“Todos os tópicos teológicos contêm armadilhas para os desavisados, pois a verdade de Deus nunca é exatamente o que o homem esperaria”. Tal frase, dita por J. I Packer, um popular escritor inglês, aponta para um sério problema o qual desafiará aqueles em busca de um conhecimento maior sobre Deus, a bíblia e outras questões cristãs. Pois como pode ser compreendido pela afirmação do teólogo, a razão do homem sempre estará rebaixada quando comparada aos mistérios do universo e da criação. Nesse contexto, surge o entendimento da Inteligência Humilhada, uma forma de pensamento a qual não determina antirracionalismos ou mesmo endeusamentos das ponderações. Muito pelo contrário, “O Cristão não pressupõe a morte da razão. O que ele pressupõe é a consciência de que a razão é insuficiente” (pgn. 63). Mas se a razão não é o bastante, o que será?
Aqui surge o livro de Jonas Madureira, teólogo e doutor em filosofia o qual propõem-se a explicar o conceito e os paramentos de tal ideia. Publicado em 2017, o livro tem cerca de 320 páginas e é dividido em 5 capítulos. Como dito pelo autor já no início da obra, a inteligência humilhada, embora tenha sido formulada e recebido esse nome por ele, não é algo estritamente de sua autoria nem de alguém especifico, mas muito mais algo desenvolvido através dos séculos pelos feridos pela palavra do Senhor. Dessa forma, o escritor deixa bem claro sua inspiração em pensadores como Agostinho de Hipona, João Calvino e Herman Dooyeweerd.
Dito isso, somos expostos à uma bela abrangência a qual elucida e expande nossa mente para compreender os âmbitos os quais o tema se encaixa, como, por exemplo, a importância da revelação por Deus e quais as consequências problemáticas de um pensamento cristão o qual ou supervaloriza a razão, ou a ignora completamente. Caminhamos por debates sobre a bondade e poder do criador, relativos ao verdadeiro autoconhecimento e até mesmo a respeito dos contratempos de uma nova teologia liberal. Tal variedade traz uma boa sensação de completude literária ao livro, não sentimos algo como "faltou isso ou aquilo".
Apesar do tema ser de certa forma complexo, Jonas não se deixa cair em exageros e esse ponto dá à escrita um atributo incrível. O autor a todo momento se preocupa em explanar da melhor forma possível, sem recair em palavras difíceis e sequer permite passar nomes e ideias sem antes dar a devida explicação. Por conta disso, o livro traz uma leitura prazerosa a qual instiga um bom raciocínio e não o sobrepesa em nenhum momento o que traz um balanceamento harmonioso. Outro grande ponto positivo da obra é sua quantidade de citações e a intertextualidade de Madureira. Conhecemos diversos outros bons autores, histórias e ideais de forma que ao final do livro ainda reste várias outras novas obras as quais podemos ficar curiosos para ler e entender sobre.
Portanto, é percebido desde o início a intenção do autor, o livro sempre fora um convite, não à cegueira espiritual ou à arrogância racional, mas para a total entrega da inteligência às ordenanças de nosso Senhor e uma maior sede para conhecer aquele a quem servimos e dessa forma, termos a verdadeira consciência de quem somos. Inteligência Humilhada é uma obra instigante, harmoniosa e importante em um tempo tão dualista o qual abandona os princípios bíblicos seja para o mundo, seja pra si.
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