Yummah

    Sarah A. Al Shafei

    New Generation Publishing
    2005
    192 páginas
    6h 24m
    ISBN-13: 9781844013685

    Khadeeja is a child who is forced into womanhood early. She is compelled to marry a man much older than she through arranged marriage and lives a world of hardships from then on. Her mother dies soon after her wedding, leaving her with a husband she hardly knows and two brothers she knows nothing of. Khadeeja learns to love her husband and win his love in return, but just as she thought her life was a beautiful love story her precious son dies from a scorpion bite. Grief and sadness become her new best friends. Her husband, whom she can't live without, abandons her without warning and she is left to raise and support eight children while pregnant with the ninth. Her brother, who finds out about his sister's misfortune and the truth behind his brother-in-law's actions, returns to Bahrain to take care of Khadeeja, but when he finds out about his cheating wife falls ill with sadness and grief and soon dies. Khadeeja forces herself to survive with the faith and patience she has inherited from her late mother and faces life's war with strength, courage and pride. She grows with her children; she grows with time; she grows with history - her country's history. She succeeds in raising wonderful children who go through their own share of happiness and misfortune. Her husband, who married another woman for money, returns filled with regret and in a wheelchair. Though Khadeeja was hurt and angry she opens her arms for him with love and forgiveness, but watching him die in her arms takes her back in time as she goes through the grief all over again. As a great-grandmother Khadeeja sits back to watch her triumph, her success and dies with dignity, leaving behind a legend to be remembered by many.

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    Dulcinea Silva03/05/2026Resenhou um livro

    Entre o silêncio e o mar: Em Yammah, Sarah A. Al Shafei transforma a vida ordinária de uma mulher bareinita em um retrato íntimo de um país

    O Bahrein, 47º país sorteado no desafio Mundafora, nessa travessia de 198 livros, costuma existir para muita gente quase como uma palavra solta no mapa: sabemos que está ali, algures no Golfo Pérsico, mas poucos conseguiriam apontá-lo sem hesitação. É um arquipélago diminuto, cercado por gigantes geográficos e políticos, e talvez justamente por isso carregue essa curiosa condição de ser ao mesmo tempo estratégico e invisível. País pequeno também costuma significar outro problema para quem lê o mundo pela literatura: encontrar livros acessíveis. Nem sempre a estante acompanha o atlas. Foi assim que a escolha caiu sobre Yammah, de Sarah A. Al Shafei, encontrado em inglês no Archive.org, quase como quem descobre uma porta lateral para entrar num lugar pouco visitado. O romance acompanha a vida de uma mulher bareinita desde muito jovem, Khadeeja, quando o casamento surge não como escolha romântica, mas como destino social cuidadosamente desenhado antes mesmo de ela compreender o próprio desejo. Acompanhamos sua trajetória desde os anos 1950 e 1960, atravessando décadas de transformações familiares, políticas e culturais, até sua morte. Entre maternidade, abandono, religiosidade, silêncios conjugais e o peso constante da tradição, o livro constrói menos uma trama de grandes acontecimentos e mais o retrato de uma existência feminina moldada pela repetição, pela resistência e pela tentativa de sobreviver emocionalmente dentro de uma estrutura que raramente lhe oferece liberdade plena. Antes de falar do livro em si, é preciso voltar ao país, porque no Bahrein o contexto não é apenas cenário: ele é quase um personagem. Situado no Golfo Pérsico, entre a Arábia Saudita e o Catar, o Bahrein é um arquipélago composto por dezenas de ilhas, embora sua imagem costume se reduzir à ilha principal e à capital, Manama. Seu nome significa “dois mares”, e há certa poesia nisso, porque o país parece sempre existir entre dois mundos: entre tradição e modernidade, entre conservadorismo e cosmopolitismo, entre o deserto e o petróleo, entre o mar e a memória. Antes da descoberta do petróleo, o Bahrein era profundamente ligado à pesca e, sobretudo, ao mergulho para a extração de pérolas. Durante séculos, essa foi uma das bases econômicas da região, e a vida estava organizada em torno desse trabalho duro, sazonal e arriscado. O petróleo transformou radicalmente essa estrutura no século XX. O país foi um dos primeiros do Golfo a descobrir reservas petrolíferas, e isso acelerou processos de urbanização, reorganização social e novas relações com o Ocidente. Ainda assim, como costuma acontecer, o dinheiro muda fachadas mais rápido do que muda mentalidades. A população bareinita é majoritariamente árabe, e o árabe é a língua oficial, embora o inglês circule com bastante força, especialmente nos espaços institucionais e comerciais. Há também uma diversidade religiosa e étnica que nem sempre aparece nas imagens simplificadas do Golfo. Embora governado por uma monarquia sunita, grande parte da população é xiita, e essa tensão histórica ajuda a entender muitos dos conflitos políticos internos do país. O Bahrein não é apenas luxo de cartão-postal e Fórmula 1: ele também é disputa de poder, repressão política e um delicado equilíbrio social. A família ocupa um lugar central nessa estrutura, como instituição moral, econômica e quase sagrada. A honra familiar, especialmente associada ao comportamento feminino, ainda carrega enorme peso simbólico. O casamento, por muito tempo, foi menos uma união entre indivíduos e mais uma engrenagem social: alianças, continuidade, reputação. Em muitos contextos, o amor vinha depois, quando vinha. E essa lógica atravessa diretamente Yammah. Quando a protagonista entra no casamento ainda jovem, ela não está iniciando uma história de paixão, mas assumindo uma função. O corpo feminino passa a ser território doméstico e religioso: ser boa esposa, boa mãe, boa guardiã da moral familiar. O livro trabalha isso sem grandes discursos inflamados; ele mostra pela repetição dos dias, pelos silêncios e pela forma como certas escolhas sequer chegam a ser nomeadas como escolhas. Historicamente, o romance também atravessa momentos decisivos. O Bahrein conquistou sua independência formal do Reino Unido em 1971, encerrando um longo período de influência colonial britânica. Porém, independência política não significa emancipação imediata das estruturas sociais. O país passou a reorganizar sua identidade nacional ao mesmo tempo em que mantinha bases profundamente conservadoras na vida privada. A modernização veio acompanhada de contradições: mais riqueza, mais urbanização, mais contato internacional, mas também permanência de hierarquias antigas. Mais adiante, a Guerra do Golfo, nos anos 1990, também atravessa essa vida doméstica. Mesmo quando a guerra não explode dentro da casa, ela entra pelas frestas: medo, instabilidade, mudanças econômicas, ansiedade coletiva. A literatura bareinita, por sua vez, não circula com facilidade fora do mundo árabe, o que torna leituras como essa ainda mais valiosas. Há uma forte tradição de poesia e narrativa que dialoga com temas como memória, religião, deslocamento e transformação social. Escritoras mulheres têm desempenhado um papel importante ao deslocar o foco das grandes narrativas nacionais para o interior das casas, onde muitas revoluções acontecem em voz baixa. Sarah A. Al Shafei se insere justamente nesse espaço: menos interessada em épicos nacionais e mais preocupada com a arqueologia emocional da vida feminina. Yammah não é um livro brilhante no sentido clássico da palavra. Não há uma construção narrativa deslumbrante, nem uma arquitetura literária que faz o leitor parar e pensar “que genialidade”. Seu valor está em outro lugar. Ele funciona como testemunho, como insistência, como tentativa de registrar uma vida que facilmente seria apagada pelo hábito de considerar essas existências ordinárias como pequenas demais para a literatura. A protagonista vive sob a extrema religiosidade e sob a força quase inquestionável da família como bastião moral. A religião aparece não apenas como fé, mas como estrutura de comportamento, disciplina e pertencimento. O casamento, inicialmente apresentado como um destino inevitável, revela suas rachaduras. O marido não ocupa o lugar idealizado de proteção e parceria; há abandono, ausência e frustração. E aqui o livro faz algo interessante: ele desloca o amor romântico para segundo plano e mostra que o verdadeiro suporte afetivo muitas vezes está em outros vínculos familiares, especialmente entre mulheres. O amor, quando existe, não é necessariamente conjugal. Ele aparece na solidariedade, no cuidado silencioso, na sobrevivência compartilhada. Ler Yammah também foi, em muitos momentos, um exercício de paciência com a própria protagonista. Khadeeja carrega uma espécie de ingenuidade afetiva que por vezes irrita, quase como se o leitor quisesse sacudi-la e exigir dela uma revolta mais explícita, uma recusa mais feroz, uma ruptura mais clara. Seu amor, sua insistência em sustentar vínculos frágeis e sua fidelidade quase dolorosa ao que entende como dever podem provocar esse incômodo. Contudo, é justamente aí que o livro encontra sua verdade: não estamos diante de uma heroína construída para satisfazer nosso desejo contemporâneo de rebeldia, mas de uma mulher formada por seu tempo, por sua cultura e por aquilo que aprendeu a chamar de amor. Essa aparente ingenuidade não é fraqueza pura; é também a estrutura que a mantém de pé e que sustenta sua família. Às vezes, sobreviver não se parece com liberdade, mas com permanência, e talvez essa seja uma das partes mais desconfortavelmente honestas do romance. A questão feminina é talvez o eixo mais forte do romance. Não porque o livro proponha uma ruptura radical ou uma revolução aberta, mas justamente porque mostra a lentidão das mudanças. A condição da mulher não se transforma de maneira limpa ou heroica; ela se move em pequenas concessões, pequenos enfrentamentos, pequenas margens conquistadas. A liberdade não chega como manifesto; ela avança lentamente, em pequenas concessões de uma geração para outra, quase sempre ainda amarrada à estrutura do casamento. Ler esse romance foi perceber que, às vezes, compreender um país passa menos por seus palácios e mais por suas cozinhas, menos por suas datas oficiais e mais pelos quartos onde mulheres aprenderam a sobreviver. O Bahrein de Yammah não é apenas o país do petróleo, da independência ou da geopolítica do Golfo; é também o país das mães, das filhas, das esposas e dos silêncios herdados. E talvez toda nação revele sua verdade menos nos discursos públicos e mais naquilo que suas mulheres precisaram calar. Yammah de Sarah A. Al Shafei. Twickenham: Athena Press, 2005. 196p. Leitura de Maio 2026.

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