trata da continuidade da vida após a morte ou uma continuidade do que já está dado. Deus, em Cristo, inaugura uma vida nova, já aberta e disponível para aquele que crê.
O Deus crucificado é um livro denso, complexo e desafiador para quem está acostumado com enlatados teológicos e perspectivas conservadoras. Para muitos, será apenas um panfleto verborrágico de uma suposta agenda socialista no cristianismo, para os atentos, mesmo aqueles críticos, será um esforço robusto de pensar a relevância da cruz diante dos males contemporâneos que se apresentam como desafios a relevância e identidade cristã.