A Epopéia Bandeirante - Letrados, instituições, invenção histórica (1870-1940)

    Antonio Celso Ferreira

    Unesp
    2002
    372 páginas
    12h 24m
    ISBN-10: 8571393869
    Português Brasileiro

    O processo de criação do conceito e do imaginário do que é "ser paulista". Processo esse que teria se dado entre as décadas de 1870 e 1940 empreendido por intelectuais letrados e instituições como o Almanache Lieterario de São Paulo e o Instituto Histórigo e Geográfico de São Paulo, no intuito de desmistificar a imagem de estado atraso e povo "caipira" com a contrução de uma imagem desbravadora e temerária construída na figura de um bandeirantismo mitificado.

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    Skooblover18/11/2009Resenhou um livro
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    O AUTOR Atualmente lecionando e orientando mestrandos e doutorandos na UNESP, o Prof. Antonio Celso Ferreira é graduado em História pela Universidade de Brasília, Mestre em História Econômica e Doutor em História Social, ambas as titulações pela Universidade de São Paulo. Seus campos principais de pesquisa são a relação entre história e literatura, historiografia e história de São Paulo, movimento modernista e literatura paulista. Sua tese de livre-docência em História do Brasil, desenvolvida na Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, que originou o livro resenhado, então, abrange praticamente todas as linhas de pesquisa nas quais costuma atuar. A FORMA DO LIVRO Quanto à estrutura, descontando o prefácio e a bibliografia, o livro possui um ‘prólogo’ que seria o equivalente à ‘introdução’ num texto acadêmico não publicado e o que seriam as ‘considerações finais’ foram denominadas de ‘epílogo’. No mais o livro possui quatro capítulos, dentro dos quais o autor agrupa cronologicamente e/ou por tipo de publicação os textos e autores que, no seu ver, tiveram papel essencial na mitificação do bandeirante e na “invenção” de uma história e de uma identidade paulistas. O CONTEÚDO DO LIVRO O livro aborda não necessariamente o surgimento da intelectualidade literária paulista, mas sim de seu processo de auto-afirmação perante a Capital Federal e o resto do país que ainda veriam São Paulo como um Estado atrasado, um “Novo-Rico” sem um passado relevante e sem cultura. Esses letrados e intelectuais que se propuseram a empreitada de resgatar ou “forjar” uma história e cultura paulistas de suma importância para o Brasil não eram historiadores ou pesquisadores de quaisquer áreas afins, mas médicos, advogados, jornalistas, dentistas etc. O período de tempo selecionado pelo autor se encerra, justamente, na década de 1940, quando a formação acadêmica de historiadores em São Paulo torna desnecessária ou até mesmo discutível a produção daqueles ‘amadores’. Não é uma coincidência vã, portanto, que a faixa de tempo analisada coincida com o grande momento de crescimento da cidade de São Paulo, como resultado da riqueza cafeeira, da industrialização e do processo de imigração. São Paulo enriquecia e crescia e dentro dos preceitos positivistas que ainda imperavam, numa relação de causa e efeito, era necessário que se buscasse as razões desse crescimento no passado, a fim de legitimar o poder econômico que já possuía e o poder político que tanto almejava. AS FONTES PARA O LIVRO A bibliografia pesquisada para a tese foi extensa, mas aqui daremos maior atenção para quais foram as fontes primárias escolhidas, as quais inclusive ajudam a delinear a estrutura e divisão de capítulos do livro. O almanaque, tipo de publicação já não muito em voga na segunda metade do século XIX foi o primeiro veículo identificado por Antonio Celso para a auto-afirmação dessa nascente intelligentsia paulista. O Almanach Litterario de São Paulo, publicado por José Maria Lisboa entre os anos de 1875 a 1885 foi o pólo centralizador onde intelectuais paulistas das mais diversas áreas conseguiam publicar seus estudos. Com o fim desse almanaque, muitos de seus colaboradores migraram para o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), fundado em 1894 e encerrado em 1944, tendo vários deles integrado a posteriormente inaugurada Academia Paulista de Letras, em 1909. As publicações periódicas de ambas instituições foram outras das fontes primárias da tese de livre-docência do Prof. Antonio Celso, sendo elas a Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (publicada de 1895 a 1939) e a Revista da Academia Paulista de Letras. Além desses periódicos e instituições, diversos romances sobre São Paulo publicados no período abordado se tornaram fontes primárias para a pesquisa, com destaque para a transição de um modelo romântico tardio para o modernismo e o regionalismo dos anos 20. A PESQUISA No que tange aos periódicos, principalmente o Almanach Litterario de São Paulo, o pesquisador utilizou inclusive métodos quantitativos, desenvolvendo critérios de classificação dos textos encontrados e, então, dividindo-os em categorias com a finalidade de demonstrar a sempre crescente importância dada aos artigos de cunho histórico sobre São Paulo. Quanto aos romances e outros textos que foram utilizados como fontes primárias, a pesquisa foi mais qualitativa, visto que seria impossível dar conta de todas as publicações sobre o assunto, procurando eleger autores consagrados e esquecidos e discutir o conteúdo de suas obras coerentemente com o contexto social, político e econômico no qual foram redigidas. Assim, apesar de ter usado métodos de pesquisa quantitativos em determinados momentos, a análise dos resultados nunca deixou de ser qualitativa, contextualizando, sempre, todos os dados obtidos. A metodologia de pesquisa adotada pelo Prof. Antonio Celso parece-me, então, a histórico dialética, ainda que não explicite isso em seus prólogo e epílogo, nem eleja nenhum teórico que fundamente todo seu trabalho. Alguns autores importantes constantemente citados em sua pesquisa são Eric Hobsbawm e Stephen Bann, os quais possuem obras nas quais discutem a “criação” ou a “invenção” na historiografia, e Pierre Bourdieu e J. Le Goff os quais, discutem, respectivamente, a força dos símbolos e a história das mentalidades. O livro do Prof. Antonio Celso discute a construção de símbolos paulistas e como isso reverbera até nossos dias em nossa mentalidade, ou seja, uma postura crítica sobre a produção historiográfica e sobre a repercussão disso na legitimação de determinados status qüo e na formação de nosso imaginário. CONSIDERAÇÕES FINAIS Trata-se de uma obra de suma importância para qualquer pesquisador que discuta literatura brasileira e paulista, historiografia, nacionalismo, regionalismo, modernismo, história de São Paulo e história do Brasil Imperial e Republicano. Por abordar a literatura e não documentos “oficiais” como suas fontes primárias, o autor demonstra estar coerente com tudo que a Nova História e suas congêneres trouxeram de positivo para essa ciência, sem contudo abrir mão da percepção dialético materialista de como fatores econômicos e legitimação de classes está por trás de muito dessa produção literária e historiográfica. Se há alguma crítica negativa que faria à pesquisa do Prof. Antonio Celso é a de não ter abordado, ainda que tão somente como indicação para pesquisas mais aprofundadas, as conseqüências dessa “epopéia bandeirante” na produção historiográfica e literária contemporânea. Os bandeirantes não são mais vistos como heróis ilibados, e suas crueldades são conhecidas, no entanto os ideais que a eles foram vinculados – tenacidade, bravura, empreendedorismo, liderança, força-motriz, vanguarda, domínio, força etc. – ainda estão muito presentes nos discursos e no imaginário sobre o papel de São Paulo no Brasil. Tenho consciência de que o autor deixou bem claro, desde o título do livro, a sua delimitação cronológica, mas ainda assim senti falta de que fosse indicada essa percepção... de que todo esse processo não acabou na década de 40 e que a mentalidade ali forjada ainda persiste, latente, mas ainda lá.

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