Patricia Highsmith é definitivamente uma escritora fora do comum, com o raro talento de nos fazer enxergar o mundo pelos olhos do “vilão”. Esse é o caso do irresistível Tom Ripley, protagonista de uma série de livros de sucesso, com ótimas adaptações para o cinema e o streaming. Esse é o caso também do diferentíssimo O LIVRO DAS CRUELDADES (https://youtu.be/3r3DcfHDDp0), que li esse ano mesmo e que narra assassinatos cometidos por animais, pelo ponto de vista dos próprios animais.
Já em O DIÁRIO DE EDITH, a estranheza é levada a um outro patamar. Trata-se de uma trama sutil e muito inquietante, que só com muito boa vontade pode ser considerada uma história policial. É a narrativa de uma vida anulada, que lentamente afunda na areia movediça de uma rotina asfixiante, em meio à incompreensão e/ou indiferença.
Um livro triste, que me deixou intrigado a respeito das motivações da autora para escrevê-lo. Certamente um dos temas centrais é o da invisibilidade feminina em um cenário familiar predominantemente machista. Mas há outras camadas. Ao iniciar esta resenha, por exemplo, pensei em uma abordagem inusitada para interpretar o diário de Edith, que vai sendo preenchido com relatos cada vez mais fantasiosos e descolados da realidade à medida que a protagonista se torna mais sofrida e miserável. Considerando que o livro foi escrito em 1977, podemos imaginar que Patricia Highsmith foi profética ao descrever uma pós-realidade instagramável, que normatiza a ostentação da (falsa) felicidade em meio a uma verdadeira epidemia mundial de depressão.
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