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    Uma gozação bem-sucedida -

    Italo Svevo

    Carambaia
    2017
    224 páginas
    7h 28m
    ISBN-13: 9788569002222
    Português Brasileiro
    4.1
    37 avaliações
    Leram47Lendo2Querem60Relendo0Abandonos0Resenhas4
    Favoritos1Desejados60Avaliaram37

    Mario Samigli tem 60 anos e vive com o irmão, que sofre de gota, em Trieste. Tem uma vida vagarosa, porém feliz, com um emprego burocrático que lhe garante um salário ao fim do mês. Essa existência é temperada pelo sonho de um tardio reconhecimento público de seu talento como literato. A produção de Samigli como escritor resume-se a um romance escrito quatro décadas antes e às fábulas sobre pequenos animais, como moscas ou pardais, que rabisca diariamente. Até que um amigo apresenta-lhe um grande editor de Viena interessado em adquirir, por 200 mil coroas, o direito de tradução em todo o mundo de seu livro de juventude. O projeto logo se revelaria uma farsa. Uma gozação bem-sucedida, do italiano Italo Svevo (1861-1928), se passa em 1918, ano em que a cidade portuária de Trieste sai do domínio austríaco e é finalmente anexada à Itália. Esse “curto romance de uma brincadeira”, como classificou certa vez seu autor, chega ao Brasil pela primeira vez pela CARAMBAIA, com tradução e posfácio de Davi Pessoa, professor de literatura italiana na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), e projeto gráfico de Elisa von Randow. A vida de Italo Svevo e Mario Samigli se assemelha em muitos pontos. Svevo também escreveu dois romances na juventude, editados por conta própria, que foram ignorados por público e crítica. Como seu personagem, depois do insucesso, deixou a literatura e foi trabalhar em outro ramo – no caso de Svevo, na firma de pintura de navios do sogro. As trajetórias se separam, entretanto, no momento em que Svevo, com mais de 40 anos, por necessidades profissionais resolve estudar inglês. Tem como professor um jovem irlandês de vinte e poucos anos que passava uma temporada em Trieste: James Joyce. Os dois se tornam amigos e é Joyce quem acaba estimulando Svevo a voltar a escrever, depois de ter lido, entusiasmado, os dois livros esquecidos. Apenas aos 62 anos Svevo lançaria a obra que, enfim, o consagraria: A consciência de Zeno. Uma gozação bem-sucedida foi escrito três anos depois. Perto de sua morte – Svevo faleceria em um acidente automobilístico em 1928 –, o autor parece criar uma fábula, em tom de farsa, sobre o próprio percurso. Tradução e posfácio: Davi Pessoa Projeto gráfico: Elisa von Randow

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    jota 11 picture
    jota 1121/06/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    BOM: uma novela do mesmo autor da obra-prima A Consciência de Zeno sobre a glória literária e seus percalços

    Já que é uma novela, pareceu-me que Uma Gozação Bem-Sucedida (original é de 1926, mas foi publicado apenas em 1929) está muito mais para o Italo Svevo (1861-1928) de Argo e Seu Dono (Berlendis & Vertechia, 2008), livro de contos e uma novela, do que propriamente para sua trilogia informal triestina, mais introspectiva, ainda que bastante ligada à realidade social. Os três ótimos livros que a formam, Uma Vida (Nova Alexandria, 1993), Senilidade (Nova Fronteira, 1982) e a obra-prima A Consciência de Zeno (são várias edições brasileiras, um livro lido e relido) trazem, além de seus singulares personagens, também a cidade de Trieste (norte da Itália, onde o autor nasceu) como destaque. Apesar de italiana, Trieste pertenceu ao então império austro-húngaro (1867-1918), que a tornou um tanto diferente de outras cidades italianas do mesmo porte. É na mesma cidade natal de Svevo que vivem os dois irmãos protagonistas de Uma Gozação Bem-Sucedida, Mario e Giulio Samigli. A tal gozação vai recair sobre Mario, que Svevo assim nos apresenta: “Mario Samigli era um literato de quase 60 anos. Um romance que ele havia publicado quarenta anos antes poderia ser considerado morto se neste mundo também soubessem morrer as coisas que jamais estiveram realmente vivas. Mesmo pálido e um pouco fraco, Mario continuou vivendo por muitos anos uma vida vagarosa, tal como lhe era consentida por um empreguinho que não o cansava tanto e lhe oferecia uma renda muito baixa.” Nessa vida um tanto insípida que levava ao lado do irmão Giulio, Mario sonhava hiperbolicamente com a glória literária e daí acaba caindo vítima de uma brincadeira ou gozação. Levada a cabo por Gaia, um caixeiro-viajante, um amigo da onça, digamos assim, e um editor de Viena que estaria interessado em adquirir, por elevado preço, o direito de tradução em todo o mundo daquele livro escrito por Mario na juventude. Enquanto o negócio não se resolve completamente, Mario passa o tempo escrevendo fábulas em que os personagens são passarinhos. Veja esta, que é uma das mais interessantes do livro: “Um passarinho cegado pelo apetite se deixou capturar. Foi colocado numa gaiolinha onde suas asas não podiam nem mesmo estender-se. Sofreu terrivelmente, até que um dia sua gaiola foi deixada aberta, e ele pôde reaver sua liberdade. Mas não gozou dela por muito tempo. Tornado muito desconfiado pela experiência, onde via comida, suspeitava da emboscada e fugia. Por isso, em pouco tempo morreu de fome”. São várias historinhas de passarinhos, e a alma sonhadora de Mario parece habitada por um deles. Mas não será sempre assim, porque quando ele se descobre “engambelado”, vítima da gozação que poderia fazer a cidade toda rir dele, Mario se torna um gavião, uma águia. E aí cabe bem esse belo pensamento de Svevo: “As vitórias do espírito, não há dúvida, são muito importantes, mas uma vitória dos músculos é muito mais saudável. O coração adquire nova confiança no vaso em que pulsa e assim se regula e se reforça.” Mario é outro agora. Depois vem o final e o posfácio do professor Davi Pessoa, Um Fracasso Bem-Sucedido, que não é apenas sobre a novela que acabamos de ler, igualmente sobre a vida de Italo Svevo, que também passou por situações que seus personagens depois iriam viver em seus livros. Pessoa chama algumas dessas passagens de “inferno literário” de Svevo. Do qual também fez parte James Joyce. Mas isso é uma outra história... Lido entre 15 e 20 de junho de 2024.

    5 curtidas

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    4.1 / 37
    • 5 estrelas30%
    • 4 estrelas59%
    • 3 estrelas8%
    • 2 estrelas3%
    • 1 estrelas0%
    Ettore Schmitz profile picture

    Ettore Schmitz

    Italo Svevo foi um escritor italiano nascido numa família judaica. Recebeu o nome de Aron Hector Schmitz, mas também era conhecido como Ettore Schmitz. Foi com seu pseudônimo que se tornou mundialmente conhecido, tendo sido uma de suas mais importantes obras "A Consciência de Zeno", que compõe a trilogia formada pelos livros "Uma Vida" e "Senilidade". "A Consciência de Zeno" foi amplamente influenciada pela psicanálise de Freud. Suas obras foram valorizadas por James Joyce, que ajudou Svevo a traduzir "A Consciência de Zeno" para o francês e divulgá-la em Paris, onde foi aclamada.

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    Ettore Schmitz