Resenhando | O Terraço e a Caverna
Logo de cara a gente se depara com esse nome, e fica tipo... Como assim? Que livro é esse que tem um nome tão interessante?...
Este é um romance que foi escrito pelo autor Maurício Limeira. Com uma escrita fácil ele aborda temas ricos e delicados da atualidade com uma carga bem intensa e dramática.
Imagine só, quantos de nós não gostaríamos de viver sem sermos acusados pelos olhares, murmurinhos e até mesmo piadas constrangedoras? Quinha, sentiu na pele esta dor, tão insuportável que sua mente encontrou uma saída: viver isoladamente de modo que todas as pessoas a sua volta deixaram de existir; mesmo em meio a uma festa barulhenta o gotejar da torneira é produzido pelo cérebro, permitindo com que ela viva a margem da realidade.
“Cavei um buraco. Fundo. Pode jogar uma moeda, tente ouvi-la cair. Cavei um buraco. O ideal esconderijo. Cavei, e depois de admirar o meu feito, convoco todas as pessoas do mundo. Venham ver o buraco que eu cavei. Todos se curvam, então, para olhar. E todos eu empurro, para que caiam.”
A história é muito bem narrada em terceira pessoa e discorre de modo que nos permiti mergulhar na visão distorcida de Quinha (11 anos). A Forma como ela não enxerga as pessoas a sua volta, nada mais é que um escape encontrado para fugir da dura realidade do mundo.
A família de posses tem uma dinâmica afetuosa e juntos lutam para tira-la desse limbo, mas nele, ela criou seu maior inimigo que é um gato chamado Moisés, este se dedica, através de conversas e brincadeiras, a manter a garota presa distante da realidade e atada as negatividades. Mas nem tudo está perdido, as redes sociais foi o meio encontrado pelos pais, nela, ela se distrai. Quinha, acredita que todos os perfis são de personagens fantasiosos, assim a garota acompanha os perfis como se lesse um livro de fantasia.
Em outro ponto do Brasil, vive o pequeno Paco (cadeirante), esse garoto também sabe o que é sofrer, após a tragédia que culminou em sua condição física, tudo degringolou. Infelizmente vivemos em uma sociedade que devido ao despreparo dos pais as crianças, na sua grande maioria não está preparada para lidar com as situações adversas. Já não suportando as tristes gozações e chacotas, Paco se isola. O jovem necessita da ajuda das pessoas até mesmo para entrar em sua casa, que fica em um buraco abaixo do metrô. Para se distrair ele vaga nas redes sociais num computador que ganhou de seu antigo professor. Dois mundos tão distantes que se cruzam...
É surpreendente a forma como essas duas histórias se juntam e as muitas surpresas que surgem durante a leitura. Sem perceber no final de cada período de leitura, você se pega refletindo sobre essas vidas e até mesmo se identificando com algumas situações.
Claramente o autor buscou o melhor jeito de alcançar o coração dos leitores. O livro tem uma carga dramática e até mesmo poética. Algumas reflexões são tão profundas e intensas que nos leva a desejar ter um momento com o autor para poder debater, questionar:
“Por favor, apaguem a luz da rua e digam que o barulho vai parar. Por favor, retirem o grito de dentro da minha cabeça que não me deixa ver o sonho”
Essa é uma leitura para despertar, te levar a aguçar a empatia. Te mostrar que apesar das muitas barreiras, viver é sim a melhor opção, e sua luta por maior que seja pode não ser tão desesperadora como a de outras pessoas. Ainda que sejam histórias tristes e carregadas de marcas, o leitor irá se deliciar com a sensibilidade do autor. A trama além de original tem uma linguagem simples, tornando a leitura muito agradável. O Terraço e a Caverna apresenta dois mundos separados pela condição financeira e ao mesmo tempo, unidos pelos problemas e dores.
Andei pesquisando sobre essa síndrome e o que achei de mais próximo está ligado a tão temida esquizofrenia (você vê e imagina coisas, sons e pessoas). No caso da Quinha a gente percebe um subterfúgio para sobreviver.
Ao termino da leitura me peguei pensando em como seria rico a indicação dele para um debate em sala de aula? Além de muito bem escrito o enredo foi bem trabalhado e levanta uma crítica social que desmascara a muitos. Agora percebo o porquê de ter ganhado o Prêmio Literário Dalcídio Jurandir.
A narrativa em terceira pessoa é constante, mas os pensamentos, diálogos e as mensagens deixadas nas redes sociais dão a leveza. Foi uma experiência diferente que me surpreendeu. O gênero está indicado entre os romances e por conta própria eu incluí na minha lista de drama, ele é profundo, uma genuína literatura contemporânea brasileira e torno a repetir, intensa.
“As pessoas precisam de um lugar para onde voltar no fim do dia. Precisam de um lugar onde possam dormir abraçadas àqueles que amam, mesmo que o objeto do abraço seja um cachorro. Precisam de um lugar que as proteja da chuva.”