Simplesmente encantado pela escrita de Gastão Cruls. Com uma linguagem por vezes diacrônica, o autor nos leva rio abaixo ao coração da Amazônia, com um fascínio por detalhes e observações. Apesar da simplicidade em razão do gênero, a narrativa ainda ganhe ares de aventura homérica quando o autor, após quatro meses, retorna ao ponto de partida (a Óbidos do subtítulo) em uma “canoinha” na qual ele atravessa lugares inavegáveis.
“Tudo isso é verdade. A arvore dá mesmo hôa estopa e tem as flores coloridas daquella maneira. Todavia, por causa dessas mesmas flores que eu jamais a identificaria […]”
Esse trecho em particular, quando o autor constata que a Mamorana é exatamente como ele havia imaginado e descrito anos atrás em outro livro sobre a região amazônica (num romance), comoveu-me sobremaneira, porque eu sou de uma vila cujo nome é uma homenagem a essa árvore nativa, e, no entanto, eu nunca vi uma pessoalmente; e o livro, até certo ponto, tem essa força de nos lembrar de onde somos e o que deveríamos preservar.
Em vários momentos, houve essa sensação de pertencimento às cenas documentadas. Por exemplo, em relação aos costumes do “caboclo”. Ao final, Gastão, enquanto um viajante apaixonado pelos meandros do que registrou, ainda oferece um elucidário taxinômico com significado de vocábulos e expressões regionalistas. Um verdadeiro achado histórico que, no mínimo, deveria figurar entre os destaques das prateleiras escolares.