Crônica é um gênero que eu não lia há décadas. Já tive minha fase, cheguei até a fazer um curso para aprender a escrever crônicas (tenho uma, elogiada pelo professor e engavetada com carinho junto da minha pretensão).
Quando vi esse livro no kindle unlimited pensei: Mato dois coelhos com uma cajadada, me reencontro com as crônicas e conheço a escrita de Marco Severo, que ando querendo conhecer faz tempo. Sei que o forte de Severo são seus contos, mas crônicas que falam de livros, escritores e leitores! Isso é irresistível! Por que não começar por este?
Bom, já vou dizendo que não me arrependi, o tema é de interesse, a escrita é adorável e realmente vale a pena conhecer Severo.
Dito isso, gostei mais de umas crônicas e menos de outras (o que é natural). O autor fala com propriedade do mundo editorial, faz fofocas sobre autores célebres, conta causos, desenvolve e explica pontos de vista tanto da perspectiva do leitor, como do escritor. Eu arriscaria dizer que algumas crônicas são quase ensaios, por serem argumentos sólidos e bem estruturados, um pouco mais atemporais.
Mas o autor usa e abusa da sinceridade, o que torna os textos bastante pessoais. Severo é mais melancólico que irônico, e, na maioria das vezes, mais sensível que analítico. Durante a leitura, senti que ele conversava comigo.
E são muitos os assuntos abordados:
Quantos livros somos capazes de ler numa existência?
Devemos reler livros que foram marcantes em momentos específicos da nossa vida?
Podemos abandonar uma leitura?
O papel do escritor hoje é ser midiático?
É possível separar autor da obra?
Vale ler best sellers?
Quem você tem medo de ler?
Ao escolher uma leitura, devemos buscar a zona de conforto ou a zona de confronto?
Uma obra literária pode mudar os rumos de nossa vida?
Podemos parar de ler um escritor que um dia amamos mas que agora não nos traz mais nada?
É possível redescobrir uma leitura já lida e amada?
O que significa trabalhar no mercado editorial independente?
E não pense que as respostas a essas questões são simples e óbvias. Severo pode (e vai) lhe surpreender.
Grifei inúmeras frases, lindas e impactantes. Pretendo mantê-las por perto, para usá-las de vez em quando. Termino com uma sobre o objeto livro, que reflete bastante a nossa perspectiva enquanto leitores, e sei que vocês se identificarão:
"Como não reverenciar um objeto que vai muito além dele próprio?"