“Desabrigo”, escrita por Antonio Fraga em 1942, publicada três anos depois e logo elevada à categoria de lenda literária. Escrita inteiramente em gíria, narra as aventuras de Cobrinha, um malandro carioca, e transformou seu autor num mito, elogiado por Oswald de Andrade, que observou, em 1947: “O Fraga foi um pioneiro. Hoje ele não é mais o único escritor que escreveu usando gíria, mas pode ser considerado o fundador deste estilo”. Desde a primeira edição, “Desabrigo” se faz acompanhar por um glossário, que ajuda a decifrar algumas das gírias usadas pelo autor. Das citadas no texto acima, o glossário esclarece as seguintes: Getulinho: moeda cunhada com a efígie de Getulio Vargas; Nicolau: dinheiro; Patolando: pegando, apanhando; Tista: tostão; Totó: nota de Cr$ 5. A trajetória de Fraga (1916-1993) é um grande mistério, em boa parte esclarecido por Maria Célia Barbosa Reis da Silva, que dedicou seu mestrado e doutorado ao estudo da obra e da vida do escritor. Em “Antonio Fraga, Personagem de Si Mesmo”, publicado no final de 2008, Maria Célia descreve Fraga como um intelectual de muitos recursos, mas pouco traquejo social. Era um autor capaz de transformar em literatura a voz dos miseráveis, mas estava, ao mesmo tempo, em permanente diálogo com grandes autores. Autodidata, sem profissão (foi até lanterninha de cinema em momentos de apuro), Fraga era uma figura famosa no Rio das décadas de 40 e 50, mas a certa altura optou por isolar-se em Queimados, na Baixada Fluminense, onde viveu em dificuldades, e esquecido, até a morte. Escreveu muito, mas publicou pouquíssimo. A primeira edição de “Desabrigo”, publicada pelo próprio Fraga em parceria com Antonio Olinto, teve grande repercussão, mas quase não vendeu. O mesmo se deu com a segunda edição (Mundo Livre, 1978) e a terceira (Secretaria Municipal de Cultura, RJ, 1990). Depois da morte de Fraga, houve mais uma tentativa de fazer conhecer a sua obra, por meio de “Desabrigo e Outros Trecos”, publicado em 1999 pela Relume Dumará. O livro que acaba de ser publicado, “Desabrigo e Outras Narrativas” (José Olympio, 208 págs., R$ 30) é, portanto, o quinto esforço de levar a um público maior a obra de Fraga. Trata-se de uma edição caprichada, que conta com uma introdução de Maria Célia Barbosa Reis da Silva, bem como a republicação de várias novelas e contos de Fraga (como “Acalanto” e “O louva-a-deus”), incluindo um inédito (“Crepuscular”). O volume reproduz, também, uma reportagem sobre Fraga, publicada em 1978 na revista “IstoÉ”, de autoria de Maria Amélia Mello, hoje editora da José Olympio, na qual o escritor é chamado de “Joyce do Mangue”. Sete anos depois, em 1985, ele viria a rejeitar este rótulo, em entrevista ao “Jornal do Brasil”, dada a Zuenir Ventura e a mim, também reproduzida no livro: "Em 1978, a revista IstoÉ me mostrou como o “Joyce do Mangue”, imagina. Eu não sou o James Joyce. Ele escreveu uma parte do livro dele em gíria, mas não viveu o que eu vivi. Foi um rapaz educado em igreja católica e nós não temos nada em comum." Para quem tem interesse acadêmico no assunto, a nova edição também é de grande ajuda, ao trazer uma relação das obras publicadas sobre Fraga, além agrupar numa lista os principais estudos, reportagens e entrevistas que têm o escritor como objeto. FONTE: http://mauriciostycer.ig.com.br/tag/desabrigo/

