Desde que li O Dia em que a Poesia Derrotou um Ditador me apaixonei pela literatura de Skármeta. Exaltar a literatura latina é fácil, afinal, é a nossa vivência, a nossa cultura, a nossa história e dores que, se não somos nós que sentimos, sabemos que fizeram parte da vida dos nossos pais e avós. Crescer tem disso, né? Aprender sobre nossa história e o que doeu naqueles que viveram antes. Sinto que há uma forte presença do paternal na literatura de Skármeta e, uau, é cada peça que sai desse sentimento que, por mim, eu o leria eternamente.
Já abrimos essa edição de Um Pai de Cinema com uma carta emocionadíssimo de Selton Mello, que dirigiu a adaptação para os cinemas. E aí, meus amigos brasileiros, se vocês não se empolgarem com esse texto do eterno Chicó, não sei o que é que pode empolgá-los.
O livro é curto, os capítulos vão de uma a quatro páginas e Skármeta faz pouquíssimo uso da descrição física, tanto das pessoas quanto dos ambientes. Mas é justamente nessa carência de descrição física que mora o talento do autor. Através do quão intensamente sentimos os personagens e suas dores conseguimos preencher os cenários e fazer com que a história respire vida. É sensível, ora emotivo, ora cru, mas sempre corajoso ao abordar uma relação de ausência paterna de forma muito menos rancorosa do que o esperado.
A jornada de Jacques é bonita, imatura e intensa e nós somos convidados a julgá-lo sem ter tido o azar de viver sua vida. E a beleza aqui mora nos detalhes, na atenção de Jacques ao que é sensível e insensível. Jornada essa da qual só sabemos do começo, pois o final é abrupto e aberto, pedindo com perfeição para que nós continuemos a pensar o que virá a seguir.