Do mesmo modo que em seus dois livros anteriores que li, A Medida do Mundo (Companhia das Letras, 2007) e Fama: Um Romance em Nove Histórias (idem, 2011), em F Daniel Kehlmann também conta histórias sobre determinados personagens (quatro principais desta vez), que quase podem ser lidas separadamente, mas que de fato formam um romance.
F é sobre fé, falsificação e fraude Também f de fuga (ou desaparecimento), que é o que ocorre com Arthur Friedland (mais um F nesse sobrenome), o pai que abandona os três filhos adolescentes (de dois casamentos diferentes) depois de passar por uma marcante experiência de hipnose. Isso tudo em 1984. Passados 24 anos, portanto em 2008, vamos encontrar Martin (do primeiro casamento de Arthur) e os gêmeos Erick e Ivan (do segundo), vivendo na Alemanha durante a crise imobiliária global, iniciada nos EUA.
Arthur se tornou, por conta daquele episódio de hipnose, um famoso escritor, cujo livro Meu Nome é Ninguém, transformou-se num best seller. Que um personagem diz ser um romance antiquando sobre um jovem que está começando a vida e de cujo nome sabemos apenas a primeira letra: F. Mas que faz muito sucesso com sua mensagem desesperançosa, a de que a consciência humana não tem sentido e que nenhum de nós realmente existe, acabando por inspirar entre os jovens uma onda de suicídios.
Mas antes disso vemos os três filhos de Arthur - que não fizeram o mesmo sucesso que os dois filhos de Francisco, e isso é uma brincadeira porque o livro de Kehlmann também tem lá seus momentos de exotismo e humor se esforçando para dar algum significado às suas vidas, mas sem nunca atingir o sucesso do pai.
Martin, viciado em cubo mágico desde cedo, é um padre comilão e sem fé, que não acredita nem mesmo que Deus exista. Erick, que se profissionalizou em negócios financeiros está vivendo uma enrascada por ter metido a mão em dinheiro alheio que acabou perdendo, não consegue recuperá-lo e está viciado em remédios, delira, não se alimenta direito etc. Ivan, que se tornou pintor, falsifica quadros pintados por seu amante, um artista bem mais velho que ele, e a certo momento da história desaparece, causando preocupação em todos.
Depois de conhecermos Arthur, Martin, Erick e Ivan e suas histórias, temos Marie, a filha de Erick, que entra em cena de fato mais perto do final da narrativa e vai fazer a ligação entre todos esses personagens quando o tio dela, Ivan, o pintor, desaparece. E aí estamos caminhando para o desfecho. Uma missa rezada por Martin pela alma de Ivan, seu suposto irmão morto. Então eu me pergunto: gostei de F? Gostei mais de Fama, que em alemão não começa com f, porque se escreve Ruhm.
Lido entre 01 e 11 de abril de 2025.