24/7 - Capitalismo Tardio e Os Fins do Sono (Coleção Exit) -

    Jhonatan Crary

    COSACNAIFY
    2015
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-13: 9788540508965
    Português Brasileiro

    24/7 é o primeiro livro da Coleção Exit. O livro faz um panorama vertiginoso de um mundo cuja lógica não se prende mais a limites de tempo e espaço, funcionando ininterruptamente sob uma lógica para a qual o próprio ser humano é um empecilho. Para o autor, nossa necessidade de repouso e sono é a última fronteira ainda não ultrapassada pela lógica da mercadoria. O capitalismo, no entanto, já se movimenta no sentido de colonizar mais essa esfera da vida e hoje financia extensamente pesquisas científicas que buscam a fórmula para crias o “homem sem sono”, capaz de trabalhar e consumir sob a lógica 24/7. Ainda assim, o livro recupera toda uma tradição da cultura ocidental que sempre viu no sono e no sonho possibilidades utópicas. 24/7 é um dos diagnósticos mais agudos do mundo contemporâneo.

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    Victor Mendonça 03/08/2025Resenhou um livro
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    O capitalismo tardio é agora

    Neste pequeno ensaio, Jonathan Crary constrói um panorama das transformações do capitalismo no espectro recente infundido pelo ritmo acelerado do consumo e homogeneização das relações sociais. O cerne da crítica habita no fato de que o sono é, por enquanto, o único resquício fisiológico que impede o indivíduo de imergir em uma rotina alienante de futilidades capitalistas. Para sustentar esse ponto, o autor analisa o aspecto tardio do capitalismo em suas fundações de consumo massificado e constante, de tal modo que são neutralizadas as noções sociais entre trabalho-descanso, público-privado, dia-noite, parado-em trânsito etc, assim, abrindo espaço para a formação de uma sociedade de caráter homogêneo. Desse modo, é a noção de que o consumo e as inserções publicitárias estão presentes em todos os momentos do cotidiano e, impulsionado pelo fenômeno de globalização fruto da 3º revolução industrial, instaura-se um detrimento das particularidades culturais a nível planetário que minam festividades, rituais e o senso de coletivo como um todo. Entre as temáticas do ensaio, o autor se usa das indústrias de tecnologia e comunicação como as principais interferentes para a escalada vertiginosa do capitalismo tardio. Em seu argumento, os avanços tecnológicos/eletrônicos dos séculos XX e XXI atendem o anseio da novidade e alimentam uma falsa crença otimista no progresso. Sendo a indústria de tecnologia uma das que possui as mercadorias com maior valor agregado, o lançamento constante de novos dispositivos e, consequentemente, a obsolescência de modelos passados nutrem uma esteira de produção, consumo e geração de lixo desenfreado. Além disso, em um movimento furtivo da natureza capitalista, bens tecnológicos passaram a ser vistos como necessidades vitais, estando presentes nas relações de trabalho, momentos de lazer e autoexpressão da vida pessoal de modo a descaracterizar o convívio social, assim como reforça o enorme desperdício de tempo que temos com trocas eletrônicas diariamente. A abstração das produções culturais e o distanciamento entre os indivíduos ocasionado pela imersão em telas luminosas produzem um isolamento social deprimente que, por mais maquiavélico que possa parecer, é uma das etapas do capitalismo tardio, uma vez que o isolamento social também se traduz para um sentimento de angústia que acaba sendo visado como oportunidade para o aumento do consumo. Em complementariedade aos avanços tecnológicos, a consolidação da indústria cultural e a formação dos meios de comunicação de massas colaboram para a ideia defendida pelo autor de que os indivíduos desenvolveram uma acentuada passividade consumista. Tendo o seu início pelo rádio em meados do século XX, começou a se observar um fenômeno em que o espaço privado passou a ser contaminado pelo espaço público, de modo que as pessoas unilateralmente eram impactadas por programas de áudio residindo em qualquer lugar que fosse capaz de captar a frequência estática. A partir do rádio, foi possível notar com maior clareza o potencial comercial e alienante que os meios de comunicação possuem, de modo que indivíduos ficavam imóveis próximo aos aparelhos. Com a chegada das televisões, computadores e, mais recentemente, celulares, apenas se provocou uma intensificação do acesso e consumo de informação, progredindo para uma etapa em que todo produto midiático pode ser acessado instantaneamente, dessa forma, corroborando para que desapareçam os momentos de não possibilidade de consumo. Contudo, tal qual o dilema dos avanços tecnológicos, o consumo desenfreado provoca o isolamento social e, nesse caso, o desgaste sensorial da visão e audição. Porém, ironicamente, mesmo quando percebido esses sintomas, indivíduos seguem buscando mais conteúdos midiáticos scrollando feeds infinitos na esperança de preencher o vazio ocasionado pela própria plataforma. Em síntese, a rotina contemporânea abestada, acelerada e solitária é o que resulta no que o autor chama de 24/7. Um mundo que é regido pelo “não-tempo”, já que tudo pode ser feito e alcançado de maneira imediata e simultânea, de convivência em “não-lugares”, homogeneizado para facilitar fluxos industriais e exportado por meio da globalização e, por fim, individualizado. A única peça faltante para completar o ciclo 24/7 é o sono, a única ocasião de nossa rotina em que não consumimos, não trabalhamos e nem acumulamos inutilidades. Por isso a urgência do autor para que ele seja protegido e visto como uma resistência à dessensibilização capitalista. Como ele levanta nos últimos parágrafos do livro, dado a sociedade profundamente alienada, quem sabe não será por meio do sonho do sono que sejam encontrados meios para o fim do capitalismo.

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