Para aqueles que o admiraram durante a sua vida pelos ensinamentos sobre a paz e pelo compromisso que assumiu de abrir a sua Igreja milenar ao mundo moderno - para deixar entrar o ar e a luz e permitir que a mensagem profunda do Evangelho resplandecesse -, ele era uma personalidade única que irradiava uma aura de humildade, humor e santidade. Resenha do livro : O Bom Papa. Criação de um santo e recriação da Igreja - A história de João XXIII e do Concílio Vaticano II, autor: Greg Tobin, Luzerna/Distribuidora Loyola, 2014, 254 páginas. Esta biografia que acaba de ser publicada pela Principia Editora, de Cascais, em Portugal, na primorosa edição especial para o Brasil, fala do Santo Papa João 23. O texto original é de Gregory Tobin, publicado em inglês pela Harper One, em 2012. Esta tradução é de abril de 2014 e chega a tempo de celebrarmos a canonização do papa João 23 neste 27 de abril, no Vaticano por mandato expresso do papa Francisco, junto à canonização do Santo padre João Paulo II. O livro do conhecido Papa Bom, segue a linha biográfica contando-nos casos e acontecimentos de uma maneira singela e cativante, em 254 páginas. O livro se divide em três partes: 1ª. Sacerdote e protetor, subdividida em seis capítulos que percorrem os anos 1881, quando do nascimento e batismo de Angelo Giuseppe Roncalli até o ano 1958, quando é nomeado bispo de Roma; 2ª. A alma de um papa, com outros cinco capítulos relatando desde sua eleição para pontífice da Igreja Católica de outubro de 1958 ao mês de outubro de 1962 quando se inaugura a primeira sessão do Concílio Vaticano II, por ele convocado em janeiro de 1959; 3ª. Pai do Concílio, com os últimos quatro capítulos, totalizando quinze, e que percorrem o tempo entre novembro e dezembro de 1962 e sua morte em 3 de junho de 1963, as 19h45m. Lê-se com gosto o texto que nos prende com emoção e sintonia peculiares, apesar de muitas expressões ainda estarem no modo português de falar. Nada que assuste ou incomode. Ao contrário, dão sabor à leitura, pois todos bem sabemos o que é "desadequado" (p.35), ou podemos bem ouvir alegremente um "estava a ganhar" (p. 42). Há ainda um prefácio motivador da empreitada, algumas notas ao final do livro para situar cada uma das três partes do livro, e as fontes e bibliografia consultadas, e útil índice remissivo para futuros estudos e curiosidades dos pesquisadores e católicos em geral. Aqui senti a falta de nomes como os do Cardeal Joseph Cardjin, fundador da JOC, de dom Manuel Larrain, bispo chileno e do nosso Dom Helder Pessoa Camara, figuras nevrálgicas no evento conciliar. Mas, os principais nomes e instituições que marcaram a vida do Papa Bom, estão bem presentes e indicados. O livro conclui (p. 230) ofertando uma bela imagem do futuro santo João 23: "A chave para compreender João XXIII e o seu extraordinário concílio é, em última análise, a unidade da visão para a Igreja e o seu povo expressa nos documentos que resultaram daquele encontro histórico. O que levou décadas a emergir das deliberações do Concílio de Trento - amplas reformas da liturgia, da educação e da disciplina - levou apenas quatro anos a surgir pela mão do Vaticano II, que foi certamente o maior e o mais diversificado concílio da história da Igreja". Com esta leitura poderemos conhecer inúmeras facetas do profeta e pastor da Igreja Universal, amante da paz, do ecumenismo e do diálogo, que ao assumir a cátedra de Pedro se mostrou muito próximo dos pobres, das religiões, dos povos e rejuvenesceu a Igreja toda com uma simplicidade e vigor evangélicos cativantes e santos. Veremos o autor Greg Tobin recolher belas pérolas de seus diários pessoais, de comentaristas ou diplomatas que o conheceram em suas andanças pelo planeta e que apresentaram Roncalli com muitos nomes e adjetivos: "camponês atarracado" (p. 39); "soldado pouco comum" (p. 49); "Diado - bom pai na língua dos búlgaros (p. 65); ou "o redondo" (p.65); alguém vigiado pelo próprio Santo Ofício (p. 61); alguém que sentia calafrios por estar dentro das paredes do Vaticano (p. 58), mas, sobretudo o homem afável, e com pés firmes na corrente rápida da história. Folheamos o livro como se estivéssemos vendo um álbum de fotos e de memorias de nosso irmão, tio ou avô contando fatos, datas, medos, alegrias, esperanças que foram de fato vividas e sofridas. Sabemos de seu batismo em 25 de novembro de 1881 e parece que nos teletransportamos temporalmente para a pequena Sotto il Monte, entre bergamascos. Celebramos com ele sua primeira missa ainda com 23 anos de idade. Sentimos os calafrios de sua nomeação para arcebispo e representante do papa, no dia de São José, em 19 de março de 1925, e vivemos imageticamente sua nomeação para ser bispo de Roma, depois de onze escrutínios no belo dia 28 de outubro de 1958, diante do espanto geral da Igreja e das forças políticas do planeta, marcado pelo pós-guerra e cindido ao meio pela guerra fria. Afinal, o patriarca de Veneza tinha já 77 anos de idade e nem era papabile. Iremos acompanhar seu sonho ecumênico e a vontade férrea e determinada de realizar o "aggiornamento" que não eclodia passados mais de 300 anos de inanição diante da sociedade e da missão evangelizadora. O livro mostra na página 229 de forma precisa o que foi a missão e vocação do papa Bom: "Sem pestanejar, e com um sorriso nos lábios, procurou reformar e recuperar a sua Igreja muito amada. Em oposição à cultura eclesiástica que o tinha formado e criado, João XXIII surgiu como um líder com uma ordem de trabalhos surpreendente que desafiava essa cultura e a instituição à qual ele tinha dado a sua vida". Verdadeiramente Roncalli foi um homem justo. E este livro vale ser lido linha a linha. Bom demais. + Prof. doutor Fernando Altemeyer Junior, teólogo, comunicador, professor da PUC-SP.
O Bom Papa. Criação de Um Santo e Recriação da Igreja
Greg Tobin
Loyola
2014
255 páginas
8h 30m
ISBN-13: 9789898516763
Português
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