Sobre a vida e a mística de Mestre Eckhart. Seus momentos da experiência mística sobre o homem nobre. A natureza humana e a oposição entre o exterior e interior. Os seis degraus do homem nobre ou interior O processo de divinização do homem.
Sobre a vida e a mística de Mestre Eckhart. Seus momentos da experiência mística sobre o homem nobre. A natureza humana e a oposição entre o exterior e interior. Os seis degraus do homem nobre ou interior O processo de divinização do homem.
Nesse livro Mestre Eckhart, vai “esmiuçar “ e ler nas entre linhas o significado : Lc 19,12: “Um homem nobre partiu para uma terra distante, a fim de receber um reino e retornar”. Esse homem nobre, é o homem interior que todos nós temos dentro de nossa consciência. Agora abaixo transcrevi parágrafos que achei mais importante, só para facilitar o meu entendimento, para futura pesquisa. Todo o livro é importante, muito rico em detalhes para as pessoas que buscam um autoconhecimento pautado no sonho de Deus para cada um de nós. ---------------------------------------------- 2) Deus semeou a sua imagem e semelhança: a semente divina Eckhart retoma aqui o tema clássico dos santos padres: Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. O homem, na alma, é a árvore boa ou o campo que sempre produz bons frutos, pois Deus semeou nele sua imagem e semelhança, isto é, a semente de natureza divina, que é o Filho de Deus ou a Palavra de Deus. A semente divina que está na alma do homem, encontra-se em permanente luta com o homem exterior. O tornar-se semelhante a Deus, ou seja, o desenvolvimento da imagem divina, semeada em nossa alma, é uma luta que não está ganha. Eckhart enumera uma série de citações bíblicas, para mostrar este combate acirrado, que se trava na alma humana. Em seguida, o Mestre cita autores pagãos, tais como Cícero e Sêneca que elogiam a nobreza do homem interior e a indignidade do homem exterior: “Não há alma racional sem Deus”. 26 Enfim, ele usa o argumento da botânica: cada semente se desenvolve numa árvore e produz o fruto correspondente. Assim, a semente de Deus desenvolve-se em Deus, pois “a semente de Deus está em nós” (1 Jo 3,9). Esta semente, segundo Orígenes, Deus a semeou, implantou e tornou inata na alma. A semente pode ficar encoberta, escondida, porém, jamais destruída ou apagada -------------------------------------- Os seis degraus do homem nobre ou interior 1. O modelo exterior. A pessoa, neste primeiro degrau, está ligada ao exemplo de uma pessoa boa ou um santo. Ela se parece a uma criança que precisa agarrar-se ao colo de sua mãe, para tomar leite. Ela não consegue caminhar por conta própria, por isso se apóia nas cadeiras ou paredes para poder movimentar-se. 2. Voltado para o Pai. Aqui há uma superação do momento anterior, pois a pessoa busca a doutrina, o conselho e a sabedoria do Pai. Ou seja, ela abandona os modelos exteriores volta-se para o rosto de Deus. 3. Na intimidade com Deus. A pessoa vai distanciando-se cada vez mais da mãe, isto é, torna-se cada vez mais autônoma ou adulta na fé. Isto significa que ela se une mais e mais a Deus. Para isso abandona tudo o que não corresponda ao amor de Deus, para introduzir-se na alegria, na doçura e na felicidade do Pai. 4. No amor mais firme em Deus. Nesta etapa podemos dizer que a pessoa se torna adulta, é capaz de um compromisso sério com Deus. Por isso, ela O ama com determinação, com vontade e gosto, assumindo, por isso, toda sorte de contrariedades, tais como, provação, tentação e sofrimentos. 5. Na paz interior. Neste degrau, a pessoa já adquiriu o hábito interior, portanto ela guarda a serenidade e a paz interior, em todas as situações em que se encontrar. Esta paz é fruto da união com a sabedoria divina. 6. A imagem divina ou tornar-se filho de Deus. O último degrau insere os grandes temas místicos de Eckhart em três passos. Primeiramen- 27 Cf. Origène, In Genesim, Hom. XIII, n. 4. Texto citado por Eckhart no seu próprio comentário do Gênesis, (II, n. 193). Citado a partir de Jarczyck-Labarrière. op. cit. p. 166. Comentários 47 te, a pessoa se despreende das imagens exteriores - vida transitória e temporal - para se revestir da imagem divina. Depois, a pessoa se reveste propriamente da imagem divina, na medida em que ela se torna filha de Deus. Enfim, a pessoa, uma vez despreendida de todas as imagens exteriores e deixando desenvolver em si a imagem de Deus, entra em outro nível: o nível da eternidade. Trata-se da volta do homem interior, a saber, o homem que conseguiu integrar todos os outros degraus e que reconciliou todas as oposições. Por isso a pessoa está em paz. 28 ---------------------------------------------------------- O Filho de Deus ou a fonte viva está no fundo da alma No que concerne à natureza divina da pessoa, Orígenes afirma que a semente colocada por Deus na pessoa pode encontrar-se coberta e escondida, porém jamais morta. O homem interior ou nobre possui na alma a semente de Deus, ou seja, a imagem de Deus. O Mestre usa cinco comparações para ilustrar como essa imagem se manifesta no fundo da alma: a fonte, o sol, o olho, a estátua e o tesouro. -------------------------------------------------------------------------------------- 3.3.2 - Como a pessoa se torna feliz? Mestre Eckhart responde: “A bem-aventurança consiste, primacialmente, em que a alma contemple a Deus sem véu. É nisso que ela recebe todo o seu ser e a sua vida e tira do fundo de Deus tudo o que ela é, sem nada saber de saber nem de amor nem do que quer que seja. A alma se aquieta total e exclusivamente no ser de Deus”. Trata-se de uma contemplação de Deus, onde a alma repousa totalmente e unicamente no ser de Deus. A bem-aventurança é um processo que a pessoa vai desenvolvendo na procura do Uno. c) O movimento da águia - O fim do sermão reúne o rigor do pensamento com os símbolos. O homem nobre conjunga saída e retorno, decentramento em Deus e identidade a si, conhecimento livre e conhecimento; deste conhecimento em sua dimensão ontológica é comparado a uma grande águia, da qual fala o profeta Ezequiel. Ele compara a águia com o homem nobre. ------------------------------------------------------------------------------------------ L. Boff analisa a história da águia e a galinha de James Aggrey e afirma que a águia não voa, se ela não tiver o sol dentro dela. A águia é um arquétipo dentro de nós. “Todos os místicos dizem, - São João da Cruz, Santa Teresa, Mestre Eckhart, a tradição budista e taoista - que o ser humano tem um sol interior. Os místicos nos dizem que “esse sol interior” é Deus que nos habita. Jung diz que esse sol é a imago Dei. É o Deus que está dentro de nós. Por isso tem duas funções: ele irradia e faz com que nós tenhamos irradiação na vida, que não sejamos pesados. Ele também produz calor, aconhego, serenidade, certeza. Quem produz isso dentro de si mesmo, criou esse “sol interior”. Consegue, como uma “águia”, enfrentar todos os obstáculos como desafios ao processo de individuação. Devemos criar esse “sol interior”, diz Boff, essa centralidade, sem a qual não seremos pessoas maduras. Envelhecemos infantilizados; crescemos sem sabedoria; tontos e alienados por esse mundo, carregados aqui e ali por idéias, grupos, amigos e movimentos, sem termos onde nos firmar dentro de nós mesmos”.37 A condição para ser águia, isto é, ter a capacidade de unir a altura e a profundidade, Deus e a criatura, é de igualar-se a esta forma cheia de nada que é o Um. --------------------------------------------------------------- CONCLUSÃO O Homem Nobre é o modo místico de viver, unindo a vida interior e exterior. Como viver, misticamente, em meio à agitação cotidiana? É possível manter esta relação interior-exterior no trabalho, no lazer e na convivência familiar-comunitária? A mística pode ser praticada tanto nas micro como nas macro-relações, ou seja, ela é viável na esfera privada e na esfera pública? A resposta a estes questionamentos apareceram, tacitamente, ao longo do texto de Mestre Eckhart e nos comentários dos autores. Porém, cabe dizer, explicitamente, que o ato místico está sempre situado numa comunidade de linguagem, situada num contexto sócio-religioso e econômico- político. Esta é a condição constitutiva da mística, pois ela é, segundo o místico Eckhart, “Dois, enquanto Um”, ou seja, “dois” é o contexto da “comunidade de comunicação”, onde está inserido o ato místico. Assim, a mística não pode ser confundida como uma prática solipsista que poderia conduzir a vários reducionismos: A afirmação de um sujeito isolado, que se acomoda em seu próprio mundo, desconsiderando os outros. Ou ainda, o exercício de atividades que apenas idolatram o indivíduo, tornando-o insensível à solidariedade. A mística é um ato nobre que torna homens e mulheres nobres. Não no sentido aristocrático, mas enquanto busca de identidade. A mística de Mestre Eckhart medita sobre a identidade da pessoa e da comunidade. A construção da identidade dá-se na relação com o Outro e os outros. Como a carteira de identidade identifica quem nós somos, assim a identidade mística identifica e determina o nosso ser e o nosso agir. A identidade não é algo estático e pronto. Ela é dinâmica e forma-se na história, ao longo de toda a vida. As pessoas e as comunidades entram em crise. Isso é algo constitutivo do ser humano e do seu processo de crescimento. As crises podem ser de ordem interna, tais como o desânimo, a desesperança, o sem sentido etc. Ou de ordem externa, como o não saber o que fazer, a desintegração, a dispersão, a perda de referência e a fragmentação. Por 58 O homem nobre que existem crises de identidade? Quando surge a crise de identidade da pessoa e da comunidade? Como superar a crise de identidade? Essas questões são meditadas a longo do Homem Nobre, encontrando na nobreza do ato místico situado na história, a força de uma nova identidade com sensibilidade solidária para viver a esperança em meio a sociedades complexas, repensando horizontes.

