Uma morte, um mistério, uma investigação com diversos suspeitos e o suspense mantido numa leitura de um só fôlego até as páginas finais – sem dúvida o romance policial é um dos gêneros mais fascinantes, com sua fórmula inesgotável sempre renovada, levando aos desfechos mais surpreendentes. Em Pássaros pretos, o leitor irá encontrar muitos dos principais elementos que constituem um bom livro policial, aqui conduzido com maestria pela escrita ágil de Miriam Mambrini. A começar pelas aves de mau agouro avistadas pela jovem Íris Flora da janela de um apartamento em Paris – prenunciando a descoberta do cadáver de seu pai, enforcado numa viga em sua casa de praia –, o mistério se instala já nas primeiras páginas. Suicídio ou assassinato? E neste último caso, quem teria o motivo, a oportunidade? Insatisfeita com a investigação conduzida pelo delegado Vítor Castro, Íris decide buscar o auxílio do exótico escritor Próspero Munhoz para desvendar o crime. A partir daí, a história seguirá por um rumo novo e inesperado, sob a sombra escura das aves de rapina.
Pássaros Pretos -
Miriam Mambrini
Edições (1)
Ver maisMiriam Mambrini - Pássaros Pretos
Editora 7 Letras - 200 Páginas - Lançamento: 20/06/2017. Uma trama criativa, personagens bem caracterizados e diálogos precisos na melhor tradição de Rubem Fonseca e Luiz Alfredo Garcia-Roza, autores que ganharam espaço na literatura nacional com o romance policial, um gênero nem sempre reconhecido pela crítica, mas adorado pelo público. De fato, Miriam Mambrini neste seu décimo livro, nos mostra mais uma vez como sabe contar uma boa história e manter o nosso interesse da primeira até a última página. Em Pássaros Pretos, o leitor é levado por uma narrativa rápida e cinematográfica, de capítulo em capítulo, na investigação de um crime por meio de uma sequência de eventos que tem início quando a jovem e sensual protagonista Íris Flora é comunicada em Paris da morte de seu pai, enforcado numa viga em sua casa de praia em Cabo Frio, Rio de Janeiro. A hipótese de suicídio logo é descartada e, como em todo bom romance policial, uma sucessão de pistas falsas e suspeitos é apresentada aos investigadores, enquanto novos crimes são descobertos. Os pássaros pretos são um prenúncio de mau agouro no início do romance e mais um dos elementos para solução da trama, começando com a referência aos corvos nos telhados do bairro Le Marais em Paris, que nos remetem inevitavelmente ao sobrenatural de Edgar Allan Poe, um precursor do gênero policial (Os crimes da rua Morgue) até chegar nas grandes aves de rapina tão comuns em nosso país, mais conhecidas como urubus. "Ao atravessarem a ponte, viu bandos de pássaros planando no ar. Fragatas, talvez. Ou gaivotas. No voo não dava para identificar a espécie, mas notou que a maioria era preta e tinha asas de grande envergadura, alguma coisa de branco no pescoço. Fragatas. Havia aves pousadas nas traves quase horizontais dos modernos postes de iluminação, muitas de asas abertas, como águias prontas para voar. Essas eram mais robustas e totalmente pretas. Urubus. Provavelmente estavam aproveitando o mormaço para secar as penas. Juntavam-se nos postes, aos dois, aos três, aos cinco. Pensou nos três corvos do Marais, com um estremecimento. Estava sendo perseguida por pássaros pretos. O que significaria aquilo? Nada, claro. Sempre havia pássaros voando sobre o mar. Pretos, brancos, gaivotas, fragatas... Urubus também." (Págs. 52 e 53) Uma estratégia acertada da autora foi colocar a filha do homem assassinado como fio condutor de toda a investigação, auxiliada pelo ex-namorado Beny, o inspetor de polícia local Vitor Castro e, até mesmo, um inusitado escritor de romances policiais chamado Próspero Munhoz a quem ela recorre por falta de experiência no assunto. A fragilidade e a falta de conhecimento prático da protagonista criam um efeito de empatia com o leitor que acaba participando junto com ela, descobrindo as motivações do crime e os verdadeiros interesses de cada personagem. A lista de suspeitos só aumenta em um turbilhão de descobertas, incluindo pessoas da própria família e ela logo irá se surpreender com fatos graves envolvendo o passado do pai que ela pensava conhecer muito bem. "A casa estava silenciosa e pálida sob o sol de meio-dia. Íris Flora estacionou o carro em frente ao portão, com o coração batendo forte. Não seria fácil encarar a sala onde seu pai fora assassinado, mas queria ver tudo com seus próprios olhos. Talvez achasse alguma pista de como a tragédia ocorrera, e de quem poderia ser o responsável. Já se passara algum tempo, pistas tinham sido destruídas, mas confiava em sua intuição. Não queria ser pretensiosa, não se julgava mais perspicaz que ninguém, e os policiais tinham experiência em crimes e na análise das cenas de crimes, mas se tratava de sua casa, de seu pai, e esses ela conhecia muito bem." (Pág. 59) Em contraste com a violência dos crimes e as aves de mau agouro, chama a atenção no livro a sensualidade de Íris Flora, seguindo também também uma tradição do romance policial Noir que sempre se aprofunda no que há de mais humano nos personagens e não apenas nos detalhes da investigação. Ela tem o seu interesse dividido entre o desejo pelo ex-namorado, ele próprio um dos suspeitos, e a atração crescente despertada pelo inspetor Vitor Castro de quem ela depende agora para manter a própria segurança, ameaçada pelo assassino. O final, como não poderia deixar de ser, guarda uma grande surpresa para o leitor.
Estatísticas
Avaliações
3.4 / 5- 5 estrelas20%
- 4 estrelas20%
- 3 estrelas40%
- 2 estrelas20%
- 1 estrelas0%

