"O grande poeta de Minas Gerais não sou eu: - é o espantoso poeta Dantas Mota. O grande poeta do Brasil também não sou eu: - é o nordestino Gerardo Mello Mourão. Sempre sonhei chegar à poesia a que ele chegou. Não tive força. Ele teve." Carlos Drummond de Andrade CÂNON & FUGA, título perfeito (sintético e paradoxalmente múltiplo), define com exatidão o novo livro de poesias de Gerardo Mello Mourão - vencedor do Prêmio Jabuti 1999 na categoria poesia com Invenção do mar. A complexidade da obra, as correlações e os caminhos escolhidos pelo poeta encontraram, no ato de batismo, a mais perfeita representação. Cânon e fuga, ao primeiro olhar, se associam a ritmo e sonoridade, características primeiras dos versos do poeta. Do cânon, Gerardo Mello Mourão retira o solo inicial, a riqueza dos contracantos que vão ampliando volumes e fraseados, o eco dos sons, diálogos e êxtases. Sabe que há outros signifcados, litúrgicos e catalográficos, que redimensionam o cânon num plano religioso e memorial. Vai além: aproxima-se das raízes greco-latinas, canon e kánon, para avisar sobre a presença de Vênus e Beatriz, Baco, Ulisses e Afrodite em sua obra poética. Atingindo o ponto extremo da síntese, o poeta seleciona "&", símbolo frio e atual, como ponto de ligação, agregando modernidade à sua poesia, e passa para a fuga, polifônica, cadenciada, com frestas abertas ao diálogo, às oposições. Percorre todos os seus movimentos (da exposição inicial à coda final, passando pelos episódios, estretos, respostas e contra-sujeitos). E de outras fugas, mais arrítmicas, não relacionadas em dicionários musicais, fala o poeta em sua obra. Cearense, nascido no ano de 1917 na cidade de Ipueira, Mourão aproximou-se, na adolescência, da vida monástica e da carreira militar, mas não resistiu à sedução da palavra. Tradutor de Mao Zedong, Rilke e Parmênides, o poeta-romancista lançou em 1998, com o selo Record, o poema épico Invenção do mar, que foi saudado entusiasticamente nas resenhas literárias. Clóvis Brigagão escreveu: "Reconhecido pelos poetas como um dos grandes do século, o autor de Os peãs continua a varar o tempo com sua epopéia torrencial." José Nêumanne, em sua resenha no jornal O Estado de S. Paulo, completou: "Esse sim, é exclusivo de quem sabe: o eleito das musas. Isso, Gerardo Mello Mourão está dando mais uma prova prática de sê-lo."

