O MULATO, de ALUÍSIO AZEVEDO – 1881
Definitivamente este livro de Aluísio Azevedo não toca apenas no preconceito existente na época, que era tido como costume de uma geração, contra aqueles que eram fruto da miscigenação. O livro também mostra os costumes sociais de maneira abrangente, como o modo de vida, as formas de se divertir nas festas, a vida cristã, a vida no campo e na cidade e os debates políticos presentes entre o povo, como as várias discussões dos personagens contra e a favor da escravidão. Na questão religiosa, vejo a importância de destacar o mal que pode fazer alguém que possui o dever de fazer o bem cristão, e tem poder e reconhecimento do povo, mas é mau. Assim como os seguidores da Teologia da Libertação, o cônego Diogo usa sua posição para atingir os próprios fins, fazendo o mau necessário para isso e sendo o causador da destruição da vida daqueles que estiveram eu seu caminho. Um clérigo que não esteja realmente comprometido com Deus, mesmo que com seus erros naturalmente humanos, acaba por desvirtuar todos os leigos que desconheçam a palavra. Cônego Diogo não foi um home que cometeu seus erros inerentes à sua imperfeição enquanto seguia em busca da santidade. Ele foi um homem demoníaco que fez uso da igreja para devorar as almas dos cordeiros de Deus. Na questão racial, o livro nos mostra poder dilacerante do racismo, que causa um predeterminismo social, incapacitando um homem honrado e intelectual a se inserir apenas por sua origem mestiça, nascido escravo. Menos mal que o passar do tempo tenha diluído, apesar de não extinto —e talvez jamais extinga — esse racismo. O Suíço Stefan Zweig, que viveu longos anos no Brasil, elogia a forma como nosso país conseguiu combater as diferenças raciais se comparado às outras nações do mundo. Brasil, um país do futuro, de Stefan Zweig – Ed. L&M, 2013, pág. 17-18: “[...] como conseguir em nosso mundo uma convivência pacífica entre as pessoas apesar das diversidades de raças, classes, cores, religiões e convicções? Esse é o problema com que toda comunidade, todo país sempre volta a se defrontar. A nenhum outro país senão no Brasil ele se impôs em uma constelação tão complicada, e nenhum outro país — e é como grato testemunho disto que escrevo este livro — conseguiu resolvê-lo de maneira tão feliz e exemplar como o Brasil. Uma maneira que, na minha opinião, não requer apenas atenção, mas também a admiração do mundo.” A miscigenação é a uma das maiores heranças que o Brasil pode deixar para o mundo no combate ao racismo. É ela que tem o poder de diluir os ideais de raças puras e diferenças de sangue. O caminho a se trilhar é longo, e talvez eterno, mas o que era visto por alguns homens de uma geração forjada no evolucionismo, mostra-se ser a maior esperança de uma sociedade mais harmoniosa. Sejamos todos mulatos!

