Páginas opostas é um livro sobre, dentre outras coisas, o triunfo da amizade. Há um pano de fundo de horror cósmico, onde o protagonista, um jovem pobre e introvertido, vai parar em um universo paralelo sem nome nem tempo. Trata-se da dimensão onde estão todos os seres e objetos esquecidos. À parte o perigo Lovecraftiano que ronda pelas noites, o real perigo para a pequena comunidade que Wesley encontra habitando ali é a perda da sanidade. É um pequeno núcleo de amigos cuja vivência é baseada em pequenos rituais e no apoio mútuo. As relações humanas são colocadas como uma necessidade, uma vacina contra a insanidade e o desespero. Dentre os ritos cotidianos do grupo está a leitura, através da qual é possível estreitar os laços. Mas se trata de uma meada que vai mais fundo do que isso.
Aliás, o que não faltam são ensaios sobre a natureza da leitura. Cada personagem possui sua própria tese, assim como seus próprios gostos, e parte da experiência de amadurecer é adquirir a capacidade de compreender as leituras de mundo dos outros. Nesse sentido, Páginas Opostas pode ser lido como um romance de formação do protagonista, que cresce como pessoa tendo um contato humano que antes lhe foi negado pela sua realidade de jovem pobre.
Mas a leitura também possui uma dimensão de memória. É o lembrar-se do outrora conforme escrito em uma outra realidade, por outras pessoas. Aqueles abandonados à deriva no universo paralelo acabam por perder suas próprias histórias. A leitura de livros aqui escritos serve como uma conexão com o mundo anterior. O curioso é que a escrita, aqui, como o registro de memórias, é uma operação muito mais custosa do que a leitura, dada a escassez de materiais. O resultado é o que se espera, de histórias pessoais que se perdem numa linha do tempo não muito precisa, mas que avança como dunas que enterram aquilo que não é necessário no cotidiano.
Finalmente, a leitura também é criação. Existe uma dimensão narrativa formada pela intertextualidade entre o próprio livro e suas influências, que estão dispostas claramente nos gostos dos personagens. O autor se fragmenta para dar vida a um conjunto de personagens, cada um sendo uma seção de si, e seus gostos se mostram claros no estilo narrativo, como se tudo fosse um grande mashup de seus títulos favoritos: Battle Royale, contos de Poe e Lovecraft, Seres Celestes, O Senhor dos Anéis, todas estas influências ecoam por estas páginas. O resultado é um livro que é múltiplo como cada experiência possível, mas que é tocante por ser profundamente humano.