Sabendo do histórico de Thomas Pynchon (de fazer livros de um entendimento quase impossível), somado ao fato de aqui termos uma narrativa detetivesca, acompanhando Maxine, uma investigadora de fraudes fiscais, tomei uma decisão inédita em toda a minha vida como leitor: com um papel e um lápis, ia anotando cada pequeno passo de Maxine, cada conversa, com quem se conversou, os assuntos e qualquer informação digna de nota.
Acontece que as coisas não são tão fáceis assim; é difícil explicar em palavras os motivos que levam os livros de Pynchon serem (propositadamente!) difíceis, - um pouco por marca de autoria, sem dúvida, mas também creio ser pelo desejo de provocar, instigar o leitor. Sua literatura prende quem a lê não pelas verossimilhanças, como na maioria dos livros banais, mas pelas incongruências e, para os mais ávidos fãs de boa literatura, por conseguir, com palavras triviais e sem muitas peripécias narrativas, confundir o leitor.
Tipicamente, como em todos os romances de Pynchon, os personagens estão interligados, criando uma rede de mentiras e verdades, com informações dissonantes e relações misteriosas; e o fato deste livro ser o primeiro onde o autor explora o mundo virtual, a sociedade contemporânea, deu um charme especial a obra: sentimos na pele a sensação de paranoia (talvez o assunto mais recorrente em suas obras), de estarmos sempre sendo vigiados. Inclusive, creio que o Onze de Setembro (o livro começa antes do atentado e termina posteriormente a ele) é um simples pretexto para o desejo do autor em montar uma história situada na nova ordem mundial, explorando tudo que há de pior (e melhor) neste novo século.
Ademais, o fato do contexto ter se modificado não implica que seus caricatos elementos narrativos nao foram usados; como supracitado, a paranoia é frequentemente aludida, muito bem usada, inclusive, uma vez que esta é a sua história mais perto da era da pós-verdade em que vivemos. Há conspirações internacionais, teorias-conspiratórias, intrigas entre bilionários, assassinatos, um milhão de personagens, ex-agentes de extermínio terceiro-mundista e outras peripécias que, se caíssem em outras mãos, não teriam o mesmo resultado (minhas anotações me ajudavam nesses momentos de completo caos narrativo).
Pynchon, se me permitem usar uma expressão de Murakami, é um romancista por vocação; não recomendável àqueles que não gostam de serem provocados. Minha dica para lê-lo? Não se entristeça/desista caso não esteja o entendendo :)