Let's talk about love é um YA contemporâneo da Claire Kann que fala sobre amor e assexualidade. Foi uma das minhas escolhas para a Maratona Literária de Inverno 2020 e hoje a resenha é pra falar um pouco mais sobre essa lindeza de história.
Na trama, acompanhamos Alice. Ela é uma universitária bastante indecisa a respeito do que fazer com sua vida acadêmica, com pouco tempo para declarar sua escolha de carreira - totalmente pressionada pelos pais, que esperam muito dela. Não apenas isso, mas Alice está com problemas na vida amorosa também: sua namorada terminou o relacionamento delas pura e simplesmente porque Alice não quer sentia desejo físico por ela.
Porque Alice é assexual. E apesar de amar isso a respeito de si mesma, ela se sente pressionada pelo mundo externo e expectativas e o término só a perturba ainda mais a respeito da própria orientação; isso e o novo contratado da livraria onde ela trabalha, que começa a mexer com seu corpo e mente de jeitos que ela nunca tinha experimentado antes. Isso significa que ela não é mais assexual? Ou que existem exceções e está tudo bem falar sobre isso?
"Por que não se apoiar em ficção, fantasia, para ajudar a se sustentar até entender o que é real e o que não é? É melhor do que estar sozinha o tempo todo."
Sua jornada de descobrimento e entendimento a respeito de quem é, quem sempre foi e quem continuará sendo é extremamente sensível e bem trabalhada. A autora apresenta uma protagonista divertida, cabeça dura e emocional. Alice é totalmente movida pelos sentimentos; romântica incurável, apaixonada por abraços e carinhos, o único detalhe a respeito de si mesma que ainda não tem coragem de expor ao mundo é que é assexual. E tá tudo bem sobre isso.
Não ter saído do armário para o resto das pessoas não a torna menos membro da comunidade, e certamente não tira o peso das suas dúvidas e questionamentos. E durante toda a história, tudo que Alice quer é ficar bem consigo mesma.
Eu amei o modo doce e natural com que a trama tratou sua orientação. Não só a respeito da assexualidade, mas do fato de Alice ser biromântica - o que significa que ela gosta dos dois gêneros, mas não se atrai sexualmente por eles. O livro não cai em esteriótipos bi e ainda quebra ideias preconceituosas a respeito de assexuais; me ver ali nos pensamentos da Alice foi muito importante e poderoso. Ela era eu em tudo que concernia suas dúvidas e aceitações e esse livro é muito impactante por isso.
"Meu problema está com o resto das pessoas. Eu não tenho vergonha ou incerteza ou qualquer coisa do tipo. Eu sou assexual. É maneiro. Eu só não quero ser um cartaz de exibição pra ninguém. Não fui feita para estar nas linhas de frente."
Isso sem mencionar os momentos em que abre espaço para falar sobre racismo e sobre a solidão da mulher negra. Afinal de contas, Alice é negra e queer, o que significa que sofre muito mais quando aborda suas emoções e vivências para o mundo.
É também uma comédia romântica, tenha isso em mente, então enquanto Alice sofre suas sofrências dramáticas e engraçadinhas, ela também está se apaixonando lentamente por Takumi, seu colega de trabalho - e sofrendo mais ainda para entender que tipo de sentimento exatamente é esse. É físico, porque Takumi é lindo e maravilhoso? É romântico, porque ele é um amor de pessoa? É nenhum dos dois?
O livro questiona e dá respostas e mais questões e mostra a complexidade que é a relação entre as pessoas; seja essa relação romântica, sexual ou simplesmente tudo.
Além da parte das questões e do interesse amoroso, Alice também passa por crises em relação às suas duas amizades mais duradouras (e únicas) que são Ryan e Feenie. Além de seus melhores amigos e colegas de apartamento, eles namoram, o que coloca Alice em situações que a fazem questionar o quanto essa convivência faz bem para ela.
Eu queria ter visto um pouco mais de pulso firme dela sobre essa questão, principalmente com a Feenie. Para uma melhor amiga ela foi extremamente abusiva e babaca em MUITOS momentos e a Alice aceitou isso de boas demais pro meu gosto. Entendo seus trejeitos e personalidade pacíficos, mas a narrativa coloca um confronto ali que acaba cedo demais. E que não tira da Alice a situação submissa à toxidade da amiga.
"Está tudo bem. Todo mundo passa por momentos onde são menos do que seu melhor."
Com exceção a isso, é um livro fofo, rápido e engraçado. Tem tudo que uma romcom boa tem que ter e ainda trás protagonismo de dois POCs, além de dar voz a uma personagem fofa e com um coração de ouro e uma das melhores representações ace que eu já li na vida.