Na esperança de trazer alguns dos contributos potenciais de Heidegger para a filosofia ambiental a um público alargado e interdisciplinar, o autor procura explicá-los e defini-los à medida que avança com o primeiro capítulo, proporcionando uma perspectiva geral, e fornecendo progressivamente os detalhes nos seguintes. O autor escolheu uma abordagem prioritariamente expositiva do pensamento de Heidegger, não por subscrever de uma maneira não crítica todas as ideias de Heidegger sobre estes e outros assuntos, mas primeiro que tudo porque o seu objectivo principal foi simplesmente o de ver o que é que estas ideias eram quando foram seleccionadas, reunidas e lidas, e apresentadas de uma forma construtiva - procedimentos que lhe pareceram ser indispensáveis pontos de partida para compreender o pensamento de alguém cuja obra merece, por direito próprio, ser levada a sério. Em segundo lugar, todavia, o autor não encontra uma base filosófica adequada a partir da qual uma crítica sustentada, coerente e frutífera poderia ser posta em prática, apesar do recente ciclo de turbulência sobre a política e o mau comportamento político de Heidegger. As ideias de Heidegger estão aqui presentes por si próprias, sem serem estreitamente ligadas às conclusões e opiniões do autor sobre aquilo que devia ser pensado e feito, ou às direções que a filosofia do ambiente deveria tomar.
Habitar a terra - Heidegger, ética ambiental e a metafísica da natureza
Bruce V. Foltz
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A degradação do ambiente natural tem sido frequentemente designada pela apropriada mas ambigua frase “crise ambiental”. Apropriada porque em termos médicos da palavra inglesa “crisis”, crise é o ponto em que o doente ou melhora ou morre e ambigua porque é mais pertinente falar de uma krisis no sentido grego antigo que significa “decidir”, “juizo” ou “sentença”. Segundo a ideia de Heidegger, a culminação da completação da metafisica se dá através da tecnologia, logo seu pensamento conduz a uma compreensão pos-metafisica da natureza. Não envolve, com isso, uma rejeição da tecnologia, estando esta envolvida com a propria textura do pensamento ocidental, apenas fazendo as pazes com a mesma é possivel emergir um “novo começo”. Para Heidegger “vem a prevalecer a impressão de que tudo aquilo que o homem encontra existe apenas na medida em que é uma construção sua” (pag. 29) desta forma altera o ser do ser das coisas, como um rio que teve uma barragem nele construida em nome da técnica para a produção de energia hidroelétrica. Diferentemente da visão de Descartes que define a natureza “como res extensa (pois a extensividade é aquilo que está sempre necessariamente presente nos entes “corporeos”)” (pag. 30) determinando-a como presença constante, Heidegger defende que o conceito de natureza está “tão profundamente inculcado na tradição metafisica que está irremediavelmente ligado ao conceito de simples presença.” (pag. 32) Segundo os filosofos Löwith e Jonas, o conceito de “natureza” é a fusão do sentido de ambiente natural com o sentido de essência e, a nossa perda de identidade vital com a “natureza” fez com que perdêssemos de vista nossa “natureza” eterna, Segundo elesa primeira articulação deste posicionamento existencialista veio em “Ser e Tempo”. As obras de Heidegger dos anos 1920 mostram como a metafisica obstruiu a compreensão das coisas a nossa volta e nossa relação com elas, entre as quais a natureza. “As coisas naturais tal como as coisas uteis ou ferramentas são encontradas pelo Dasein primeiramente na matriz de referência gerada pelo “para” da preocupação” (pag. 50), desta forma, passam a ser ferramentas como, por exemplo, uma floresta é madeira, uma montanha é uma pedreira. É feita distinção entre a natureza produtiva, onde entra a questão da manuseabilidade, e a natureza primordial. Segundo Schiller, apos experimentarmos a ausência da natureza a qual estamos haitubados (pescador sem suas redes, lavrador sem os campos) nos tornamos poetas. O sentido moderno de natureza a des-natura duplamente, primeiro através do cristianismo “pelo qual a natureza foi “degradada” no estatuto do ens creatum, para o ser o efeito de uma causa primeira, auto-causada e assim posta sob o sobrenatural” (pag. 86) e a segunda e decisiva pela ciência natural moderna, que “dissolveu a natureza na orbita da ordem matematica do comércio mundial, da industrialização, e, num sentido particular, da tecnologia da maquina”. A des-naturação através da matematica deve-se ao fato de a ciência natural moderna empregar necessariamente a matematica, que em sua base se solidifica sobre o que já é previamente conhecido. O ser dos entes da Idade Média faz referência ao ente mais elevado, ou seja, “à agência de Deus, cuja acção é entendida como um fazer (facere) e um criar (creare).” (pag. 94) Heidegger não faz criticas à tecnologia por si so, mas sim à situação de dominação que a tecnologia moderna causa sobre a natureza e sobre os individuos. “No âmbito desta relação tecnologica, uma relação cujo fundamento ontologico Heidegger caracteriza como “a estruturação” (das Gestell), a natureza não está perto de nos nem a nos fala.” (pag. 115) Em alemão o prefixo –ge denota uma totalização, o substantivo Stell indica lugar ou posição, enquanto Gestell significa uma ordenação na qual tudo é posto no lugar, na qual tudo é fixado numa posição (por exemplo uma prateleira, uma estante ou uma moldura). (pag. 124) A segunda parde do livro, “A desconstrução da metafisica da natureza segundo Heidegger: para uma nova topologia do natural” lembra do empenho da ultima fase de Ser e Tempo para a distinção e delineação de uma série de épocas na historia em que o ser enquanto tal se tornou crescentemente dominado pelas exigências da metafisica da presença constante. Neste capitulo, é sublinhada a contribuição da desconstrução global da metafisica para a desconstrução da metafisica da natureza, sendo que , Lovejoy identifica para natureza nada menos que dezoito sentidos diferentes apenas na sua função estética. Entre esses sentidos estah o da natureza como vida (Zôê), que contituiu sempre um significado primario do conceito de natureza. Para a ciência moderna, a relação das coisas vivas, tal como na ecologia nada mais é que a relação externa de um animal ou planta “meramente presente” com um “mundo que estah apenas aih”. Para os gregos, estar vivo era ser “dotado de uma alma”. Natureza como terra, a matriz, considerada o atomo. Uma pedra, mesmo quando quebrada, se divide em partes menores mas não expões mais o seu “interior” que a pedra original.Tal como a terra é a terra debaixo de nossos pés, o céu é o céu sobre nossas cabeças, e também é esse céu usado como sentido de natureza, o kosmos para os gregos antigos. A natureza como patria na qual o espectador se entrega ao ambiente natural apenas por meio de um envolvimento essencial com ele. No caso pessoal do proprio Heidegger recusou ofertas para lecionar em Berlim poque teria que ser obrigado a deixar sua terra natal. A natureza como criação,”O Sagrado”, para Hölderlin, “a natureza é “todo-presente”, “maravilhosa” e “divinamente bela”.” (pag.177) Para Heidegger, “o carater basico da existência humana (Dasein)” (pag. 190) é a morada ou habitação, a qual funda-se sobre o poético sendo que o ser da natureza nos é revelado através do poético. “O poético é ele proprio uma dadiva” (pag. 191). Quando refere-se à preposição em no livro Ser e Tempo, estah se expressando através de uma forma derivada do verbo arcaico innan, que significa residir ou morar. A natureza que é trazida ao aberto deve também ser conservada, porém conservada significa que seja utilizada, implicando assim em fazer permanecer em sua essência. Logo, uma casa, não é uma casa se for meramente preservada e não habitada. A terra so pode ser salva então se for habitada, “a conservação que é fundamental para a morada envolve salvar a terra” (pag. 196). Como salvar a terra? “ Para Nietzsche, cujo Zaratustra nos exorta a sermos verdadeiros para com a terra, a libertação do espirito de vingança ocorre através da afirmação dizendo sim ao terreno. Para Heidegger, ocorre através do recuo da metafisica – o recuo para a terra sobre a qual já moramos – e completa-se através da conservação que deixa as coisas ser (neste caso, as coisasa terrenas) através do cuidado com elas, isto é, através da salvação da terra como terra. Salvar a terra e morar sobra a terra implicam em ser a mesma coisa. No campo da ética ambiental, um erro recorrente é o de deixar o conceito de ambiente aberto, o que leva-o a ser empregado às vezes como natureza, terra ou como objeto da ciência da ecologia. A partir do pensamento mais tardio de heidegger, “o ambiente é aquilo que habitamos mais imediatemente, aquilo que nos diz respeito e que nos concerne mais persistentemente, e consequentemente aquilo cuja significação se interliga mais continuamente com o curso das nossas vidas.” (pag. 206) “Para os ambientalistas orientados para uma reforma, a obra de Heidegger representa uma cautela contra uma ênfase parcial em resultados imediatos que subestimariam a abrangência do problema e que portanto inadvertidamente arriscariam agrava-lo” (pag. 208). Para a filosofias ambientalistas como o ecofeminismo e a ecologia social, a obra de Heidegger é a primeira abrangente e não redutora desde Hegel. Para as abordagens do bio-regionalismo, ecologia profunda e holismo ecologico “compartilham com Heidegger uma orientação fortemente critica para a “sujeitividade”, o individualismo e o humanismo da consciência moderna; todas vee a necessidade de uma transformação radical na vida, no pensamento na sensibilidade ou na cultura; todas veem os seres humanos adequadamente entendidos apenas no contexto de algo maior, e portanto de algum modo a isso subordinados.” (pags. 208 e 209). Todavia, as diferenças aparecem no momento da posição em que o humanismo põe o ser humano, consideradadeemasiado alta por estes, e, demasiado baixa por Heidegger, “ao ver-nos a nos proprios como aquilo que é ontologicamente mais elevado do que aquilo que é meramente humano.” (pag. 209)
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