Em vez de velhos postos de gasolina e motéis decadentes, a cena se desenrola em danceterias, Lofts e bares refinados de New York. Mas a sinceridade da voz que narra a história, a sombra onipresente do vazio e a explosão de talento e de juventude contra o rigor mortis da sociedade estabelecida são as mesmas nos dois romances. Por isso Brilho da Noite, Cidade Grande já é quase um clássico.
Brilho da Noite, Cidade Grande -
Jay McInerney
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Descobri “Brilho da noite, cidade grande, de Jay McInerney, ao ler “O Livro da Literatura”, da Editora Globo, em que consta uma pequena nota sobre ele: “Prenunciando a ficção transgressiva que viria mais tarde, o escritor norte-americano Jay McInerney põe o leitor como personagem principal de um mundo vazio em sua sátira Brilho da noite, cidade grande.” Lançado em 1984, “Brilho da noite...” é o retrato claro, brilhante e fiel de uma fatia da sociedade daquela época (e, na verdade, de toda e qualquer época): o homem de classe média, intelectual insatisfeito com o mundo em que vive e lidando com problemas familiares e amorosos, buscando uma forma de evasão mas nunca uma forma de resolvê-los. O protagonista trabalha em uma revista intelectual, mas em uma função mal reconhecida: faz parte da equipe de checadores dos fatos e das minúcias sobre os quais os jornalistas escrevem (assim, se um jornalista escreve sobre um terremoto ocorrido em um vilarejo da Ucrânia, ele deve verificar, por exemplo, se a grafia do nome do vilarejo está correto). Abandonado pela esposa (modelo internacional), torna-se alcoólatra e viciado em cocaína, buscando no hedonismo (festas e mais festas e mais festas, com o personagem construindo com suas andanças um mapa do auge e da decadência de Nova York), uma felicidade de Tântalo. É preciso salientar que a trama é escrita em segunda pessoa (ou algo do gênero), mas isso não ocasiona entraves que possam desanimar o leitor. Por exemplo: “Você chega ao escritório em torno de nove e meia. Meg já está lá. Ela parece embaraçada ao vê-lo. Você é capaz de adivinhar o que aconteceu ontem depois que Clara voltou. Nem se dá o trabalho de perguntar.” Hoje encontrado apenas em sebos, “Brilho da noite, cidade grande” vale a leitura. Com suas quase 200 páginas, McInerney constrói uma espécie de “Ulysses”, em que a Dublin do original é substituída por uma Nova York tomada pela busca incessante do prazer e de algo que faça sentido em nossa existência banal. Afinal, mais cedo ou mais tarde, todos nós nos perguntamos por que estamos neste mundo...
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